O importante não é aquilo que fazem de nós, mas o que nós mesmos fazemos do que os outros fizeram de nós.
JEAN-PAUL SARTRE

quinta-feira, 31 de março de 2011

quarta-feira, 30 de março de 2011

OS OLHOS DO POETA...


O poeta tem olhos de água para reflectirem todas as cores do mundo,

e as formas e as proporções exactas,

mesmo das coisas que os sábios desconhecem.

Em seu olhar estão as distâncias sem mistério que há entre as estrelas,

e estão as estrelas luzindo na penumbra dos bairros da miséria,

com as silhuetas escuras dos meninos vadios esguedelhados ao vento.

Em seu olhar estão as neves eternas dos Himalaias vencidos

e as rugas maceradas das mães que perderam os filhos

na luta entre as pátrias e o movimento ululante das cidades marítimas

onde se falam todas as línguas da terra

e o gesto desolado dos homens que voltam ao lar

com as mãos vazias e calejadas

e a luz do deserto incandescente e trémula,

e os gestos dos pólos, brancos, brancos,

e a sombra das pálpebras sobre o rosto das noivas

que não noivaram

e os tesouros dos oceanos desvendados

maravilhando com contos-de-fada à hora da infância

e os trapos negros das mulheres dos pescadores

esvoaçando como bandeiras aflitas

e correndo pela costa de mãos jogadas

pró mar amaldiçoando a tempestade:


- todas as cores, todas as formas do mundo se agitam e gritam nos olhos do poeta. Do seu olhar, que é um farol erguido no alto de um promontório,

sai uma estrela voando nas trevas tocando de esperança o coração dos homens de todas as latitudes.

E os dias claros, inundados de vida, perdem o brilho nos olhos do poeta

que escreve poemas de revolta com tinta de sol

na noite de angústia que pesa no mundo.



Manuel da Fonseca, Poemas completos

segunda-feira, 28 de março de 2011

sábado, 26 de março de 2011

INSTANTE - SAMUEL BECKETT


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Que faria eu sem este mundo sem rosto sem questões
Quando o ser só dura um instante onde cada instante
Se deita sobre o vazio dentro do esquecimento de ter sido
Sem esta onda onde por fim
Corpo e sombra juntos se dissipam
Que faria eu sem este silêncio abismo de murmúrios
Arquejando furiosos em direcção ao socorro em direcção ao amor
Sem este céu que se eleva
Sobre o pó dos seus lastros
Que faria eu… eu faria como ontem como hoje
Olhando para a minha janela vendo se não serei o único
A errar e a mudar distante de toda a vida
preso num espaço marionete
Sem voz entre as vozes
Que se fecham comigo.

{Samuel Beckett}

Cada vez mais a escrita de Samuel Beckett é visto como o ponto culminante da grande literatura do século XX - sucedendo a obra de Proust, Joyce e Kafka. John Calder analisou a obra de Beckett, sobre principalmente o que escreveu sobre o nosso tempo em termos de filosofia, teologia e ética e considera que o seu contributo tem sido ignorado. Mente aguda Samuel Beckett aborda com humor e muita coragem as premissas básicas e as crenças, através da qual a maioria das pessoas vive. A sua sátira pode ser mordaz e a sua sagacidade devastadora, não encontrou como escapar da tragédia, mesmo com o conforto que nós construímos para nos proteger da realidade. A arte, para a maioria dos intelectuais tem substituído a religião, no entanto, Beckett desenvolveu uma mensagem moral - que está em contradição directa com os valores da ambição, do sucesso de aquisição e ele olha para a ganância, a adoração a Deus e a crueldade para com os outros. A honestidade, a integridade e a profundidade do pensamento de Beckett expressa através dos seus romances, peças teatrais e poesia, outros escritos e correspondência é chocante, ao pensamento convencional, mas o que ele tem a dizer também é reconfortante. Beckett oferece uma ética diferente para se viver - uma mensagem com base estóica de coragem, compaixão e uma capacidade de compreender e perdoar.

quinta-feira, 24 de março de 2011

TOTENFEIER - POEMA SINFÓNICO DE MAHLER

Este poema sinfónico, depois deu origem à Primeira Sinfonia de Mahler. O compositor desvalorizava o uso de textos de intenção programática, mas acabou por escrever estas palavras:
«Estamos diante de uma pessoa que nos é querida.
A sua vida, esforços, amarguras, e desejos passam-nos uma vez mais, pela última vez, diante dos olhos da nossa alma…
E agora? È tudo isto apenas um sonho desolador, ou esta vida e esta morte têm um significado?
-Temos que ser capazes de responder a estas questões se queremos prosseguir a nossa vida.»

Na altura da composição deste poema, Mahler teria uma paixão por Marion Weber, mulher do neto de Carl Maria von Weber, um amor impossível. Adam Mickiewicz escreveu um texto dramático, sobre um triângulo amoroso, no qual as personagens principais se chamam, Marie e Gustav. Este acaba por se suicidar transformando-se num espírito condenado a vaguear em torno da sua amada.
Não há certezas, mas Mahler e Mickiewicz eram amigos e partilhavam uma visão trágica da arte e do seu poder redentor, com referências muito óbvias da filosofia de Schopenhauer, Wagner e Nietzsche, comportamento desafiador caracterizado pela figura de Prometeu e do ideal que leva o homem a enfrentar com orgulho o seu próprio destino.



MAHLER - TOTENFEIER (CERIMÓNIA FÚNEBRE)

segunda-feira, 21 de março de 2011

DIA DA POESIA

Sobre um Poema


Um poema cresce inseguramente

na confusão da carne,

sobe ainda sem palavras,

só ferocidade e gosto,

talvez como sangue

ou sombra de sangue

pelos canais do ser.

.

Fora existe o mundo. Fora, a esplêndida violência

ou os bagos de uva de onde nascem

as raízes minúsculas do sol.

Fora, os corpos genuínos e inalteráveis

do nosso amor,

os rios, a grande paz exterior das coisas,

as folhas dormindo o silêncio,

as sementes à beira do vento,

- a hora teatral da posse.

E o poema cresce tomando tudo em seu regaço.

.

E já nenhum poder destrói o poema.

Insustentável, único, invade as órbitas,

a face amorfa das paredes,

a miséria dos minutos,

a força sustida das coisas,

a redonda e livre harmonia do mundo.

.

- Em baixo o instrumento perplexo

ignora a espinha do mistério.

- E o poema faz-se contra o tempo e a carne.

Herberto Helder


domingo, 20 de março de 2011

sexta-feira, 18 de março de 2011

DESCOBERTA: O CÉREBRO HUMANO ENCOLHEU

De acordo com a France Press, que cita trabalhos científicos recentes, o volume médio do cérebro do homem moderno (homo sapiens) diminuiu cerca de 10%, de 1500 para 1359 centímetros cúbicos, o equivalente a uma bola de ténis.
Este fenómeno tem intrigado antropólogos, apostando a maioria na hipótese de se tratar de um efeito da evolução face a sociedades mais complexas, do que de um sinal de embrutecimento.
A tese defendida por David Geary, professor da Universidade de Missouri é que: Na emergência de sociedades mais complexas, o cérebro humano tornou-se mais pequeno porque os indivíduos não têm a necessidade de tanta inteligência para sobreviverem, são ajudados pelos outros

sexta-feira, 4 de março de 2011

quinta-feira, 3 de março de 2011

LEMBRANDO EMORY DOUGLAS

Emory Douglas dedicou a sua vida à luta pela justiça social, sendo talvez o mais prolífico agitador gráfico do movimento negro de libertação. A eficácia das suas imagens e a mobilização colectiva que inspiraram, faz com que a sua obra constitua um exemplo de como a arte pode ser catalisadora da mudança social. Na qualidade de Ministro da Cultura dos Panteras Negras, Emory Douglas traduz o compromisso da organização relativamente ao activismo e à luta pelos direitos humanos, traduzindo-se numa poderosa e reconhecível estética, com um papel significativo na mobilização comunitária. Os ideais e aspirações dos Panteras Negras eram comunicados a um público global através de um jornal, do qual Douglas foi director artístico até ao seu encerramento no início da década de 1980. Com formação em arte pelo City College de São Francisco, Douglas foi autor de centenas de desenhos que deram vida ao espírito radical do partido.






(EXPOSIÇÃO NO MUSEU DE ARTE CONTEMPORÂNEA DE SERRALVES)