O importante não é aquilo que fazem de nós, mas o que nós mesmos fazemos do que os outros fizeram de nós.
JEAN-PAUL SARTRE

quinta-feira, 26 de abril de 2012

Ei-ichi Negishi – NOBEL DA QUÍMICA 2010


Negishi defende a teoria da síntese orgânica, que pode resolver os problemas do mundo, com novos métodos de síntese de compostos químicos complexos, mediante acoplamentos cruzados por paládio. Os métodos que desenvolveu transformaram a Acão das indústrias químicas (agrícola ou farmacêutica) e revolucionaram os laboratórios de sínteses orgânicas em todo o mundo.
Nigishi alega: «Para prevenir a fome precisamos de comida e a química pode ajudar. A maior parte das coisas que precisamos são químicos orgânicos e isso pressupõe carbono. A população está a crescer e no próximo século será imensa e precisamos de outro planeta».

Negishi defende como solução a síntese orgânica: dióxido
  de carbono (CO2) e água (H2O), matérias-primas essenciais. Presentemente, o dióxido de carbono é considerado desperdício e mau para o ambiente. Mas esse é um mau princípio, do ponto de vista científico, porque a natureza usa dióxido de carbono e água, para produzir hidratos de carbono e outros materiais orgânicos.»

terça-feira, 24 de abril de 2012

LIVROS





Nas estantes os livros ficam 
(até se dispersarem ou desfazerem) 
enquanto tudo 
passa. O pó acumula-se 
e depois de limpo 
torna a acumular-se 
no cimo das lombadas. 
Quando a cidade está suja 
(obras, carros, poeiras) 
o pó é mais negro e por vezes 
espesso. Os livros ficam, 
valem mais que tudo, 
mas apesar do amor 
(amor das coisas mudas 
que sussurram) 
e do cuidado doméstico 
fica sempre, em baixo, 
do lado oposto à lombada, 
uma pequena marca negra 
do pó nas páginas. 
A marca faz parte dos livros. 
Estão marcados. Nós também. 

Pedro Mexia, in "Duplo Império"

sábado, 21 de abril de 2012

MOVIMENTOS CÍVICOS ESPONTÂNEOS




Tema | 
“Movimentos cívicos espontâneos”

MoteOs movimentos cívicos, independentemente do seu mote, são o reflexo do pensamento e vivência social, movidos por uma vontade e força única de alcançar algo mais e melhor.
O cidadão deve não só ter consciência dos seus deveres como também dos seus direitos, deve procurar ouvir e fazer-se ouvir, sendo neste sentido que a união, a consciência colectiva e a reflexão devem solidificar esses princípios. É de facto, a partir desta consciência que têm vindo a surgir e a ampliar-se, nos mais variados contextos, os movimentos cívicos espontâneos, uma força que procura mover as mudanças sociais.
Estes movimentos perduram e continuarão a ser reproduzidos enquanto os cidadãos se questionarem; alimentam-se, de facto, da procura de mudança, do desejo de ampliação dos direitos sociais, da utopia da democracia e da importância efectiva da cidadania.
Em suma, a cidadania, como processo histórico que depende da força organizativa e mobilizadora dos cidadãos, assim como das organizações e associações sociais por eles criadas, impulsiona e fomenta a procura de dois princípios fundamentais da democracia - a igualdade e a liberdade.
A presença e progressiva reacção social no contexto em que actualmente se vive é constante e será tema de discussão, debatendo-se causas e razões e, sobretudo, fazendo-se entender que a qualidade da cidadania depende não só da participação no diálogo e na estrutura organizacional do País, como também da acção cidadã na procura consciente e reflectida da ampliação e efectiva implementação dos seus direitos e prática dos seus deveres.


Se uma manifestação pacífica é uma ferramenta efectiva da prática livre de expressão, porque são encaradas como uma apropriação abusiva do espaço público e controladas forçosamente? Partindo do pressuposto que a partir da comparação se pode melhorar, porque não se compararam situações passadas e são, hoje, novamente vividas? Ao vivermos hoje, num mundo global completo por um “todo” interligado, não será a capacidade de conjugar recursos, percepções e inquietações reais, uma forma de ampliar os contributos de uma gestão pública consciente?
Conscientes da importância do uso livre da expressão, propõe-se uma conversa que visa despertar para a importância da cidadania activa na organização da sociedade; reflectir sobre os mecanismos sociais; analisar o papel dos novos meios de comunicação e o impacto que exercem neste contexto, bem como conhecer e compreender os diferentes movimentos cívicos que representam as inquietações da sociedade contemporânea.

Local | Palácio das Artes – Fábrica de Talentos, Largo de S. Domingos, Porto

Data | 26 de Abril (Quinta-feira)

domingo, 15 de abril de 2012

WAGNER



A Revolução Francesa é considerada a mãe de todas as revoluções. Os seus princípios de Liberdade, Igualdade e Fraternidade originaram uma nova ordem social na Europa e estenderam a sua influência ao nível das mentalidades um pouco por todo o mundo. As suas repercussões ao nível das artes em geral e da música em particular fizeram-se sentir ao longo de todo o século XIX, ecoando mesmo no século XX.
Se Wagner e Debussy anunciaram a ruptura com a tonalidade e desvendaram novas possibilidades no timbre, na forma e no gesto musical, personalidades como o excêntrico Eric Satie, o inovador Pierre Henry, o místico Messiaen ou o vanguardista Pierre Boulez criaram novos rumos para a música do nosso tempo. A Abertura da ópera Tannhaüser de Wagner (causou em Paris um escândalo lendário).

 

sexta-feira, 13 de abril de 2012

Declaração de Amor à Língua Portuguesa


Minha pátria, minha língua
Linha pátria, minha míngua
Juro-te, se fores minha gramática
Eu serei tua sintaxe.
É que, em ti, gosto de tudo
Dos sons, dos ecos, da surdez 
Até das tuas rimas fáceis
Em extáse, em extáse.
Certo, nem sempre nos entendemos
Desgosto quando dizes atempadamente
E tu enxofras com os meus isso é suposto.
Mas não tem mal
Um dia, num presente distante
Voaremos juntos a uma ilha deserta
Lá cantarás só para mim
E eu, enfim (prometo que sim) 
Calar-me-ei de vez 
Só para ti.
Seremos não mais uma língua 
e seu falante
Tão só uma palavra (uma palavra simples)
e o seu não menos discreto 
amante

Poema inédito de Rui Zink (JL)

quarta-feira, 11 de abril de 2012

«ENSAIO SOBRE A CONSTITUIÇÃO DA EUROPA» - JÜRGEN HABERMAS

Depois de ler o prefácio (JL- José Joaquim Gomes Canotilho) do livro «Ensaio Sobre a Constituição da Europa», considerei importante transcrever para aqui um excerto do seu pensamento.
Jürgen Habermas é um dos mais importantes pensadores contemporâneos, com uma vasta e versátil obra. Neste novo Ensaio, que vai sair em Portugal, publicado pelas Edições 70, o filósofo alemão trata das questões da ordem do dia e mesmo no imediato decisivas, que assolam a Europa, no «seu longo e brechtiano impulso de melhor a Europa e o mundo.»

«Do meu ponto de vista, sobre o plano da política europeia, o governo alemão está fazendo poucas coisas certas e muitas coisas erradas. O slogan "Mais Europa" é a resposta certa para uma crise devida a um defeito de construção da comunidade monetária. A política não consegue mais compensar os desequilíbrios econômicos que dela nasceram. No longo prazo, a reorganização dos desenvolvimentos econômico-nacionais divergentes só é realizável em termos de colaboração, no âmbito de uma responsabilidade democraticamente organizada e compartilhada, capaz de legitimar também um certo grau de redistribuição que ultrapasse as fronteiras nacionais.

Desse ponto de vista, o fiscal compact certamente é um passo na direção certa. Desde a sua definição oficial – tratado "para a estabilidade, a harmonização, e a governabilidade" – vê-se como esse pacto é constituído de dois elementos diferentes. Ele obriga os governos, de um lado, a respeitar as disciplinas de orçamento nacional; de outro, à institucionalização de uma governabilidade de política econômica, que tenha por objetivo eliminar a descompensação econômica (pelo menos na zona do euro).

Mas como é possível que Angela Merkel festeje só a primeira parte do pacto, a que visa a penalizar as infracções de orçamento, enquanto não gasta uma palavra sobre a segunda parte, que visa a uma concertação política da governabilidade econômica? (...) 

O governo alemão, embora reconhecendo em palavras a necessidade de uma maior integração, de fato, contribui para deixar a crise apodrecer. A esse respeito, limito-me a quatro breves considerações. Em primeiro lugar, não é preciso muito, em termos de política econômica, para entender que uma política unilateral restritiva, como a defendida na União Europeia pelo governo alemão, leva à deflação os países que mais sofrem. Onde as políticas restritivas não se integram a políticas de desenvolvimento, a paz social das nações postas sob tutela acabará sendo perturbada não apenas pelas manifestações pacíficas e ordenadas dos sindicatos.»

segunda-feira, 9 de abril de 2012

Sidónio Muralha – “Três poemas”


Companheira dos homens
I
A poesia dos senhores que propagam o nevoeiro e confundem as gentes
poesia tão pessoal como uma escova dos dentes,
a poesia que eles queriam guardar nas suas casas
numa gaiola, como um pássaro a quem mutilassem as asas,
a poesia quebrou as algemas e saiu da prisão
e arrastou-se nas trincheiras, e dormiu nos campos de concentração,
e amou aqueles que negam mas que nunca se negaram,
e conheceu prostitutas que nunca se entregaram,
e comeu na malga dos soldados aquela sopa de massa
que é igual para todos como o pré e a desgraça.
E os homens aprenderam nas noites de inclemência
a cantar os seus versos, a recitá-los de cor,
e a murmurá-los nessas horas em que tudo é confidência
e em que cada palavra ganha uma ressonância maior.
II
O medo faz calar as aves nas florestas densas
mas as canções dos homens faze-as mais largas, mais intensas,
mais impetuosas, mais rudes, canções que ferem e espantam
pois com o medo as aves calam-se e os homens gritam e cantam.
E a canção é um homem que percorre o Mundo lés a lés
gesticulando com os seus próprios braços, andando com os seus próprios pés,
grito que vai de continente em continente implacável e forte
e que passa as fronteiras sem precisar de passaporte.
Canções robustas e lavadas que se levantam cedo
e bebem a madrugada e têm o fôlego dos atletas,
porque enquanto as aves se calam, estranguladas pelo medo,
o medo, como uma faca, rasga os corações dos poetas.
III
E os poetas dão-se as mãos como se encontram as poesias
e se encontram as exigências de duas refeições todos os dias.
Que todos temos os mesmos problemas, as mesma fúrias e dores,
e todos pagamos o mesmo juro nas casas de penhores,
e todos falamos a mesma língua terrena, viva, saborosa e agreste
e deixamos aos anjos a linguagem celeste,
e todos transportamos tijolos para a casa começada
e lhe rasgamos as janelas e a desejamos arejada,
e todos temos um estômago e temos um coração
que bate compassadamente a mesma inquietação.
Inquietação presente nas coisas, nos gestos e no ar,
inquietação que remexe ou que paira, ameaçadora e tamanha,
como um polvo que se revolve no fundo do mar
ou um grão de dinamite incrustado na montanha.