O importante não é aquilo que fazem de nós, mas o que nós mesmos fazemos do que os outros fizeram de nós.
JEAN-PAUL SARTRE

sábado, 27 de outubro de 2012

domingo, 21 de outubro de 2012

SERÁ?


Fé é nostalgia. É um nó na garganta. A fé é mais um passo adiante do que uma posição, mais um pressentimento do que uma certeza. A fé é espera. Ela está caminhando no tempo e no espaço. Portanto, se alguém se chega a mim e me pede para falar sobre minha fé, é exatamente sobre essa jornada no tempo e no espaço que falo. Os altos e baixos das lágrimas, os sonhos, os momentos particulares, as intuições. Falo sobre a sensação ocasional que tenho de que a vida não é uma sequência de eventos que gera outros eventos tão a esmo, quanto uma tacada no jogo de bilhar faz que as bolas se afastem em diferentes direções, mas que a vida tem um roteiro, assim como num romance - aqueles eventos que, de algum modo, nos levam a algum lugar.

Buechner

quarta-feira, 10 de outubro de 2012

O ENSINO DA GRAMÁTICA - RUBEM FONSECA


Você está triste?

Não sei. Talvez.

Tristeza dá câncer, sabia?

Pensei que dava verruga no nariz.

Estou falando sério.

Ultimamente você vive falando sério.

Quando eu brincava você reclamava.

Nem tanto ao mar nem tanto à terra.

Você colocou vírgula depois de mar.

Estou falando, não estou escrevendo.

Mas na sua fala tinha uma vírgula depois de mar?

Não. Você está fazendo uma análise sintática e morfológica da frase?

Na frase há o uso da figura de sintaxe chamada elipse.

Chega. É por coisas assim que eu não quero mais viver com você.

Porque eu sei gramática e você não?

Entre outras coisas.

Não gosta mais de foder comigo?

Usarei uma elipse aqui. Ou melhor, uma zeugma.

Zeugma é um substantivo masculino.

Um zeugma, então.

Significando?

Que é fácil subentender.

Subentender por que você não gosta mais de foder comigo?

Precisamente. Pensa.

Estou pensando e não consigo.

Pensa em nós dois na cama.

Você sempre se manifesta pomposamente na hora do orgasmo.

Pomposamente? Explica.

Exibição de magnificência sensual. Mímica.

Mímica?

Mímica. Muito bem-feita.

Vou fazer as malas. Diga: já vai tarde.

Já vai tarde.

E esses olhos úmidos de lágrimas?

Mímica.

Acho que vou ficar mais um pouco.

Um pouco?

Uns dias.

Dias?

Pensando bem, uns meses. Mas você me ensina gramática durante esse tempo.

Então deixa de ficar triste.

Tenho uma razão. Já estou com câncer.

Jura?

Juro. Pulmão. O cigarro.

Meu amor, vou cuidar de você.

Mas antes me ensina gramática


Texto extraído de "Axilas e outras histórias indecorosas", de Rubem Fonseca, Editora Nova Fronteira - 2011

terça-feira, 9 de outubro de 2012

O ESTRANHO «MUNDO» DE ERIK-THOR SANDBERG


Erik-Thor Sandberg em cada uma das suas composições, procura estabelecer uma conversa entre o artista e o espectador. O diálogo gerado pelos seus trabalhos, são sucessivas interrogações, com o objetivo de questionar a identidade humana. Usa um simbolismo muito pessoal, criando narrativas sem começo, nem fim, captando momentos cruciais e isolando-os. Momentos suspensos, em que o artista abstém-se de fazer julgamentos.
Sandberg tem representado cenas do vício e de virtude, do ponto de vista de que a natureza humana é inerentemente imperfeita. As suas pinturas habilmente trabalhadas, revelam de forma inesperada como a imperfeição torna a vida interessante. Quantas vezes o inquietante e o grotesco, se tornam no belo! No entanto essa beleza, constante no seu trabalho, contrasta com elementos bastante perturbadores, que sendo imaginários, muito têm a ver com a realidade.





VIDEO - MS: http://www.youtube.com/watch?v=6N4aV5RC4Zk&list=UU2MvfHy10SBs1oMNEGvtxzw&index=2&feature=plcp

segunda-feira, 1 de outubro de 2012

ANNIE DILLARD


A maioria das pessoas pensa que escrever é colocar ideias e visões no papel. Consideram que primeiro, precisam de ter alguma coisa a dizer antes que possam efetivamente escrever. Para eles, escrever é um pouco mais do queregistrar um pensamento preexistente. Porém, com esta abordagem, o verdadeiro ato de escrever torna-se impossível. Escrever é um processo no qual descobrimos aquilo que vive dentro de nós. O próprio escrever revela o que está vivo (...) A mais profunda satisfação ao escrever é exatamente que este ato abre novos espaços dentro de nós dos quais não tínhamos consciência antes de começar a escrever. Escrever é embarcar numa jornada cujo destino final não sabemos.

Creio que, em algum lugar do coração do homem, há um clamor por alguém que esteja com ele por toda a vida, alguém que nunca o trairá, nunca o abandonará -mesmo que este alguém seja apenas um cachorro vadio e sarnento.
Se me pedisse para dizer em poucas palavras a essência de tudo que estou tentando dizer como romancista, seria algo assim: ouça sua vida. Veja-a como o insondável mistério que ela é. Nos aborrecimentos e na dor, assim como na alegria e na felicidade. Toque, sinta, prove o seu caminho para o seu  oculto coração.porque, em última análise, todos os momentos sãoimportantes.

David Lynch

"As ideias são como peixes. Podemos encontrá-los à superfície das águas, mas lá em baixo, nas profundezas, é que eles são maiores. E sabem qual é o principal isco para os apanhar? O desejo. Temos que desejar as ideias. É o desejo que traz cá para cima esses peixes graúdos."