O importante não é aquilo que fazem de nós, mas o que nós mesmos fazemos do que os outros fizeram de nós.
JEAN-PAUL SARTRE

quinta-feira, 30 de dezembro de 2010

PALAVRAS QUE DEFINEM OS PRIMEIROS DEZ ANOS DO SÉCULO XXI: AMBIENTE, CRISE, REDES SOCIAIS/EU, MULHER, JUSTIÇA, TERRORISMO, GENOMA



AMBIENTE – Muito aconteceu e se fez em dez anos, mas o que talvez fique na história do ambiente neste período é o investimento brutal que o mundo fez em energias renováveis. Os últimos cinco anos foram prósperos no desenvolvimento das energias renováveis, em especial eólica e solar e isto também foi uma consequência do encarecimento do preço do petróleo.
Seria necessário parar com todas as formas de poluição e mesmo assim levaria três séculos para eliminar toda a poluição! Quem quer parar com a poluição ou ao menos diminuir?
Quatro reuniões cimeiras sobre alterações climáticas foram realizadas: Montreal, Rio de Janeiro, Quioto e Copenhaga. De umas para as outras a desilusão tem aumentado. Os mais poluidores não cedem. Se os cientistas alertam para o colapso, os políticos chamam-lhe «ficção científica, com o aplauso das indústrias.
O petróleo acabará em 2009. O Árctico está a descongelar, o Antárctico está a fragmentar-se. Espécies animais estão ameaçadas. O aquecimento global é uma realidade. Não há vontade colectiva de parar, só promessas.
Ligados aos problemas ambientais, outros acontecimentos despertaram a atenção das pessoas:

GRANDES CATÁSTROFES ECOLÓGICAS:-Maré negra na costa Da Galiza (2002), causada pelo petroleiro Prestige, foram libertadas 51 mil toneladas de fuelóleo, quinze mil aves morreram, a economia local faliu.
-Golfo do México (2010) derramamento de 160 mil litros de petróleo, após explosão e afundamento da plataforma Deepwater Horizon da BP. Afectados quatro estados norte-americanos.
-Vazamento de lama tóxica de uma fábrica de alumínio na Hungria (2010). Um milhão e cem mil litros de substâncias químicas, que se espalharam e se vão infiltrando no solo. Os danos ambientais ainda hoje estão por apurar, três rios podem estar em risco, entre eles o Danúbio, o maior rio da Europa, se isso vier a acontecer além da Hungria, outros países serão afectados: Croácia, Sérvia, Roménia, Bulgária Ucrânia e Moldávia.

FORÇA DESTRUIDORA DA NATUREZA-Furacão Katrina, que destruiu a cidade de Nova Orleães (2005). Devastação quase total, retirada de 1 milhão de pessoas e morte de um milhar.
-Tusnami na Indonésia (2004), região propensa a fenómenos naturais, situada no chamado «Anel de Fogo do Pacífico», conjunto de falhas geológicas com mais de 129 vulcões activos. A onda gigante atingiu a costa de 12 países (230 mil mortes).

CRISE – A crise foi quem mais mandou nesta década.
Tudo começou nos Estados Unidos, com a venda de milhares de empréstimos a pessoas sem capacidade de liquidez. Esses créditos foram vendidos a bancos de todo o mundo (subprime) e a crise espalhou-se, abalando o sector bancário. Alguns bancos faliram outros tiveram que ser injectados de dinheiro pelos governos e bancos centrais.
Um caso em destaque foi Bernard Madoff, gestor de fortunas, cujo negócio «era uma grande mentira», está preso a cumprir uma pena de 150 anos de prisão.
Em Portugal o défice resume a história económica da última década em Portugal. O país sempre teve défice, mas o problema agravou-se em 2002, quando o euro entrou em circulação. Para cumprir as regras de Bruxelas, Portugal no ano seguinte teve logo que reduzir o défice. O problema continuou, até ao presente com o plano de consolidação orçamental mais violento da história da democracia, que empurrará o país para uma recessão, asseguram instituições como o Banco de Portugal, FMI e OCDE. O défice de 9% terá que cair para 3% em 2012. Portugal consome mais do que produz, financia a crédito este modo de vida e está numa situação insustentável. Este problema afectou de forma também violenta o Estado Social.
As agências de rating (Standard & Poor’s, Moody’s e Fitch) avaliam o valor de um país ou de uma empresa. Os governos e a maioria dos economistas consideram-nas co-responsáveis pelo colapso, por deficiente avaliação, ainda assim, as grandes potências mundiais não encontram outra alternativa e estas agências continuam a determinar o andamento dos mercados mundiais.
Petróleo continua a ser o calcanhar de Aquiles, dos países dependentes dos combustíveis fósseis. Em 2008 ocorreu o terceiro choque petrolífero, um novo choque pode surgir.
Em 2001 com a entrada da China na organização Mundial do Comércio, tudo mudou. Portugal, que tinha uma economia especializada em indústrias tradicionais (têxtil, calçado, vestuário) sofreu um grande impacte, que motivou redução de salários, esmagamento das margens de lucro encerramento de fábricas, empresas e lojas e consequente desemprego. A Índia outro colosso industrial tem tido um papel semelhante.

JUSTIÇA – A nível global, a Guerra no Iraque, com consequências para todo o mundo. Segundo Eurico Reis, Juiz Desembargador o ataque ao Iraque foi ilegítimo e provocou a ruína do edifício legal internacional que garantiu o estado de semi-paz em que vivemos durante os últimos 65 anos. Estamos todos a pagar os custos desse desvario com violações dos direitos das pessoas e das nações. O escândalo da década em Portugal foi o caso de pedofilia, Casa Pia, mas também «O Sexo dos Anjos», os abusos de pedofilia, por padres católicos. Na última década também esteve em discussão corrupção, a contrafacção, emigrantes e imigrantes, a despenalização do aborto, o casamento entre homossexuais…
TERRORISMO – Como se combate uma rede terrorista? Eis a questão central para a segurança das sociedades contemporâneas. É essa pergunta que os ataques terroristas desde o 11 de Setembro de 2001, colocam às nossas sociedades.
Fundada num dogma teocrático e no fundamentalismo religioso a capacidade de mobilização é grande. A sua estrutura é fluída, desterritorializada e transnacional. Usam meios diversos, não necessitando de armas de destruição maciça, mas podendo tê-las. Os seus alvos são civis, preferencialmente atingindo o maior número de pessoas.
O terrorismo que era localizado, passou a ser transnacional, dentro de uma lógica global e de conflito internacional. Esta é uma nova guerra, é chamada a guerra contra uma rede, para a qual nenhum estado está preparado.

GENOMA – Tal como se investe na educação, na saúde e na economia para darmos vantagens aos nossos descendentes, também se deve investir no melhoramento da sua herança genética. A engenharia genética, considerados os aspectos éticos, legais e sociais, pode dar uma gama de grandes contributos úteis ao homem e ao ambiente. Obviamente que a manipulação da vida tem dado muita controvérsia, a discussão é sempre entre o que pode ser feito e o que deve ser permitido. Actualmente a ideia é que a essência dos seres vivos está contida no seu ADN. O projecto do Genoma Humano defende a ideia de que quando o conhecimento do ADN for total, muitas doenças podem ser eliminadas.
Esta ideia é assustadora, mas todos os avanços da medicina tiveram pressões, porque iam mexer com a natureza e a sua evolução natural: transfusões de sangue, intervenções cirúrgicas, vacinas, antibióticos, transplantes, hormonas de crescimento, antidepressivos, «pílula»… Isto implicou o uso de «milhares de cobaias humanas», tudo tem o seu preço, mas segundo diz Alexandre Quintanilha 99,9 das espécies que surgiram à superfície da Terra já se extinguiram, ou a natureza está a ser perversa ou nós não sabemos lidar com ela, alguma coisa tem que ser feita!
O estudo dos genes, revela o que fomos, o que somos e seremos, as doenças contraídas e as que podemos vir a contrair, é a chamada medicina baseada na evidência.

REDES SOCIAIS/EU – Há várias redes sociais, que motivam a interacção humana. Num mundo que vive uma crise global, mas com efeitos localizados na Europa, as redes sociais constituem o início da procura dos que pensam como nós e a percepção de uma acção em comum, mas ainda não há uma organização para transformar a realidade. O destaque vai para o Facebook cuja presença geográfica teve uma grande expansão! De rede nos EUA, passou para o mundo anglo-saxónico e depois para o mundo em geral. Mais de quinhentos milhões de pessoas inscritas numa rede de amigos.
Neste mundo saturado de ilusões de oportunidades para dizermos «eu» e proclamarmos a nossa individualidade, tornou-se cada vez mais problemático fazer passar o valor mais clássico, e também mais visceral, da política: nós.
Redes sociais, onde expandimos o «eu». Idade do narcisismo sem culpa. Estar offiline ou online eis a questão!
A blogosfera, a mais contraditória e fascinante invenção de celebração do «eu», é também um dos espaços mais corrompidos pela confusão entre os confrontos da comunicação e da obscenidade dos conflitos: mentir, difamar e insultar os outros é mesmo frequentemente celebrado como apoteose do diálogo democrático. No séc. XX «freudiano», aprendemos que todas as ideias passam pelo corpo. Roland Barthes formulava que «o meu corpo não tem as mesmas ideias que eu». Neste presente de infinitas redes de comunicação, o corpo reduziu-se a um «objecto mutável. A vida das pessoas e das famílias, as suas alegrias e desilusões são notícia. Aparentemente a fama está ao alcance de qualquer um e há muitos a quererem!

MULHER – O feminismo, obrigado a alterações profundas de mentalidade, deixou de ser «uma questão de mulheres» para se tornar um verdadeiro humanismo do século XXI porque portador de alternativas económicas, sociais, culturais e políticas.
«A sociedade do futuro implica o reconhecimento dos seres humanos enquanto pessoas, onde querem que estejam, nas suas aspirações e nas cedências inevitáveis para as concretizar. Ninguém é um ser isolado e a convivência, qualquer que ela seja, implica a optimização das diferenças para a construção da qualidade de vida que consiste em cada um poder ser o que é.»

SOBRINHO SIMÕES

(Manuel Coimbra Sobrinho Simões (Porto - 1947), médico e investigador português.)
«Portugal do século XXI continua a ser vítima do conflito de interesses que grassa entre as conveniências dos partidos e dos políticos e as necessidades do país e dos portugueses.»

«Admiramos o sucesso do aldrabão. Em Portugal não há censura social para a esperteza saloia nem para a corrupção a que passamos a chamar informalidade. Pelo contrário admiramos os esquemas, os expedientes. Vivemos deles.»

«Além de europeus, somos mediterrânicos, o que não nos afasta muito dos gregos, dos italianos e dos espanhóis. Somos muito individualistas e estamos mais próximos dos norte-africanos do que dos povos do Norte da Europa.»

terça-feira, 28 de dezembro de 2010

terça-feira, 21 de dezembro de 2010

O QUE HÁ EM MIM É SOBRETUDO CANSAÇO



O que há em mim é sobretudo cansaço

O que há em mim é sobretudo cansaço
Não disto nem daquilo,
Nem sequer de tudo ou de nada:
Cansaço assim mesmo, ele mesmo,
Cansaço.
A subtileza das sensações inúteis,
As paixões violentas por coisa nenhuma,
Os amores intensos por o suposto alguém.
Essas coisas todas -
Essas e o que faz falta nelas eternamente -;
Tudo isso faz um cansaço,
Este cansaço,
Cansaço.
Há sem dúvida quem ame o infinito,
Há sem dúvida quem deseje o impossível,
Há sem dúvida quem não queira nada -
Três tipos de idealistas, e eu nenhum deles:
Porque eu amo infinitamente o finito,
Porque eu desejo impossivelmente o possível,
Porque eu quero tudo, ou um pouco mais, se puder ser,
Ou até se não puder ser...
E o resultado?
Para eles a vida vivida ou sonhada,
Para eles o sonho sonhado ou vivido,
Para eles a média entre tudo e nada, isto é, isto...
Para mim só um grande, um profundo,
E, ah com que felicidade infecundo, cansaço,
Um supremíssimo cansaço.
Íssimo, íssimo. íssimo,
Cansaço...
.
Álvaro de Campos

domingo, 19 de dezembro de 2010

CONCERTO - CICLO CAIXA NA ALFÂNDEGA

ORQUESTRA DO NORTE
DIRECÇÃO - JOSÉ FERREIRA LOBO
VIOLINO - EMANUEL SALVADOR

FRANCISCO DE LACERDA - ALMOUROL




Francisco Inácio da Silveira de Sousa Pereira Forjaz de Lacerda (Ribeira Seca, 11 de Maio de 1869 — Lisboa, 18 de Julho de 1934), mais conhecido por Francisco de Lacerda, foi um musicólogo, compositor e maestro Açoriano.

http://pt.wikipedia.org/wiki/Francisco_de_Lacerda

TCHAIKOVSKY - CONCERTO PARA VIOLINO E ORQUESTRA (EXCERTO)



BEETHOVEN - SINFONIA Nº 3 (EXCERTO)



Depois de ter andado anos pelos armazéns da câmara, finalmente foi encontrado um espaço para mostrar o estudo feito por Júlio Resende, para a execução do mural em azulejo «RIBEIRA NEGRA», que se encontra na Ribeira.




«O PAINEL RIBEIRA NEGRA É UM ABRAÇO A UM POVO QUE REFLECTE OS «ESTADOS DE ALMA» DE UM RIO ÚNICO!
DIANTE DELE, ELEVAM-SE ESPERANÇAS EM VOOS DE GAIVOTA.»

Júlio Resende

quarta-feira, 15 de dezembro de 2010

RAZÃO POÉTICA = FILOSOFIA+POESIA - MARIA ZAMBRANO


Filosofia e Poesia têm uma origem comum: o espanto, a admiração ante a presença das coisas. A filosofia diferencia-se da poesia no momento em que rompe o êxtase admirativo, renunciando à multiplicidade das aparências de que o poeta se prende e buscando a unidade. O pasmo extático inicial é então convertido em interrogação acutilante e o entendimento em órgão do conhecimento por excelência. María Zambrano questiona o carácter sistemático e abstractizante que a filosofia tem vindo a assumir, reclamando a necessidade de voltar a esse momento originário e comum a ambas, o momento admirativo. Verifica-se que o entendimento sozinho é incapaz de atender aos territórios de sombra para onde a filosofia tem actualmente necessidade de se expandir. Assim sendo, o coração como órgão rítmico vem então em seu auxílio originando-se uma nova forma de filosofar que une filosofia e poesia que María Zambrano denominou, com precisão e beleza, razão poética.

Delirio del incrédulo

.

Bajo la flor, la rama;

sobre la flor, la estrella;

bajo la estrella, el viento.

¿Y más allá?

Más allá, ¿no recuerdas? , sólo la nada.

La nada, óyelo bien, mi alma:

duérmete, aduérmete en la nada.

[Si pudiera, pero hundirme... ]

Ceniza de aquel fuego, oquedad,

agua espesa y amarga:

el llanto hecho sudor;

la sangre que, en su huida, se lleva la palabra.

Y la carga vacía de un corazón sin marcha.

¿De verdad es que no hay nada? Hay la nada.

Y que no lo recuerdes. [Era tu gloria.]

Más allá del recuerdo, en el olvido, escucha

en el soplo de tu aliento.

Mira en tu pupila misma dentro,

en ese fuego que te abrasa, luz y agua.

Mas no puedo.Ojos y oídos son ventanas.

Perdido entre mí mismo, no puedo buscar nada;

no llego hasta la nada.

.

Roma. Enero, 1950. Hotel d'lnghilterra


El agua ensimismada

El agua ensimismada

piensa o sueña?

El árbol que se inclina buscando sus raíces,

el horizonte,

ese fuego intocado,

¿se piensan o se sueñan?

El mármol fue ave alguna vez;

el oro, llama;

el cristal, aire o lágrima.

¿Lloran su perdido aliento?

¿Acaso son memoria de sí mismos

y detenidos se contemplan ya para siempre?

Si tú te miras, ¿qué queda?

1950. Roma - Albergo d'lnghilterra.

http://amediavoz.com/zambrano.htm#EL%20AGUA%20ENSIMISMADA

quarta-feira, 8 de dezembro de 2010

MELO E CASTRO - «UM RETRATO DE COSTAS»

Um Retrato de Costas

Um retrato de costas. Encontro este retrato numa velha gaveta. Casa antiga. Fechada. Há quanto tempo fechada por dentro? Casa dentro da cidade. Sala dentro da casa. Armário dentro da sala. Gaveta dentro do armário. Retrato dentro da
gaveta. Retrato de costas. Costas sem peito visível. Onde estarão os olhos? E terá mesmo olhos? E o corpo terá mesmo volume? E matéria? Ou será só costas, uma superfície escura, uma mancha levemente curvada a indicar os ombros? Ou a pergunta escondida? Onde estará o peito? Virado para lá ou só costas do lado de cá? Onde aí estarão os olhos? Que profundidade contemplarão? Que espaço construirão? E, a que voltará as costa esse peito? Do lado de cá a escuridão da mancha das costas na fotografia. Mas que saberão os olhos que eu não vejo das costas que impressionaram esta velha chapa fotográfica? Que saberá esse peito do meu peito? Que verão esses olhos dos meus olhos que agora interrogativamente observam as costas negras do peito que nunca poderão ver? Será o espaço das costas tão só imaginário como parece ser o espaço do peito? Serão mesmo estas costas a fronteira, o limite entre o real e o imaginário? Ou será afinal só uma velha fotografia dentro da gaveta. Gaveta dentro do armário. Armário dentro da sala. Sala dentro da casa. Casa dentro da cidade. Cidade dentro do País. País dentro do Mundo. Mundo dentro do Universo. Universo em que as noções de costas e de peito são tão relativamente relativas que só no meu peito e nos meus olhos vejo realmente as costas negras deste retrato de uma pessoa que desconheço e que poderia talvez até ser eu próprio.

in Antologia para inici-antes de E. M. de Melo e Castro.Editora Ausência, Porto, 2003.

segunda-feira, 6 de dezembro de 2010

E.M. DE MELO E CASTRO


E. M. de Melo e Castro, nome literário de Ernesto Manuel de Melo e Castro (Covilhã, 1932).


POESIA VISUAL
.
todos os poemas são visuais
porque são para ser lidos
com os olhos que veem
por fora as letras e os espaços
mas não há nada de novo
em tudo o que está escrito
é só o alfabeto repetido
por ordens diferentes
letras palavras formas
tão ocas como as nozes
recortadas em curvas e lóbulos
do cérebro vegetal : nozes
os olhos é que vêem nas letras
e nas suas combinações
fantásticas referências
vozes sobretudo da ausência
que é a imagem cheia
que a escrita inflama
até ao fogo dos sentidos
e que os escritos reclamam
para se chamarem o que são
ilusões fechadas para
os olhos abertos verem
e.m. de melo e castro



Na visão do autor E. M. DE MELO E CASTRO: “Aqui o poema tende, de facto, a ser um objecto que a si próprio se mostra. Estabelece-se assim uma ligação directa com a poesia visual e concreta, em que a substantivação de todos os seus elementos é total. Melhor: existe uma sintaxe espacial em que os elementos constitutivos do poema se articulam no espaço pelas suas posições relativas na página, como objectos formando um edifício. Por isso através da substantivação e coisificação se passa simultaneamente ao plano estrutural da experiência humana e ao campo visual e objectivo da informação e ainda ao pode sintético das escritas ideogramáticas. Assim num poema concreto, um reduzido número de palavras ou até uma só palavra, decomposta nos seus elementos de formação, sílabas, fonemas, letras, pode adquirir uma ressonância sugestiva de tipo sinestésico imediato, muito diferente do que a linguagem descritiva conseguiria alcançar.”
In> MELO E CASTRO, E. M. de. O Próprio PoéticoBIOGRAFIA: AQUI

quarta-feira, 1 de dezembro de 2010

FERNANDO PESSOA ((Lisboa, 13 de Junho de 1888 — Lisboa, 30 de Novembro de 1935)



A Casa Fernando Pessoa distinguiu ontem, dia em que se cumpriram 75 anos após a morte de Pessoa, com a Ordem do Desassossego a investigadora pessoana Maria Aliete Galhoz e o filósofo Eduardo Lourenço.
Trata-se de uma medalha de prata que retrata a figura icónica de Fernando Pessoa, "um Pessoa voador, um Pessoa flutuante, um Pessoa nas nuvens", descreveu Inês Pedrosa - um desenho feito em 1985 pelo designer Jorge Colombo para o Jornal de Letras, no âmbito das comemorações dos 50 anos da morte do poeta, adoptado pela CFP como imagem do Congresso Internacional - e que tem também inscrito um verso do poeta, "É o que me sonhei que eterno dura", da
Mensagem. Quando Inês Pedrosa, entregou a Ordem do Desassossego a Eduardo Lourenço, classificou-o como "um poeta e romancista que se sonhou ser e que diz que não foi", destacando da sua obra um título, Fernando, Rei da Nossa Baviera, que "é um poema em prosa, ele próprio".


O filósofo, de 87 anos, falou da importância da obra do poeta dos heterónimos, que definiu como "o grande poeta da incondição humana", e recordou que foi em 1942/43 que o encontrou, comentando: "Encontrarmos alguém que já nos viveu é qualquer coisa de paradoxal".



ALGUNS EXCERTOS DE LIVROS ESCRITOS POR EDUARDO LOURENÇO, SOBRE FERNANDO PESSOA
(…) Tudo é humilde nestes textos, por outro lado, vertiginosos. A bem dizer, as nobres referências literárias pertencem demasiadamente ao mundo da teoria para podermos, sem outra forma de procedimento, dar-lhes por companhia, ou eco, este «livro de pobre», este evangelho sem mensagem, esta espécie de estertor ontológico de uma voz que experimenta dizer-se, de uma existência que experimenta, também, existir. Claro que sabemos que por detrás deste grito abafado, desta repetida e interminável afirmação de uma impotência de ser, a da existência cinzenta incarnada por Bernardo Soares, existe o olhar frio, de uma neutralidade e de uma lucidez quase perversa que são património de Fernando Pessoa. Mas aqui, o jogador de xadrez indiferente, como se assumiu sob a máscara de Ricardo Reis, não joga outra coisa senão o seu xeque-mate existencial absoluto, a sua realidade humana sem nexo e sem verdadeira ligação aos outros, vida puramente sonhada, voluntariamente distanciada por essa espécie de sorriso vindo de dentro do desespero que faz com que certas páginas do Livro do Desassossego sejam, ao mesmo tempo, insuportáveis e estranhamente libertadoras. (…)

[Eduardo Lourenço, O Lugar do Anjo, Ensaios Pessoanos, Gradiva 2004, O “Livro do Desassossego” ou o Memorial do Limbo, pág. 96]

(…) Depois do herói de Homero, viajar deixou de ser, apenas, ir de um porto ao outro através de um espaço-obstáculo que faz com que aquele que se desloca adquira valor, positivo ou negativo. Viajar é, também, entrar em diálogo com esse espaço, ou ser «dito» por ele, situação que converte o viajante em sujeito de uma ficção ou de uma encenação mais ou menos conseguidas, de que ele e o mundo são cúmplices. Neste sentido, houve sempre em Pessoa algo que se opôs à encenação do mundo através de uma qualquer deslocação. «Viajar, perder países» é um dos versos em que revela uma atitude completamente oposta à de Cesário Verde, para quem viajar significava ganhar países. Talvez que no imaginário de Pessoa o desinteresse pelo acto de viajar e pela viagem fosse o resultado das múltiplas formas da inapetência vital que lhe caracterizou a infância. Todo e qualquer esforço sério no sentido de se tornar outro ou diferente através de uma mera alteração de cenário se lhe afigura uma perda do ser, aquilo que mais tarde exprimirá na imagem célebre do cansaço invencível que o impede de apanhar o eléctrico. (…)

[Eduardo Lourenço, O Lugar do Anjo, Ensaios Pessoanos, Gradiva 2004, Pessoa ou as três viagens, pág. 149]

(…) Nenhuma vivência humana contém, por isso, uma carga de irrealidade mais profunda do que aquela que chamamos amor, objecto quase exclusivo da lírica ocidental. A poesia de Pessoa, enquanto poética confessa e obsessiva da consciência como solidão ontológica, tinha de ser, fatalmente, uma poesia do não-amor. O que ela é de facto, mas em termos tão inabitualmente atrozes que de si mesma se assinala como o lugar de um sofrimento sem nome, de alguma maneira, como puro vazio afectivo, análogo na sua inversão ao que denominamos classicamente sofrimento de amor. Na verdade, esse vazio afectivo é essa espécie de ferida, e toda a poesia de Fernando Pessoa o seu eco inutilmente multiplicado. (…)
[Eduardo Lourenço, Fernando – Rei da Nossa Baviera, INCM, 1993, Fernando Pessoa Ou o Não-Amor, pág. 62]

(…) No seu ar de imitar a Antiguidade na sua perfeição ideal de mármore inscrito, dialogando com ela e na verdade digna dela, o que sobressai é um fundo de angústia moderna, como moderna sob cor antiga é a resposta para a não-resposta de onde nasce e extravasa. Nós somos tempo e nada mais, nós somos como depois de Schopenhauer tantas vezes se repetiu, uma breve luz irrompendo sem razão no seio de uma vida desprovida dela e de novo reenviada à pura noite? Pois se assim é, seja assim. Aceitemos o jogo e joguemo-lo que só nessa aceitação voluntária «o bem consiste». (…)
[Eduardo Lourenço, Pessoa Revisitado, Gradiva, 2003, Ricardo Reis ou o inacessível paganismo, págs. 53/54

Consulta: site da Casa Fernando Pessoa