O importante não é aquilo que fazem de nós, mas o que nós mesmos fazemos do que os outros fizeram de nós.
JEAN-PAUL SARTRE

terça-feira, 30 de agosto de 2011

JOSÉ CRAVEIRINHA (O «poeta maior» de Moçambique)

José João Craveirinha (1922-2003)

Autobiografia

«Nasci a primeira vez em 28 de Maio de 1922. Isto num domingo. Chamaram-me Sontinho, diminutivo de Sonto. Isto por parte da minha mãe, claro. Por parte do meu pai, fiquei José. Aonde? Na Av. Do Zihlahla, entre o Alto Maé e como quem vai para o Xipamanine. Bairros de quem? Bairros de pobres.

Nasci a segunda vez quando me fizeram descobrir que era mulato

A seguir, fui nascendo à medida das circunstâncias impostas pelos outros.

Quando o meu pai foi de vez, tive outro pai: seu irmão.

E a partir de cada nascimento, eu tinha a felicidade de ver um problema a menos e um dilema a mais. Por isso, muito cedo, a terra natal em termos de Pátria e de opção. Quando a minha mãe foi de vez, outra mãe: Moçambique.

A opção por causa do meu pai branco e da minha mãe preta.

Nasci ainda outra vez no jornal O Brado Africano. No mesmo em que também nasceram Rui de Noronha e Noémia Delgado.

Muito desporto marcou-me o corpo e o espírito. Esforço, competição, vitória e derrota, sacrifício até à exaustão. Temperado por tudo isso.

Talvez por causa do meu pai, mais agnóstico do que ateu. Talvez por causa do meu pai, encontrando no Amor a sublimação de tudo. Mesmo da Pátria. Ou antes: principalmente da Pátria. Por parte de minha mãe, só resignação.

Uma luta incessante comigo próprio. Autodidacta.

Minha grande aventura: ser pai. Depois, eu casado. Mas casado quando quis. E como quis.

Escrever poemas, o meu refúgio, o meu País também. Uma necessidade angustiosa e urgente de ser cidadão desse País, muitas vezes, altas horas a noite.»

http://pt.wikipedia.org/wiki/Jos%C3%A9_Craveirinha

Autodidacta, desempenhou diversas actividades tais como funcionário da Imprensa Nacional de Lourenço Marques, futebolista, jornalista…Colaborou em diversas publicações periódicas: O Brado Africano, Itinerário, Notícias, Mensagem, Notícias do Bloqueio e Caliban, Tribuna, Notícias da Tarde, Voz de Moçambique, Notícias da Beira, Diário de Moçambique e Voz Africana.

Utilizou os seguintes pseudónimos: Mário Vieira, J.C., J. Cravo, José Cravo, Jesuíno Cravo e Abílio Cossa. Foi presidente da Associação Africana na década de 1950.

Esteve preso pela PIDE, de 1965 a 1969, por fazer parte de uma célula da 4.ª Região Político-Militar da Frelimo. Posteriormente após a independência de Moçambique foi membro da Frelimo e presidiu à Associação Africana.

Primeiro Presidente da Mesa da Assembleia Geral da Associação de Escritores Moçambicanos, entre 1982 e 1987.

Craveirinha, recebeu vários prémios, entre eles o Prémio Camões em 1991, tornando-se o primeiro autor africano galardoado com o mais importante prémio literário da língua portuguesa.

UM HOMEM NUNCA CHORA

Acreditava naquela história

do homem que nunca chora.

Eu julgava-me um homem.

Na adolescência

meus filmes de aventuras

punham-me muito longe de ser cobarde

na arrogante criancice do herói de ferro.

Agora tremo.

E agora choro.

Como um homem treme.

Como chora um homem!

POETA ATIRADO AOS BICHOS

Meu amor:

Nem tu percebes ainda o bater

ansioso dos tendões nos afinados

motores bem mainatos passando a ferro

o capim debaixo das obscenas chapas

na maquilhagem embelezando

a escarlate as picadas.

E tua ostra de chamas

cerra-me no seu íman de con- chá

palpitando as mornas pétalas do teu gerânio

um belo coiso de gemidos no tálamo

de capim onde alongamos os nossos

pesadelos em fragmentos

dispersos na mata à ferroada

dos insectos de obuses.

Porque

confesso-te, meu amor

não são bem propriamente o que eu desejo

estes pervertidos versos sem rima e sem nada

mas unicamente nacos fixes de um poeta

de carne em sangue no meio deste zôo

atirado aos bichos!

SEM TÍTULO

Não sei se existe Deus.

Mas se Deus existe

Ele está com toda a certeza

a comer comigo esta farinha

no mesmo prato.

APARÊNCIAS

Amigos!

Apesar das aparências

estarem de acordo com as circunstâncias

não sou eu quem morre de medo.

Antes

Durante

E após os interrogatórios

(Inclusive nos quotidianos trajectos de jipe)

a minha língua é que se torna de papel almaço

E minhas desavergonhadas rótulas de borracha

Coitadas é que tremem.

Ao bom evangelho dos cassetetes

ouvir avoengos pássaros bantos

cantarem algures nos ombros

velhas melodias de feridas.

E depois

à sedutora persuasão das ameaças

pela décima segunda vez humildemente

pensar: Não sou luso-ultramarino


SOU MOÇAMBICANO!

Será suficiente esta confissão

Sr. Chefe dos cassetetes

da 2ª. Brigada?

PARA UM IDÍLIO CLANDESTINO

Deixa-me que te beije

ao de leve o rosto na manhã nova

e meus dedos acariciem

nervosos a curva meiga do teu seio.

Meu amor:

o senso fragmenta-me a sensibilidade

e o que seu sinto-o

larva plena do que há-de vir.

Tu e eu

envolvidos nesta aventura

esperamos o comprometido instante

nalguma parte de nós.

Vai. Não te esqueças.

Nesta manhã do Infulene

ao quilômetro dez da liberdade

o sobrenatural acontece:

É assim.

Eu preso.

E tu minha mulher

depois da visita partes à vontade

mas não livre.

KARINGANA UA KARINGANA*


Este jeito

de contar as nossas coisas

à maneira simples das profecias

— Karingana ua Karingana —

é que faz o poeta sentir-se

gente.

E nem

de outra forma se inventa

o que é propriedade dos poetas

nem em plena vida se transforma

a visão do que parece impossível

em sonho do que vai ser.

Karingana! *Obs. Fórmula clássica de iniciar um conto e que possui o mesmo significado de “Era uma vez”.

CANÇÃO NEGREIRA

Amo-te

com as raízes de uma canção negreira

na madrugada dos meus olhos pardos.

E derrotas de fome

nas minhas mãos de bronze

florescem languidamente na velha

e nervosa cadência marinheira

do cais donde os meus avós negros

embarcaram para hemisférios da escravidão.

Mas se as madrugadas

das minhas órbitas violentadas

despertam as raízes do tempo antigo ...

mulher de olhos fadados de amor verde-claro

ventre sedoso de veludo

lábios de mampsincha madura

e soluções de espasmo latejando no quarto

enche de beijos as sirenas do meu sangue

que meninos das mesmas raízes

e das mesmas dolorosas madrugadas

esperam a sua vez.

EM VEZ DE LÁGRIMAS

Só um choro em seco

põe no vértice da minha dor

o mais intenso

auge do luto.

DE PROFUNDIS

Extenso dia taciturno de nuvens.

Nas ramadas passarinhos de mágoa

lacrimejando chilros. Um braçado

polícromo de flores

perfumando

De profundis

de coroas.

Tão duro

assim lacônico

nossos adeus de rosas, Maria.

MÁQUINA ELÉCTRICA DE COSTURA

Quando finalmente Maria

menos havia de cansar-se a coser

sua nova máquina eléctrica de costura

em funesto ilogismo encerrada

noutro esmero de alinhaves

solidária se prosternou

desusada.

Infeliz

máquina de costura.

CANTO DO NOSSO AMOR SEM FRONTEIRA


Estamos juntos.
E moçambicanas mãos nossas
dão-se
e olhamos a paisagem e sorrimos.

Não sabemos de áreas de esterlino
de câmbios
vistos de fronteira
zonas de marco e dólar
portagem do Limpopo
canais de Suez e do Panamá.

Amamo-nos hoje numa praia das Honduras
estamos amanhã sob o céu azul da Birmânia
e na madrugada do dia dos teus anos
despertamos nos braços um do outro
baloiçando na rede da nossa casa na Nicarágua.

Ou
com os olhos incendiados
nos poentes do Mediterrâneo
recordamos as noites mornas da praia da Polana
e a beijos sorvo a tua boca no Senegal
e depois tingimos mutuamente
os lábios com as negras amoras de Jerusalém
ambos entristecidos ao galope dos pés humanos
sem ferraduras mas puxando riquexós.

GRITO NEGRO

Eu sou carvão!
E tu arrancas-me brutalmente do chão
e fazes-me tua mina, patrão.
Eu sou carvão!
E tu acendes-me, patrão,
para te servir eternamente como força motriz
mas eternamente não, patrão.
Eu sou carvão
e tenho que arder sim;
queimar tudo com a força da minha combustão.
Eu sou carvão;
tenho que arder na exploração
arder até às cinzas da maldição
arder vivo como alcatrão, meu irmão,
até não ser mais a tua mina, patrão.
Eu sou carvão.
Tenho que arder
Queimar tudo com o fogo da minha combustão.
Sim!
Eu sou o teu carvão, patrão.

domingo, 28 de agosto de 2011

RUI KNOFLI


Poeta e Jornalista, Rui Manuel Correia Knofli, nasceu em Moçambique. Fez os seus estudos na África do Sul e trabalhou em Lourenço Marques (actual Maputo). Em 1975 veio para Portugal, mas sempre defendeu uma alma assumidamente africana.
Trabalhou como adido de imprensa, na delegação portuguesa à Assembleia-Geral das Nações Unidas, onde participou dos trabalhos da Comissão de Descolonização e também desempenhou funções de adido cultural na Embaixada Portuguesa em Londres.
Em 1984 recebeu o prémio de poesia PEN Clube.
Bibliografia: O País dos Outros, 1959; Reino Submarino, 1962; Máquina de Areia, 1964; Mangas Verdes com Sal, 1969; A Ilha de Próspero, 1972; O Escriba Acocorado, 1978; Memória Consentida: 20 Anos de Poesia 1959-1979, 1982; O Corpo de Atena, 1984; O monhé das cobras (Poesia), 1997 ; 2005; Obra Poética, 2003.

Princípio do dia

Rompe-me o sono um latir de cães
na madrugada. Acordo na antemanhã
de gritos desconexos e sacudo
de mim os restos da noite
e a cinza dos cigarros fumados
na véspera.
Digo adeus à noite sem saudade,
digo bom-dia ao novo dia.
Na mesa o retrato ganha contorno,
digo-lhe bom-dia
e sei que intimamente ele responde.

Saio para a rua
e vou dizendo bom-dia em surdina
às coisas e pessoas por que passo.

No escritório digo bom-dia.
Dizem-me bom-dia como quem fecha
uma janela sobre o nevoeiro,
palavras ditas com a epiderme,
som dissonante, opaco, pesado muro
entre o sentir e o falar.

E bom dia já não é mais a ponte
que eu experimentei levantar.
Calado,
sento-me à secretária, soturno, desencantado.

(Amanhã volto a experimentar).



Velho Colono

Sentado no banco cinzento
entre as alamedas sombreadas do parque.
Ali sentado só, àquela hora da tardinha,
ele e o tempo. O passado certamente,
que o futuro causa arrepios de inquietação.
Pois se tem o ar de ser já tão curto,
o futuro. Sós, ele e o passado,
os dois ali sentados no banco de cimento.

Há pássaros chilreando no arvoredo,
certamente. E, nas sombras mais densas
e frescas, namorados que se beijam
e se acariciam febrilmente. E crianças
rolando na relva e rindo tontamente.

Em redor há todo o mundo e a vida.
Ali está ele, ele e o passado,
sentados os dois no banco de frio cimento.
Ele a sombra e a névoa do olhar.
Ele, a bronquite e o latejar cansado
das artérias. Em volta os beijos húmidos,
as frescas gargalhadas, tintas de Outono
próximo na folhagem e o tempo.

O tempo que cada qual, a seu modo,
vai aproveitando.

Testamento

Se por acaso morrer durante o sono
não quero que te preocupes inutilmente.
Será apenas uma noite sucedendo-se
a outra noite interminavelmente.

Se a doença me tolher na cama
e a morte aí me for buscar,
beija Amor, com a força de quem ama,
estes olhos cansados, no último instante.

Se, pela triste monotonia do entardecer,
me encontrarem estendido e morto,
quero que me venhas ver
e tocar o frio e sangue do corpo.

Se, pelo contrário, morrer na guerra
e ficar perdido no gelo de qualquer Coreia,
quero que saibas, Amor, quero que saibas,
pelo cérebro rebentado, pela seca veia,

pela pólvora e pelas balas entranhadas
na dura carne gelada,
que morri sim, que não me repito,
mas que ecoo inteiro na força do meu grito.

Ilha dourada

A fortaleza mergulha no mar
os cansados flancos
e sonha com impossíveis
naves moiras
Tudo mais são ruas prisioneiras
e casas velhas a mirar o tédio
As gentes calam na
voz
uma vontade antiga de lágrimas
e um riquexó de sono
desce a Travessa da "Amizade"
Em pleno dia claro
vejo-te adormecer na distância,
Ilha de Moçambique,
e faço-te estes versos
de sal e esquecimento


Uniforme de Poeta

Ajustei minha cabeleira longa,
coloquei-lhe ao de cima meu
chapéu de coco em fibra sintética,
sacudi a densa poeira das asas encardidas
e, dependurada a lira a tiracolo,
saio para a rua
em grande uniforme de poeta.
Tremei guardas-marinhas,
alferes do activo em
situação de disponibilidade:
meu ridículo hoje suplanta
o vosso e nele se enleia e perturba
o suspiro longo das meninas
romântico-calculistas.


Maxilar triste

Suave curva dolorosa
atenuando o bordo rijo
desse rosto derradeiro
de brancura infinita.

Impugnando-lhe a doçura,
a antinomia do tempo
acentuará os duros ângulos
num mapa de tristeza

irreparável. O sorriso
vago nela projecta um
brilho fosco de loiça antiga:

espreitando na carne
os dentes anunciam o resto.

FONTES:
Ferreira, Manuel - 50 POETAS AFRICANOS (ANGOLA, MOÇAMBIQUE, GUINÉ-BISSAU, CABO VERDE, SÃO TOMÉ E PRÍNCIPE), Plátano Editora, S.A., Lisboa

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