O importante não é aquilo que fazem de nós, mas o que nós mesmos fazemos do que os outros fizeram de nós.
JEAN-PAUL SARTRE

sexta-feira, 30 de setembro de 2011

ARMANDA PASSOS – RECURSOS [destaque: panóplia de animais expressivos onde se evidencia bastante a serpente]










Lembrei-me, de El libro de los seres imaginários (Manual de Zoologia fantástica) de Jorge Luís Borges com a colaboração de Margarita Guerrero

Recompilação de seres estranhos que surgiram da invenção humana. Desde tempos remotos, que apareceram registos desse mundo imaginário dos homens, representando sonhos, desejos, medos… Na Bíblia, o Apocalipse, tem que ser lido, para compreender a iconografia do românico…a própria igreja utilizou esse bestiário fantástico, para que Deus fosse temido... Incontornável para mim é a pintura de Hieronymus Bosch.

quarta-feira, 28 de setembro de 2011

FOTOS E MÚSICA


A visita vale a pena...e com ela coloquei um dos adagios de que gosto particularmente: A. MARCELLO: Oboé Concerto in D Minor! Mais importante a música até porque a visita guiada, dificulta bastante fotografar.

segunda-feira, 26 de setembro de 2011

«Um cansaço tão terrível da vida que não há sequer hipótese de dominá-lo...»

Acontece-me às vezes, e sempre que acontece e quase de repente, surgir-me no meio das sensações um cansaço tão terrível da vida que não há sequer hipótese de acto com que dominá-lo. Para o remediar o suicídio parece incerto, a morte, mesmo suposta a inconsciência, ainda pouco. É um cansaço que ambiciona, não o deixar de existir — o que pode ser ou pode não ser possível —, mas uma coisa muito mais horrorosa e profunda, o deixar de sequer ter existido, o que não há maneira de poder ser.

Creio entrever, por vezes, nas especulações, em geral confusas, dos índios qualquer coisa desta ambição mais negativa do que o nada. Mas ou lhes falta a agudeza de sensação para relatar assim o que pensam ou lhes falta a acuidade de pensamento para sentir assim o que sentem. O facto é que o que neles entrevejo não vejo. O facto é que me creio o primeiro a entregar a palavras o absurdo sinistro desta sensação sem remédio.

E curo-a com o escrevê-la. Sim, não há desolação, se é profunda deveras, desde.que não seja puro sentimento, mas nela participe a inteligência, para que não haja o remédio irónico de a dizer. Quando a literatura não tivesse outra utilidade, esta, embora para poucos, teria.

Os males da inteligência, infelizmente, doem menos que os do sentimento, e os do sentimento, infelizmente, menos que os do corpo. Digo «infelizmente» porque a dignidade humana exigiria o avesso. Não há sensação angustiada do mistério que possa doer como o amor, o ciúme, a saudade, que possa sufocar como o medo físico intenso, que possa transformar como a cólera ou a ambição. Mas também nenhuma dor das que esfacelam a alma consegue ser tão realmente dor como a dor de dentes, ou a das cólicas, ou (suponho) a dor de parto.

De tal modo somos constituídos que a inteligência que enobrece certas emoções ou sensações, e as eleva acima das outras, as deprime também se estende a sua análise à comparação entre todas.

Escrevo como quem dorme, e toda a minha vida é um recibo por assinar.

Dentro da capoeira de onde irá a matar, o galo canta hinos à liberdade porque lhe deram dois poleiros.


Livro do Desassossego por Bernardo Soares.
Vol.I. Fernando Pessoa. (Recolha e transcrição dos textos de Maria Aliete Galhoz e Teresa Sobral Cunha. Prefácio e Organização de Jacinto do Prado Coelho.) Lisboa: Ática, 1982.

foto: alberto picco

quinta-feira, 22 de setembro de 2011

JÚLIO RESENDE (1917-2011) - RIBEIRA NEGRA

O painel pintado por Júlio Resende «Ribeira Negra» no seu original pode ser visto no Museu de Transportes do Porto, antiga Alfândega. A sua representação em Azulejo encontra-se na Ribeira, zona histórica e típica do Porto.






SOBRE O MESTRE JÚLIO RESENDE


De uma obra vastíssima, o painel Ribeira Negra, executado em 1968 por encomenda da Câmara Municipal do Porto, é tido como o melhor painel cerâmico contemporâneo. É a sua obra obra-prima, a mais emblemática, uma obra destinada ao espaço público, integrada na paisagem da cidade e muito especialmente na zona da Ribeira, onde registou de forma surpreendente as suas características.

terça-feira, 20 de setembro de 2011

MITOLOGIA







fotos mc - aliança underground museum (exterior)

sábado, 17 de setembro de 2011

RINGSAGA – O ANEL DO NIBELUNGO – RICHARD WAGNER

Remix Ensemble Casa da Música – maestro: Peter Rundel

TETRALOGIA: O Ouro do Reno, As Valquírias, Siegfried, O Crepúsculo dos Deuses

Óperas apresentadas na adaptação realizada por Jonathan Dove e Graham Vick no início dos anos 90 e que recebeu elogios de todos os observadores, incluindo os mais cépticos, perante a oportunidade de reduzir em duração e dimensão orquestral a obra-prima de Wagner. A narrativa da epopeia e a força musical permanecem intactas. As soluções adoptadas na adaptação dramática e musical são coerentes e eficazes.

Orquestração de ensenble instrumental típico do século XX, abre outras pistas teatrais: cenário único e evolutivo, atenção voltada para a relação entre narrativa e acção, utilização das tecnologias actuais de imagem e som para criar uma sensação extraordinária de envolvimento do espectador com a cena.

Seguindo os padrões de arte defendidos por Wagner: unir uma comunidade em redor de um acontecimento excepcional, cujos principais temas são, mais do que nunca actuais – conflitos geracionais e de poder, problemáticas da transmissão, pilhagens das riquezas públicas em benefício de interesses privados, cultura da catástrofe e do medo…

ANTOINE GINDT (encenador)

Uma alegoria impregnada de erotismo, amoralidade, adultério, incesto, violação traição e pulsão de morte ou uma epopeia que termina com a queda dos senhores do mundo e a aurora de uma nova era em que as classes sociais se fundiram na unidade do povo? Uma dissertação musicada sobre o livre arbítrio? Porque não um drama ecológico, ou não tivesse tudo começada com um atentado à natureza e terminado com um cataclismo?

«O anel mostra-nos a Natureza no seu estado de pura verdade e contradição essencial, contradição que na sua infinita variedade de manifestações compreende mesmo o que se repele mutuamente» Wagner

terça-feira, 13 de setembro de 2011

NOÉMIA de SOUSA (1926-2002)

Carolina Noémia Abranches de Sousa Soares, poetisa e jornalista, também usou o pseudónimo de Vera Micaia. Nasceu em 1926 em Catembe, em Lourenço Marques (hoje Maputo), Moçambique, e faleceu em 2002, em Cascais, Portugal. Era casada como poeta, Gualter Soares.

Noémia de Sousa, estudou em Maputo e colaborou no periódico, O Brado Africano.

Com apenas 22 anos de idade, surge na senda literária moçambicana num impulso encantatório, gritando o seu verbo impetuoso, objectivo e generoso, vincado (bem fundo) na alma do seu povo, da sua cultura, da sua consciência social, revelando um talento invulgar e uma coragem impressionante.

Mestiça, revela ser marcada por uma profunda experiência, em grande parte por via dessa mesma circunstância de ser mestiça.

Em 1951 veio para Lisboa, onde trabalhou como tradutora, mas, em consequência da sua posição política de oposição ao Estado Novo teve de exilar-se em Paris, onde trabalhou no consulado de Marrocos.

Poeta, jornalista de agências de notícias internacionais, viajou por toda a África durante as lutas pela independência de vários países.

Em 1975 regressou a Lisboa, onde trabalhou na agência noticiosa portuguesa, Lusa.

A sua obra está dispersa por muitos jornais e revistas. Colaborou em publicações como Mensagem (CEI), Mensagem (Luanda), Itinerário, Notícias do Bloqueio (Porto, 1959), O Brado Africano, Moçambique 58; Vértice (Coimbra), Sul (Brasil). Foi também incluída em antologias de vários países.

Em 2001, a Associação dos Escritores Moçambicanos publicou o livro Sangue Negro, que reúne a poesia de Noémia de Sousa escrita entre 1949 e 1951.

SOBRE NOÉMIA DE SOUSA.:

http://www.infopedia.pt/$noemia-de-sousa

A MINHA DOR

Dói
a mesmíssima angústia
nas almas dos nossos corpos
perto e à distância.

E o preto que gritou
é a dor que se não vendeu
nem na hora do sol perdido
nos muros da cadeia.


AFORISMO

Havia uma formiga
compartilhando comigo o isolamento
e comendo juntos.

Estávamos iguais
com duas diferenças:

Não era interrogada
e por descuido podiam pisá-la.

Mas aos dois intencionalmente
podiam pôr-nos de rastos
mas não podiam
ajoelhar-nos.


GRÃO D´AREIA

Um só ínfimo grão de´areia
nunca imaginei
pesar tanto...

--------------

eu depondo
no clássico ritual
sobre o nosso adeus
constrangidos torrões
às mancheias.


EM VEZ DE LÁGRIMAS

Só um choro em seco
põe no vértice da minha dor
o mais intenso
auge do luto.




TE DEUM

Opressiva
a inquietude
no carrilar dos bronzes.

Libreto
de mil cactos
em mudo refrão dos desertos.

Dobre
de sinos
em solene Te Deum
de graças pela Maria.


TEIAS DA MEMÓRIA

Na baça melancolia do tecto
bilros de teia bordam solidão
enquanto meigos sussurros de sombra
no brilhante mutismo do espelho
recitam estrofes de poeira.

MAGAÍÇA

A manhã azul e ouro dos folhetos de propaganda

engoliu o mamparra,

entontecido todo pela algazarra

incompreensível dos brancos da estação

e pelo resfolegar trepidante dos comboios

Tragou seus olhos redondos de pasmo,

seu coração apertado na angústia do desconhecido,

sua trouxa de farrapos

carregando a ânsia enorme, tecida

de sonhos insatisfeitos do mamparra.

E um dia,

o comboio voltou, arfando, arfando...

oh nhanisse, voltou.

e com ele, magaíça,

de sobretudo, cachecol e meia listrada

e um ser deslocado

embrulhado em ridículo.

Ás costas - ah onde te ficou a trouxa de sonhos, magaíça?

trazes as malas cheias do falso brilho

do resto da falsa civilização do compound do Rand.

E na mão,

magaíça atordoado acendeu o candeeiro,

á cata das ilusões perdidas,

da mocidade e da saúde que ficaram soterradas

lá nas minas do Jone...

A mocidade e a saúde,

as ilusões perdidas

que brilharão como astros no decote de qualquer lady

nas noites deslumbrantes de qualquer City.

NOSSA IRMÃ LUA

Uma irmãzinha meiga que nos cubra

a todos com a quentura terna e gostosa

do seu carinho...

que entorne toda a sua claridade

sobre as nossas tristes cabeças vergadas

e, como um feitiço forte e misterioso,

nos afugente as raivas fundas e dolorosas

de revoltados,

com a sua morna carícia de veludo...

sua enorme mão,

luminosamente branca, consegue-nos tudo.

E sob o seu feitiço potente, serenamos.

E pouco a pouco, momento a momento,

Sossegando vamos...

Fechando nossos olhos pacientes de esperar,

Já podemos vogar no mar

Parado dos nossos sonhos cansados...

E até podemos cantar!

Até podemos cantar o nosso lamento...

De olhos para dentro, para dentro de nós,

Sentimo-nos novamente humanos,

Somos nós novamente,

E não brutos e cegos animais aguilhoados...

Sim. Nós cantamos amorosamente

A lua amiga que é nossa irmã.

– Embora nos repitam que não,

nós o sentimos fundo no coração...

(que bem vemos

que no seu largo rosto de leite há sorrisos brandos de doçura

para nós, seus irmãos...)

só não compreendemos

como é que, sendo tão branca a nossa irmã,

nos possa ser tão completamente crista,

se nós somos tão negros, tão negros,

como a noite mais solitária e mais desoladamente escura...

Se me quiseres conhecer

Se me quiseres conhecer,

Estuda com olhos de bem ver

Esse pedaço de pau preto

Que um desconhecido irmão maconde

De mãos inspiradas

Talhou e trabalhou em terras distantes lá do norte.

Ah! Essa sou eu:

órbitas vazias no desespero de possuir a vida

boca rasgada em ferida de angustia,

mãos enorme, espalmadas,

erguendo-se em jeito de quem implora e ameaça,

corpo tatuado feridas visíveis e invisíveis

pelos duros chicotes da escravatura...

torturada e magnífica

altiva e mística,

África da cabeça aos pés,

– Ah, essa sou eu!

Se quiseres compreender-me

Vem debruçar-te sobre a minha alma de África,

Nos gemidos dos negros no cais

Nos batuques frenéticos do muchopes

Na rebeldia dos machanganas

Na estranha melodia se evolando

Duma canção nativa noite dentro

E nada mais me perguntes,

Se é que me queres conhecer...

Que não sou mais que um búzio de carne

Onde a revolta de África congelou

Seu grito inchado de esperança.

Ferreira, Manuel – 50 Poetas de África, Plátano Editora, Lisboa