O importante não é aquilo que fazem de nós, mas o que nós mesmos fazemos do que os outros fizeram de nós.
JEAN-PAUL SARTRE

domingo, 31 de outubro de 2010

«ARCA RUSSA» - ALEKSANDR SOKUROV



Arca Russa
(Russkiy Kovcheg, 2002)
Direção: Aleksandr Sokurov

Em apenas um longo plano sem cortes, um estranho europeu passeia pelo Museu Hermitage*, em São Petesburgo. Em cada salão por que passa, ele revive um momento importante do império russo pré-bolchevique, e filosofa sobre arte, literatura, e o carácter atemporal da história.
Aleksandr Sokurov serviu-se das possibilidades de "armazenamento" das câmaras de vídeo digital para concretizar, livre do constrangimento, o sonho de Hitchcock em «A Corda»: um plano-sequência de hora e meia pelos corredores do Hermitage, sem os truques que Hitchcock teve que empregar. «A Arca Russa», «tour de force» entre os mais ousados e «vanguardistas» , por acaso ou não um exemplo em que o moderno foi posto ao serviço de uma reflexão sobre a tradição.
* O Museu Hermitage foi cedido por três dias, no primeiro dia para montar o material necessário, segundo dia para filmar e terceiro dia para desmontagem.

sábado, 30 de outubro de 2010

SOLIDÃO - FERNANDO PESSOA



Quando estou só reconheço
Se por momentos me esqueço
Que existo entre outros que são
Como eu sós, salvo que estão
Alheados desde o começo.
E se sinto quanto estou
Verdadeiramente só,
Sinto-me livre mas triste.
Vou livre para onde vou,
Mas onde vou nada existe.
Creio contudo que a vida
Devidamente entendida
É toda assim, toda assim.
Por isso passo por mim
Como por coisa esquecida.
9-8-1931
Novas Poesias Inéditas.
Fernando Pessoa. ( Lisboa: Ática, 1973 (4ª ed. 1993).

quinta-feira, 28 de outubro de 2010

Samuel Barber - Adagio for Strings




Um adagio «arrepiante» que se coaduna muito bem, com o meu estado de espírito!...

quarta-feira, 27 de outubro de 2010

O Jardim



Consideremos o jardim, mundo de pequenas coisas,
calhaus, pétalas, folhas, dedos, línguas, sementes.
Sequências de convergências e divergências,
ordem e dispersões, transparência de estruturas,
pausas de areia e de água, fábulas minúsculas.
.
Geometria que respira errante e ritmada,
varandas verdes, direcções de primavera,
ramos em que se regressa ao espaço azul,
curvas vagarosas, pulsações de uma ordem
composta pelo vento em sinuosas palmas.
.
Um murmúrio de omissões, um cântico do ócio.
Eu vou contigo, voz silenciosa, voz serena.
Sou uma pequena folha na felicidade do ar.
Durmo desperto, sigo estes meandros volúveis.
É aqui, é aqui que se renova a luz.
.
António Ramos Rosa, in "Volante Verde"



terça-feira, 26 de outubro de 2010

FERNANDO LOPES GRAÇA (1906-1994)


Nasceu em 17 de Dezembro de 1906, em Tomar. A família pertencia à pequena burguesia. O pai tinha um hotel, onde existia um piano, que cedo despertou a atenção do miúdo. O tenente Aboim, um dos hóspedes do hotel, aconselhou o pai, que devia proporcionar-lhe aulas de piano, com a filha do seu general. Aos 14 anos Fernando deu um concerto no Cine-Teatro de Tomar e contra o habitual, tocou Debussy, compositores russos contemporâneos, a solo ou com um quinteto por si formado.
Em 1923 foi estudar para o Conservatório de Lisboa, onde teve como mestres: Adriano Meira (Curso Superior de Piano), Tomás Borba (Composição) e Luís de Freitas Branco (Ciências Musicais). Em 1927 inscreveu-se na Aula de Virtuosidade de José Viana da Motta. Nesse mesmo ano apresentou-se pela primeira como compositor com a obra, Variações sobre um tema popular português, para piano solo. No ano seguinte, matriculou-se na Faculdade de Letras de Lisboa em Ciências Histórica e Filosóficas. Fundou em Tomar o seminário republicano, «A Acção» e em 1929, com Pedro Prado, publicou no Conservatório de Lisboa, a revista «Música».

Em 1931 abandonou a Faculdade de Letras, como protesto contra certas medidas coercivas do Conselho Escolar, durante uma greve académica. Terminou o Curso Superior de Composição com a mais alta distinção e obteve a 1ª. Classificação para o lugar de professor de piano e solfejo do Conservatório, mas não chegou a ocupar o lugar, porque foi preso por motivos políticos e desterrado para Alpiarça. Mais tarde voltou à Faculdade, mas não chegou a acabar o curso.
Fernando Lopes Graça conviveu com os poetas e escritores da revista «Presença», um grupo de vanguarda e em 1937 ganhou uma bolsa para ir estudar para Paris, embora a mesma não lhe fosse concedida por razões políticas. Partiu para Paris, a expensas suas, para estudar Composição e Orquestração, com Koechlin. Dias antes de partir assistiu a um concerto, onde conheceu a pianista Maria da Graça Amado, foi o início, não só de uma amizade de 50 anos, como também de uma colaboração relativamente à música, porque passou a ser a sua intérprete favorita. A 2ª. Guerra Mundial aproximava-se e em 1939 Lopes-Graça alistou-se no corpo de voluntários dos Amis de la Republique Française e colaborou com muitos patriotas espanhóis, exilados no rescaldo da guerra civil espanhola. Recusou naturalizar-se francês e antes da invasão alemã a França, foi obrigado a regressar a Portugal. Quando chegou desenvolveu grande actividade como compositor, pianista e crítico teatral no «Diabo» e musical na «Seara Nova». O músico organizou coros de amadores de música, para criar reportório, escreveu canções originais e harmonizou canções regionais portuguesas. Pedro Prado, seu ex-colega e amigo, tornou-se director de programas e convidou-o a ser director da secção de música da Emissora Nacional, mas Lopes-Graça recusou, por não querer satisfazer as formalidades de ordem política.

Em 1941, o músico leccionou na Academia de Amadores de Música, que se tornou um núcleo, de resistência e de independência ao regime, tanto a nível de intérpretes, como de público. No ano seguinte, com o apoio do director artístico, organizou a sociedade de concertos Sonata, para divulgar a música do século XX.
Hitler foi vencido, a guerra acabou e a paz foi celebrada em 1945, no entanto, em Portugal, prevaleceu o regime totalitário de Salazar e para o contestar apareceu o Movimento de Unidade Democrática (MUD). O matemático Bento de Jesus Caraça, fundador da Universidade Popular, tornou-se grande amigo de Lopes-Graça, ambos comungavam a mesma ideologia de esquerda e uniram-se na mesma luta, que tinha por objectivo uma intervenção política e cultural progressista na sociedade. Com os poetas José Gomes Ferreira, João José Cochofel e Carlos Oliveira, o músico compôs as Canções Heróicas, em defesa da paz e da liberdade, mas a censura proibiu a sua divulgação.

Dentro do âmbito da acção da Sonata, em 1948 foi promovida a primeira audição integral dos quartetos de Bartok, assim como toda a sua obra para piano, pela pianista Maria da Graça Amado, reunindo-se assim uma vanguarda intelectual, que estava politicamente contra a ditadura salazarista.

Na Academia de Amadores de Música, Lopes-Graça formou dois coros, um Coro de Câmara dos que sabiam música e uma Secção de Folclore, destinada aos que não sabendo música, podiam cantar as harmonizações de música regional portuguesa, feitas pelo compositor.

A Europa tinha sido dividida entre os Aliados e a Rússia de Estaline, que dominava a Polónia, a Checoslováquia e a Hungria. Lopes-Graça participou no 1º. Congresso para a Paz na Polónia, também foi a Praga ao 2º. Congresso dos Compositores e Musicólogos Progressistas e na qualidade de secretário da secção portuguesa da Sociedade Internacional de Música Contemporânea, na qual estava inserida a Sonata, deslocou-se a Amesterdão. Em 1949 foi convidado para fazer parte do júri do Concurso Internacional Béla Bartók, em Budapeste, mas foi impedido de sair do país. Por outro lado as divergências políticas, começaram a surgir dentro do meio democrático, Lopes-Graça por não concordar com a orientação ideológica assumida pela «Seara-Nova», abandonou a revista, de que era secretário da redacção desde 1946.
Na Academia de Amadores de Música em 1951, apareceu a publicação mensal «Gazeta Musical». Esta Academia era ponto de reunião de músicos, poetas, escritores e pintores anti-salazaristas e em 1969 foi-lhe movida uma acção de despejo, que nunca se veio a concretizar, pelos protestos levantados.

Em 1954, foi retirado a Lopes-Graça, o diploma do Ensino Artístico Particular, por razões políticas. O músico ficou sem poder dar aulas na Academia de Amadores de Música, nem em casa, ficou portanto sem meios para subsistir e decidiu partir para Paris, mas os seus amigos não permitiram, Manuel Rodrigues das «Edições Cosmos» encomendou-lhe um «Dicionário de Música», algo que o músico há muito projectava escrever.






Em 1961, Lopes-Graça conheceu o etnógrafo Michel Giacometti, que veio da Córsega, não só ficaram amigos como decidiram trabalhar juntos. Giacometti percorreria o país fazendo uma recolha das canções populares e Lopes- Graça trataria da selecção das mesmas e da sua divulgação.




















GIACOMETTI, Michel (1929-1990)
Fernando Lopes-Graça tinha uma grande paixão pela música e considerava que era de jovem que se devia incutir o gosto pela música, com este objectivo escreveu obras para os mais novos: Álbum do Jovem Pianista, Presente de Natal para as Crianças, sobre textos tradicionais, Canções e Rondas Infantis e As Cançõezinhas da Tila, com texto de Matilde Rosa Araújo, A Menina do Mar, com texto de Sophia de Mello Breyner e ainda belas canções de embalar.

Segundo o compositor francês e seu amigo, Louis Saguer, a música de Lopes-Graça é uma multiplicidade de técnicas e de estilos: da tonalidade mais clássica ao atonalismo mais marcante. Imbuído das ricas polifonias da música regional portuguesa e alimentado por um vasto tesouro de obras-primas de todo o mundo. A sua pesquisa foi feita em todas as direcções, na certeza de encontrar sempre a síntese necessária à própria expressão, enquanto músico e cidadão.
Em 1974 com a Revolução de Abril e a queda do regime autoritário toda a situação mudou, o músico assumiu a presidência da Comissão para a reforma do Ensino Musical criada pelo Governo Provisório. Instalada a democracia são também prestadas grandes homenagens ao músico, a Academia de Amadores de Música cantou no Coliseu, as Canções Heróicas e Lopes-Graça foi condecorado com a Ordem da Amizade dos Povos, em 1976 pelo Soviete Supremo da URSS e em 1980 pelo Presidente da Republica Mário Soares, que lhe deu o grau de Grande Oficial da Ordem Militar de Santiago de Espada.

Em 1979 Lopes-Graça tinha concluído o Requiem pelas Vítimas do Fascismo em Portugal, para cinco solistas vocais, coro misto e grande orquestra, que foi estreado em Lisboa em 1981. Nesse mesmo ano foi convidado pelo governo húngaro, para estar presente nas Comemorações do Centenário do nascimento de Béla Bartók.

Morreu em 27 de Novembro de 1994 na sua casa da Parede. Em 1995 foi editado pela Câmara de Cascais o Catálogo do Espólio Musical de Lopes Graça, um dos mais importantes compositores de Música Portuguesa.
OBRA DE FERNANDO LOPES-GRAÇA:Tem uma obra bastante extensa e diversificada de produção vocal, para piano, guitarra e violino, mas também música de câmara e música sinfónica. Da sua vasta obra podem destacar-se: 11 Glosas; Para uma criança que Vai Nascer; Bosquejos para orquestra de arcos, o ciclo de canções As Mãos e os Frutos, Canto de Amor e de Morte, para conjunto instrumental e a Cantata Melodrama D. Duardos e Flérida.
Ganhou diversos prémios: em 1940, obteve o primeiro prémio de Composição do Círculo de Cultura Musical com o 1º. Concerto para piano e orquestra; 1942 voltou a ganhar o prémio com, História Trágico-Marítima com poema de Miguel Torga; em 1944 ganha novamente com Sinfonia e em 1952 volta mais uma vez a ganhar com a 3ª. Sonata para piano. É ainda de referir, o Prémio Rainier III de Mónaco pelo, Quarteto de Cordas.

Em 1961 editou com Michel Giacometti o 1º. Volume da Antologia de Música Regional Portuguesa, em 1969 foi apresentado o Concerto de Câmara para violoncelo que tinha sido encomendado por Rostropovich, que foi naturalmente o seu intérprete, em 1975 In Memorium Béla Bartók, 8 suites progressivas para piano e em 1979 o
Requiem pelas vítimas do fascismo em Portugal.
REQUIEM PELAS VÍTIMAS DO FASCISMO EM PORTUGAL, É UMA OBRA REALMENTE MUITO DRAMÁTICA, QUE COM AS DEVIDAS DISTÂNCIAS ME DEIXA COM AS EMOÇÕES FEBRIS DO WAR REQUIEM DE BRITTEN
EXCERTO

segunda-feira, 25 de outubro de 2010

POEMA EM LINHA RECTA - ÁLVARO DE CAMPOS


POEMA EM LINHA RECTA
.
Nunca conheci quem tivesse levado porrada.
Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo.
E eu, tantas vezes reles, tantas vezes porco, tantas vezes vil,
Eu tantas vezes irrespondivelmente parasita,
Indesculpavelmente sujo,
Eu, que tantas vezes não tenho tido paciência para tomar banho,
Eu, que tantas vezes tenho sido ridículo, absurdo,
Que tenho enrolado os pés publicamente nos tapetes das etiquetas,
Que tenho sido grotesco, mesquinho, submisso e arrogante,
Que tenho sofrido enxovalhos e calado,
Que quando não tenho calado, tenho sido mais ridículo ainda;
Eu, que tenho sido cómico às criadas de hotel,
Eu, que tenho sentido o piscar de olhos dos moços de fretes,
Eu, que tenho feito vergonhas financeiras, pedido emprestado sem pagar,
Eu, que, quando a hora do soco surgiu, me tenho agachado,
Para fora da possibilidade do soco;
Eu, que tenho sofrido a angústia das pequenas coisas ridículas,
Eu verifico que não tenho par nisto tudo neste mundo.
Toda a gente que eu conheço e que fala comigo
Nunca teve um acto ridículo, nunca sofreu enxovalho,
Nunca foi senão príncipe — todos eles príncipes — na vida...
Quem me dera ouvir de alguém a voz humana
Que confessasse não um pecado, mas uma infâmia;
Que contasse, não uma violência, mas uma cobardia!
Não, são todos o Ideal, se os oiço e me falam.
Quem há neste largo mundo que me confesse que uma vez foi vil?
Ó príncipes, meus irmãos,
Arre, estou farto de semideuses!
Onde é que há gente no mundo?
Então sou só eu que é vil e erróneo nesta terra?
Poderão as mulheres não os terem amado,
Podem ter sido traídos — mas ridículos nunca!
E eu, que tenho sido ridículo sem ter sido traído,
Como posso eu falar com os meus superiores sem titubear?
Eu, que tenho sido vil, literalmente vil,
Vil no sentido mesquinho e infame da vileza.
s.d.
Poesias de Álvaro de Campos. Fernando Pessoa.

UMA INTERPRETAÇÃO PESSOAL -Álvaro de Campos, neste poema fez uma crítica social de forma irónica porque percebia as mazelas da sociedade da sua época e que hoje são tão actuais. Colocando-se crítico em relação a si próprio interroga o leitor pedindo respostas. Apresentando-se por meio de adjectivos pejorativos. Quando diz “tenho enrolado os pés publicamente nos tapetes das etiquetas”, declara que foge das etiquetas que a sociedade impõe, não dá importância para as convenções sociais que exigem regras das pessoas ditas civilizadas. O poeta ironiza com os que contam só as vantagens da vida. A essência do poema é a denúncia sobre as pessoas falsas e hipócritas. No poema Álvaro de Campos compara-se à maioria para definir-se como diferente. Quando afirma que nunca conheceu quem tivesse levado "porrada", declara-se vítima desse acto violento cujo sujeito é a própria existência, ao mesmo tempo que enfatiza o comportamento comedido da maioria que nunca se reconhece objecto da vida, vivendo sempre “em linha recta”. Para A. Campos a vida é torta, feita de vitórias e derrotas, de parasitismo e produtividade, de sujeira e higiene, de impaciência e paciência, de defeitos e qualidades, de características positivas e negativas... A vida é esse antagonismo, não é uma linha recta.

sábado, 23 de outubro de 2010

BIBLIOTECA DE PESSOA DISPONÍVEL ONLINE


Até agora só uma visita à Casa de Fernando Pessoa permitia uma consulta à biblioteca pessoal do poeta. A partir de agora, todo esse acervo, constituído por 1140 volumes e pela colecção de manuscritos (ensaios e poemas) deixados pelo próprio poeta nas páginas desses livros passa a estar disponível online, em:
htpp://casafernandopessoa.cm-lisboa.pt.
Esta é a primeira biblioteca pessoal completamente digitalizada e facultada a todos os leitores, de qualquer parte do mundo.
No âmbito deste projecto todas as páginas de cada volume foram digitalizadas e disponibilizadas para consulta página a página ou após o download de uma obra completa.
Para além da possibilidade de consulta de cada livro por autor, por ano ou por ordem alfabética, faculta-se ainda a classificação por categorias temáticas.
Para facilitar a compreensão da biblioteca como um todo, foram destacadas as páginas que incluem manuscritos do próprio Fernando Pessoa e foram adicionadas interpretações para a aquisição de determinadas obras.
A digitalização da biblioteca de FP, aconteceu por uma combinação de esforços da Casa Fernando Pessoa, uma equipe internacional de investigadores e a Fundação Vodafone Portugal.

(JN)

sexta-feira, 22 de outubro de 2010

LUÍS DE FREITAS BRANCO (1890-1955)

Nasceu em Lisboa e precocemente demonstrou talento para a música. Estudou com Augusto Machado, Tomás Borba e Luigi Mancinelli, que se encontrava em Lisboa, ao serviço do Teatro São Carlos. Entre 1907 e 1908 escreveu um poema sinfónico que revela influências de Liszt, Depois de uma leitura de Antero Quental.
Com o compositor Désiré Pâque, que residiu em Lisboa de 1910 a 1915, conheceu as teorias de Vicent d’ Indy.

Deslocou-se ao estrangeiro e completou a sua formação em Paris com Gabriel Grovlez e em Berlim com Engelbert Humperdinck. São desta altura composições que revelam a influência do contacto com as modernas correntes da música europeia, como o impressionismo francês e o atonalismo de Schönberg, como Paraísos Artificiais, inspirados na obra de Baudelaire com o mesmo nome e com a influência musical de Debussy, a estreia desta peça em 1913 foi mal recebida pelo público, assim como Vathek, Variações Sinfónicas sobre um tema oriental de 1914.

Quando regressou a Portugal em 1915, desenvolveu grande actividade pedagógica colaborando com Viana da Motta na reforma do Conservatório. Primeiro tornou-se professor nas cadeiras de Harmonia e de Ciências Musicais e depois em 1924 tornou-se sub-director do Conservatório.
Freitas Branco compôs obras de cariz nacionalista como as duas Suites Alentejanas, e quatro Sinfonias que foram escritas respectivamente em 1924, 1926, 1943 e 1952 e outras obras de raiz neoclássica e inspiração renascentista como os Madrigais Camonianos.

O músico publicou também, vários trabalhos de musicologia, fez conferências e exerceu a actividade de crítico musical em diversos periódicos, o Diário Ilustrado, a Monarquia, o Correio da Manhã, o Diário de Notícias, o Diário de Lisboa e o Século. É também de referir a Arte Musical, uma revista que fundou em 1929 e que dirigiu até a sua extinção em 1948.

Freitas Branco era bem considerado, pela facção anti-salazarista. Fernando Lopes Graça admirava a sua postura de oposição ao domínio da ópera, cultivando as formas orquestrais de câmara, assim como considerava que as suas primeiras obras, estavam inseridas no movimento renovador cultural das artes plásticas de Amadeu de Sousa Cardoso e Almada Negreiros e da literatura de Fernando Pessoa e Mário de Sá Carneiro.
Estas considerações de Lopes Graça, passam por cima da participação de Freitas Branco no grupo monárquico do Integralismo Lusitano, do qual resultaram obras como Oratória, As Tentações de S. Frei Gil (1911), com texto de António Correia de Oliveira e o poema sinfónico Viriato (1916).

O seu filho João de Freitas Branco, analisando a obra do pai, divide-a em três linhas de força:

1 – Do poema sinfónico, Depois de uma leitura de Antero Quental e compreendendo quase todas as obras da primeira fase, ciclos de canções, Paraísos Artificiais, Vatheck, Quarteto de Cordas e Prelúdios para piano;
2 – As obras de designação clássica, como as Sonatas para violoncelo e piano e para violino e piano;
3 – A linha nacionalista, que deve ser dividida em duas fases: a primeira influenciada pelo Integralismo Lusitano. Um exemplo é o poema sinfónico Viriato, o segundo com a influência da política cultural preconizada pela reforma do conservatório.

O primeiro período corresponde a uma fase de maior originalidade, optando por vias estéticas, que posteriormente abandonou. O aspecto mais notório do introdutor do modernismo é o seu ecletismo, como revela a sua obra Vatheck, onde cada variação tem um tratamento com uma concepção estética e uma técnica diferentes.


VATHECK EXCERTO



Por outro lado a sua música não tem muito a ver com a utilização directa de temas folclóricos, com a excepção das suites Alentejanas.

As obras de designação clássica são: 1ª Sonata para violino e piano (1907), Quarteto de Cordas (1911), Sonata para violoncelo e piano (1913), Concerto para violino e orquestra (1916), que se associam à escola clássica franco-belga de César Franck, não repudiando a sua componente romântica e com uma assimilação de Gabriel Fauré, na caso da Sonata para violoncelo e piano.

A Primeira Sinfonia (1925) representa na opinião de Joly Braga Santos, um dos primeiros exemplos, na música europeia, do regresso às grandes formas clássicas, após a revolução impressionista. No caso português, tratava-se de uma necessidade de criar, uma tradição sinfónica, que exceptuando os casos isolados de Bomtempo e de Viana da Motta, nunca havia chegado a existir.

EXCERTOS DA SINFONIA Nº.1 – I ANDAMENTO

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III ANDAMENTO

terça-feira, 19 de outubro de 2010

GERTRUDE STEIN (1874 em Alleghany, na Pensilvânia - 1946 em Paris)

Em muitas leituras, que tenho feito, principalmente sobre pintores e escritores, aparece o nome de Gertrude Stein. Mulher bastante influente, no meio artístico e que privou com nomes muito conhecidos, como Pablo Picasso, Matisse, Braque, Derain, Juan Gris, Apollinaire, Francis Picábia, Ezra Pound Cézanne, Hemingway, Scott Fritzgerald, Jean Cocteau, T.S. Eliot, Satie , Joyce, entre outros.
Gertrude Stein, é referenciada como escritora, poeta e feminista, mas o seu legado mais conhecido foi a sua influência no mundo artístico, como uma espécie de «mecenas», descobrindo e apoiando grandes artistas, que a ofuscaram completamente.


Filha, de Amélia e Daniel Stein, oriunda da classe média alta, com três anos a família mudou-se para Viena e depois Paris, quando regressou Gertrude tinha cinco anos e mais tarde disse, que foi muito importante o contacto com o alemão e o francês.
Na América a família foi viver para Oakland. Cedo, ela e o seu irmão Leo, 2 anos mais velho, descobriram ter grandes afinidades. Aos 8 anos Gertrude fez a sua primeira tentativa de escrita, a leitura já era para ela uma obsessão, tendo-se iniciado com Shakespeare e livros sobre história natural. Gertrude disse mais tarde, que começou bem cedo o seu caso de amor com as palavras.

Em 1891, com a morte do pai, a família mudou-se para São Francisco, mas depois Gertrude foi viver com uma tia rica em Baltimore e foi estudar para o Radcliffe College, onde teve uma relação especial com William Janes, o seu professor de filosofia. Estudou filosofia, psicologia e depois resolveu estudar medicina, que não concluiu.
Viajou pela Itália, Alemanha e Inglaterra, onde viveu algum tempo com o seu irmão Leo. Depois voltou para a América e foi viver com amigos em Nova Iork. Aqui escreveu o seu primeiro romance, que só foi publicado 4 anos após a sua morte.
O seu irmão Leo foi viver para Paris, para o 27 rue de Fleurus, casa que se tornaria muito famosa. Gertrude foi viver com o irmão em 1904 e durante 30 anos não foi à América, tornando-se em Paris, uma lenda no seu tempo.
Leo tinha-se tornado um coleccionador de arte e a sua casa era conhecida como o «Salon» e as paredes foram-se enchendo de quadros de pintores, que se tornariam muito famosos, como Picasso, Renoir, Gauguin, Cézanne e outros. Vários artistas de vários artes, eram frequentadores do 27, principalmente dos jantares de sábado à noite.
Michael Stein, que era o administrador dos bens familiares dos Stein na América, conhecia Miss Alice B. Toklas, que depois de ouvir falar muito sobre Paris decidiu embarcar para a Europa. Começou a frequentar o «27», a ir às galerias com Gertrudes e também a rever o que a mesma escrevia, até que foi viver com Gertrude, tornando-se a sua companheira durante 39 anos, precisamente até à morte de Gertrude.
Sobre esta relação, a jornalista norte-americana, Janet Malcolm, no seu livro: DUAS VIDAS, escreveu:
Uma era a “abelha-rainha”, bonacheirona e ególatra; a outra, a “operária”, raquítica e feia, que tudo fazia: governava a casa, deixava as coisas em ordem, fazia as vezes de serviçal, era o braço-direito no processo de escrita (revisava os originais e dactilografava as versões finais) e…, não menos importante, dava amor. A relação da escritora Gertrude Stein e a sua companheira Alice B. Toklas não impressiona apenas pela dicotomia de “génios”, o que causa estupefação é a resistência do seu pacto conjugal. Elas nunca se trataram como “casadas” ou “namoradas”, nem perante os mais íntimos, por medo de retaliação, embora muitos soubessem. A vida, entre elas, era estritamente privada.
Alguns amigos, no entanto, presenciavam algumas situações bastante pessoais. Uma vez, Ernest Hemingway foi testemunha de um ataque de ciúme de Alice Toklas.
Stein considerava-se um génio e adorava fazer provocações. A palavra GÉNIO exercia mesmo uma influência considerável na sua vida. Era uma escritora de estilo bastante peculiar e engenhoso, inventora da escrita automática. Os intelectuais do seu tempo, perguntavam se ela era mesmo génio ou não passava de uma impostora. Ela dizia com ironia:"Ser génio exige um tempo medonho, indo de um lugar a outro sem nada fazer", ou então:"
um génio é um génio, mesmo quando nada faz".Gertrude escrevia então o livro, The Making of Americans. O seu estilo abstracto, não foi bem recebido pelo público em geral, um crítico catalogou-a de cubista «literária», devido à sua capacidade de projectar a realidade além da realidade. Uma análise crítica de The Making Of Americans, considera-o um livro frustrado e Gertrude queria que esse livro fosse como um Ulisses de James Joyce.
Gertrude e Alice viajaram para Espanha e Gertrude escreveu uma série de artigos que mais tarde seriam publicados no livro, Tender Buttons. Nesse mesmo ano, o seu relacionamento com Leo começou a ser tenso por causa de Alice e o irmão mudou-se, a partir daí o contacto entre os dois foi muito pouco.
No início de 1914 com a eclosão da Primeira Guerra, os rumores de uma invasão alemã a Paris acabaram por se concretizar, com bombardeios e ataques de Zeppelin. Alice e Gertrude saíram de Paris e só voltaram dois anos depois, para participarem no" Fundo Francês para Feridos". Um automóvel Ford foi enviado dos Estados Unidos, equipado como um caminhão, para distribuir suprimentos nos hospitais em torno de Paris. O Ford foi apelidado de "Tia" em homenagem a tia Gertrude.
Após a guerra, tudo parecia diferente em Paris. Apollinaire morrera poucos dias antes do armistício, logo ele, que fazia as coisas acontecerem, era poeta, crítico, empresário do cubismo, enfim um expoente da Belle Époque e um embaixador da vanguarda. Mas a cidade continuava tão linda como antes e agora enchia-se de turistas americanos. No livro de memórias, Paris é uma Festa, Ernest Hemingway, revela a Paris desse tempo.
Gertrude e Alice também mudaram. Novos amigos apareceram: pintores, escritores e músicos. Entre os aspirantes a escritores estava Hemingway. Sobre Stein disse: "Minha mulher e eu já nos havíamos apresentado a Miss Stein, e tanto ela como a amiga com quem vivia tinham sido muito cordiais e amistosas connosco; ficamos apaixonados pelo estúdio e pelos seus quadros maravilhosos. Era como uma das melhores salas do mais belo museu, com a vantagem de haver uma enorme lareira que nos proporcionava calor e conforto, além das coisas boas que nos ofereciam para comer...Hemingway lia e comentava o que Gertrude escrevia e esta por sua vez fazia o mesmo, mas com severidade infinitamente maior. Não demorou muito a ficar tão ou mais famoso que a mestre e, isso pareceu não agradar a Gertrude, os dois romperam definitivamente o relacionamento.
Esses anos seriam apelidados de "The Lost Generation" ... o mundo desiludido com a guerra, foi a época em que, Hemingway, Fitzgerald e outros escritores expressaram o seu desencanto.

Gertrude e Alice foram para Bilignin onde ela iria produzir alguns de seus melhores trabalhos. Apesar de o seu nome ser bem conhecido, a publicação das suas obras era limitada.
Em 1933 tudo isso mudou com a publicação de A Autobiografia de Alice B. Toklas, que se tornou um best-seller, um livro fundamental da vanguarda dos anos 10, 20 e 30. Este livro, teve como porta-voz Alice, que inicialmente o queria escrever. Stein num estilo muito próprio, conta como jovens artistas e escritores vindos das mais diversas partes do mundo se encontravam em Paris com novos caminhos para a arte. Gertrude Stein, estava por dentro dessa realidade, foi a primeira a pendurar nas suas paredes, pinturas de Juan Gris, Matisse e Picasso. Mais tarde romperia com muitos deles, inclusive com Picasso, por quem manteve grande afeição. Antes porém, posaria noventa e três vezes (dizem), para que o artista catalão desse por finalizado o seu retrato. Stein disse-lhe: "Mas em nada se parece comigo, Pablo". "Mas certamente vai parecer, Gertrude , certamente..." O rompimento dos dois ocorreu em 1927, por ocasião da morte de Juan Gris. Gertrude acusou Picasso, de não ter estimado Gris como deveria ser, e Picasso não gostou.



O seu irmão, sobre o livro, mandou um recado, dizendo:
Meu Deus! Como ela mente!Nos Estados Unidos, o livro transformou-a numa celebridade. Gertrude renitente foi à América fazer várias palestras. Visitaram velhos amigos e fizeram novos… Sherwood Anderson, Thorton Wilder, Charlie Chaplin, e muitos mais. Regressaram e foram para Bilignin, para terem alguma privacidade. Novos rumores de guerra tinham começado, mas Gertrude não podia acreditar, que poderia realmente ser outra guerra mundial.
Em 1937, o senhorio não renovou o contrato de aluguer do 27, porque o seu filho pretendia o apartamento, tiveram que deixar essa célebre casa. Paris esteve ocupada pelos alemães até 1940 e elas só lá voltaram em 1944. Gertrude e Alice, ambas judias escaparam de ir para um campo de concentração, quando a Alemanha cercou Belley. Foram protegidas pelos seus vizinhos e por alguém com relações escusas com a Gestapo (dizem), mas tiveram dificuldades e para sobreviverem venderam alguns quadros. Quando finalmente chegou a libertação, regressaram a Paris. Os amigos começaram a regressar, outros amigos recentes feitos durante a guerra, também se juntaram a elas. Gertrudes disse que se sentia como "avó de todos".
Em 1945 Gertrude foi para Bruxelas, para falar aos soldados, que estavam lá estacionados. Aí sentiu fortes dores abdominais e foi-lhe diagnosticado um cancro no cólon. Morreu no ano seguinte deixando toda a sua fortuna a Alice. Alice B. Toklas morreu em 1967, sobrevivendo a Gertrude 21 anos e encontra-se enterrada ao lado da sua companheira, no cemitério Pére Lachaise, em Paris.

"UMA ROSA É UMA ROSA É UMA ROSA" tornou-se um dos versos mais famosos da literatura, embora Gertrude, nunca se tenha destacado como poeta.
Foi escrita por Stein
, como parte do poema Sacred Emily, que apareceu em 1922 no livro de Geografia e Peças. Nesse poema, a primeira "Rosa" é o nome de uma pessoa. Stein posteriormente utilizou variações sobre a frase em outros escritos, e "Uma rosa é uma rosa é uma rosa», pode ser interpretado como, "as coisas são o que são," uma afirmação da lei da identidade ", A é A ". Na opinião de Stein, a frase expressa o facto de que simplesmente usando o nome de algo, já captar a imaginação e as emoções associadas ao referido. Ela mesma disse numa audiência na Universidade de Oxford, que quando os românticos usavam a palavra "rosa", tinha uma relação directa com uma rosa real. Nas épocas seguintes ao romantismo, o uso da palavra rosa para se referir ao real aumentou, ainda que também implique, por meio do uso da palavra, os elementos arquetípicos da era romântica. Esta repetição, também é uma forma de enfatizar, como nos discursos dos sofistas.
Gertrude Stein, escreveu mais de 400 obras, que se encontram na Yale Collection of American Literature. Das suas obras, as mais referenciadas são: Três Vidas e Autobiografia de Todo Mundo, embora a sua obra mais conhecida, seja Autobiografia de Alice B. Toklas.

(Pesquisa em vários sites)

segunda-feira, 18 de outubro de 2010

EUGÉNIO DE ANDRADE - SORRISO

LEMBRANDO UM DOS GRANDES POETAS PORTUGUESES

domingo, 17 de outubro de 2010

HERBERTO HELDER - POESIA E PROSA



Os Animais CarnívorosI
Dava pelo nome muito estrangeiro de Amor, era preciso chamá-losem voz - difundia uma colorida multiplicação de mãos, e apareciadepois todo nu escutando-se a si mesmo, e fazia de estátua durante umparque inteiro, de repente voltava-se e acontecera um crime, os jornaisdiziam, ele vinha em estado completo de fotografia embriagada,
descobria-se sangue, a vítima caminhava com uma pêra na mão, a boca estavaimpressa na doçura intransponível da pêra, e depois já se não sabia oque fazer, ele era muito belo, daquela espécie de beleza repentina eurgente, inspirava a mais terrível acção do louvor, mas vinha comer àsnossas mãos, e bastava que tivéssemos muito silêncio para isso, e entãoos dias cruzavam-se uns pelos outros e no meio habitava uma montanhaintensa, e mais tarde às noites trocavam-se e no meio o que existia agoraera uma plantação de espelhos, o Amor aparecia e desaparecia em todoseles, e tínhamos de ficar imóveis e sem compreender, porque ele erauma criança assassina e andava pela terra com as suas camisas brancasabertas, as suas camisas negras e vermelhas todas desabotoadas.


Herberto Helder
Poesia Toda
1979
Assírio & Alvim

sábado, 16 de outubro de 2010

POEMAS DE CESARINY



Em todas as ruas te encontro
Em todas as ruas te encontro
Em todas as ruas te perco
conheço tão bem o teu corpo
sonhei tanto a tua figura
que é de olhos fechados que eu ando
a limitar a tua altura
e bebo a água e sorvo o ar
que te atravessou a cintura
tanto, tão perto, tão real
que o meu corpo se transfigura
e toca o seu próprio elemento
num corpo que já não é seu
num rio que desapareceu
onde um braço teu me procura

Em todas as ruas te encontro
Em todas as ruas te perco
Mário Cesariny
estação
Esperar ou vir esperar querer ou vir querer-te
vou perdendo a noção desta subtileza.
Aqui chegado até eu venho ver se me apareço
e o fato com que virei preocupa-me, pois chove miudinho

Muita vez vim esperar-te e não houve chegada
De outras, esperei-me eu e não apareci
embora bem procurado entre os mais que passavam.
Se algum de nós vier hoje é já bastante
como comboio e como subtileza
Que dê o nome e espere. Talvez apareça
Mário Cesariny

sexta-feira, 15 de outubro de 2010

VIANA DA MOTTA (1868-1948)

José Vianna da Motta, nasceu em S. Tomé, filho de pais portugueses. Com dois anos veio para Portugal. Iniciou os seus estudos com sete anos, no Conservatório Nacional, tendo recebido também lições de piano de Joaquim de Azevedo Madeira.

Com treze anos deu o seu primeiro concerto público. O rei-titular de Portugal, D. Fernando II de Saxe-Coburg-Gotha e a condessa alemã, d’Edla, ficaram impressionados com o seu talento precoce e concederam-lhe uma bolsa de estudo para ir estudar para Berlim. José Viana da Mota partiu em 1882 e esteve integrado no meio cultural alemão durante 32 anos, tendo depressa marcado posição como pianista de vulto.

Em Berlim, frequentou o Conservatório Scharwenka, depois teve aulas com Karl Schäffer. Em 1885 recebeu aulas de Liszt em Weimar e dois anos mais tarde foi aluno de Hans von Bülow, que o influenciou no âmbito da filosofia, assim como no estudo aprofundado da obra de Beethoven.

Viana da Mota tornou-se um pianista virtuoso e fez digressões pela Europa, América do Norte e do Sul. Relacionou-se com figuras eminentes, como Ferruccio Busoni, que lhe dedicou uma cadenza de um concerto de Mozart e transcrições e prelúdios sobre corais de Bach (Viana da Mota fez a estreia da transcrição da Tocata, Adágio e Fuga em Dó maior de Bach) e Albéniz dedicou-lhe a sua obra para piano La Veja. Também foram seus amigos Eugen d’Albert, Peter Cornelius, Earl Klindworth, entre outros. As críticas internacionais consideravam o pianista possuidor de uma técnica de grande domínio e brilhantismo, uma sensibilidade invulgar aliada a uma grande inteligência autocrítica e uma profunda ciência musical.
Foi solicitado para colaborar em duos por célebres intérpretes, como Isaye, Sarasate, Casals, Nachez e pela cantora de Lied, Amalie Joachim.

Bastante cedo ganhou reputação como pedagogo, crítico e musicólogo. Escreveu artigos para revistas alemãs de música e foi um dos primeiros na Alemanha a fazer conferências sobre as tão discutidas obras de Wagner. Pelo seu grande conhecimento da obra de Beethoven, foi considerado uma autoridade na interpretação beethoveniana e foi convidado por Guido Adler a participar em Viena, na comemoração do centenário da morte de Beethoven, assim como na Alemanha.

Com a eclosão da Primeira Guerra Mundial, em 1914 teve que deixar Berlim e foi para Genebra assumindo o cargo de regência da classe superior de piano do Conservatório, devido à morte do seu titular, Bernhard Stavenhagen, um discípulo de Liszt.

Em 1917, Viana da Mota regressou definitivamente a Portugal tornando-se Maestro Director da Orquestra Sinfónica de Lisboa. Em 1919 aceitou desempenhar a importante tarefa de reformar o Conservatório Nacional, do qual foi director até 1938. Reformou os currículos, tomou uma postura de oposição à cultura da ópera italiana, que tinha sido dominante em Portugal, durante os séculos XVIII e XIX e introduziu o reportório instrumental. Em sequência desta orientação fundou a Sociedade de Concertos de Lisboa, para criar um novo gosto pela música em Portugal e onde ele próprio deu concertos, apresentando inúmeras obras importantes da literatura musical europeia. Este empenho, foi gradualmente restringido a sua carreira de pianista no estrangeiro, mas o seu trabalho de intérprete e de pedagogo, foi bastante importante para as gerações seguintes.

Através das suas composições, pode observar-se o fenómeno de fusão de mentalidades e de características culturais completamente opostas, embora na sua sensibilidade artística, nunca tenha deixado de ser português. Foi um estudioso profundo e meticuloso e no ambiente germânico encontrou um ambiente intelectual propício à sua criatividade. Integrou-se nas novas correntes filosóficas alemãs e foi adepto da «Nova Escola Alemã» e dos novos rumos musicais marcados por Liszt e Wagner. Identificou-se também com os temas literários do final do romantismo, interpretando-os dentro dos moldes alemães, mas incutindo-lhes algo de pessoal e por isso também português.


Nas suas composições de Lied, revelou-se um mestre em criar ambientes singulares, tanto na harmonia como no ritmo, tratando de forma exemplar a parte do cantor, tinha uma característica, era uma pessoa sóbria e a linguagem do piano é por consequência delicada.


Viana da Mota teve ainda o mérito, de ter sido o primeiro compositor português, que procurou conscientemente criar no país música culta de carácter nacional, a sua obra mais importante neste sentido é a sua sinfonia A Pátria (1895), que foi apresentada no Porto, cada um dos seus movimentos é um reflexo de poemas de Luís de Camões. Compôs ainda inúmeras peças para piano e música de câmara.

SINFONIA «A PÁTRIA» 1º.ANDAMENTO



Manteve praticamente a sua actividade até ao fim da vida, a sua morte ocorreu em 1948, tinha o compositor 80 anos.
OBRAS ESSENCIAIS DE VIANA DA MOTTA
MÚSICA ORQUESTRAL:
-Sinfonia A Pátria em Lá Maior, Inês de Castro (Abertura) e Marcha Portuguesa.MÚSICA CORAL SINFÓNICA:
-Invocação dos Lusíadas.MÚSICA CONCERTANTE:

-
Concerto em Lá Maior para piano e orquestra e Fantasia dramática para piano e orquestra.
MÚSICA DE CÂMARA:
-2 Quartetos de cordas, Cenas nas Montanhas, Variações para quarteto de cordas, Andante para quarteto de cordas, Trio para violino, violoncelo e piano, Sonata para violino e piano, Sonata para violino e piano a quatro mãos.MÚSICA DE PIANO:
-2 Barcarolas, Balada, Serenata, Capricio, Sonata em Ré Maior, Meditação, Valsa, 5 Rapsódias Portuguesas e Cenas Portuguesas.
MÚSICA CORAL:
-Várias obras sobre poemas de Cornelius (para vozes femininas com ou sem acompanhamento), Ave Maria (para coro feminino com acompanhamento de cordas).

[C&H]

quinta-feira, 14 de outubro de 2010

JOSHUA BENOLIEL (1873-1932) - HÁ 100 ANOS ERA ASSIM!..

Joshua Benoliel, fotógrafo e jornalista português, considerado por muitos, o maior fotógrafo português do século XX.

Judeu, descendente de uma família hebraica que se instalara em Gibraltar. Considerado o criador em Portugal da reportagem fotográfica. Fez a cobertura jornalística dos grandes acontecimentos da sua época, acompanhando os reis D. Carlos e D. Manuel II nas suas viagens ao estrangeiro, assim como a Revolução de 1910, as revoltas monárquicas durante a Primeira República, assim como o exército português que combateu na Flandres durante a Primeira Guerra Mundial. As suas fotografias caracterizam-se pelo intimismo e humanismo com que abordava os temas.

Trabalhou para o jornal O Século e para a revista do mesmo jornal, a Ilustração Portugueza bem como para as revistas, Ocidente e Panorama,.

Publicou Arquivo Gráfico da Vida Portuguesa, obra em fascículos ilustrada com fotografias de 1903 a 1918.














quarta-feira, 13 de outubro de 2010

Morreu a soprano australiana Joan Sutherland «LA STUPENDA»

Joan Sutherland, considerada uma das grandes vozes do bel canto do século XX, retirou-se dos palcos em 1990. Estreou-se em Itália com a ópera «Alcina» de Haëndel. Devido a ter uma grande amplitude vocal foi fundamental na redescoberta de óperas que tinham sido escritas para grandes divas.
Em 1991, a rainha Isabel II atribui-lhe a ordem de mérito «DAME».

BIOGRAFIA AQUI

segunda-feira, 11 de outubro de 2010

ALFRED HITCHCOCK– O MESTRE DO SUSPENSE (1899-1980)

Hitchocock é considerado o grande mestre do suspense, motivando ao espectador uma ansiedade, que vai aumentando pouco a pouco, acentuada por música forte e efeitos de luz. Isto acontece porque nos seus filmes o realizador vai dando pistas ao espectador do que vai acontecer, enquanto a personagem nada sabe dos perigos que o esperam. O espectador é um voyeur interactivo, uma outra personagem.
Nos seus filmes, ele preferiu as louras, que se tornam heroínas amáveis, mas quando se apaixonam são perigosas Grace Kelly, é uma referência, porque trabalhou com o realizador em vários dos seus filmes, mas outras podem ser referidas: Eva Marie Saint, Tippi Hedren, Janet Leigh, Kim Novak…


Relativamente aos actores masculinos, sem dúvida que o seu preferido foi Cary Grant, mas também James Stewart, Rod Taylor e outros. A característica das suas personagens masculinas é a relação conflituosa com a mãe.
Hitchcock também usou nos seus filmes o conceito original, MacGuffin, que é a introdução de um objecto como pretexto para avançar na história sem qualquer importância para a mesma.
Temas recorrentes nos seus filmes são a confusão da identidade, o brandy e o número 7. Há também objectos nos seus filmes que são a chave do mistério.


Sir Alfred Joseph Hitchcock, KBE (Londres, 13 de Agosto de 1899 — Los Angeles, 29 de Abril de 1980). De família humilde, estudou numa escola, onde teve uma rígida educação católica. Com 14 anos, devido à morte do pai, começou a trabalhar. O seu percurso profissional foi sempre ascendente. De fabricante de cabos eléctricos, passou ao design gráfico e à publicidade. Em 1920 começou a trabalhar na Famous Players-Lasky, da Paramount Pictures, fez telas de texto para filmes mudos, roteiros, cenografia e foi assistente de direcção. Em 1922 fez o seu primeiro filme, chamado Number Thirteen, mas o projecto foi abandonado. Entre 1923 e 1925, Hitchcock trabalhou em Berlim, na UFA (Universum Film AG).
A sua criatividade surpreendeu os dirigentes do estúdio, que decidiram promovê-lo a director e, em 1925, fez o filme The Pleasure Garden, na Alemanha. Em 1926 estreou-se no suspense, género que o consagraria em todo o mundo, com o filme The Lodger: A Story of the London Fog. Este filme seria o seu primeiro sucesso, baseado nos assassinatos de Jack, o Estripador. A partir daí, Hitchcock fez pelo menos uma aparição em cada uma das suas produções, o que se tornaria uma das suas marcas.
Nesta altura o director casou com Alma Reville, uma assistente de direcção, que trabalhava com ele.
Em 1929, Hitchcock filmou Blackmail, o primeiro filme sonoro britânico. Em 1933, Hitchcock foi trabalhar na Gaumont-British Picture Corporation, e o seu primeiro filme foi The Man Who Knew Too Much, que teve nova versão em 1956 com outros actores.
O seu segundo filme foi
The 39 Steps, de 1935, considerado o melhor filme deste período e a seguir The Lady Vanishes.
Estes filmes chamaram a atenção de Hollywood e o produtor David O. Selznick chamou-o para trabalhar nos EUA, para onde se mudou em 1939, nacionalizando-se americano em 1955.
O seu primeiro filme americano foi
Rebecca, que rendeu ao cineasta a sua primeira indicação ao Óscar. Rebecca, passava-se em Inglaterra e foi baseado no romance de Daphne du Maurier, com actores como Laurence Olivier e Joan Fontaine. Rebecca ganhou o Oscar de melhor filme, mas Hitchcock perdeu o Óscar como melhor director.


O seu segundo filme foi Foreign Correspondent, filmado durante o primeiro ano da Segunda Guerra Mundial, e que também foi nomeado para o Óscar de melhor filme, mas não ganhou o prémio.
Na década de 1940, os filmes de Hitchcock tornaram-se mais diversificados, passando pelo género comédia,
Mr. & Mrs. Smith, filme noir, Shadow of a Doubt, ficção sobre leis,
The Paradine Case.
Saboteur,
foi o primeiro de dois filmes feitos pela Universal e A Sombra de Uma Dúvida foi o segundo, e era um dos filmes preferidos de Hitchcock.
Spellbound, com Ingrid Bergman e Gregory Peck, recebeu nomeação para o Óscar de melhor filme, melhor director e melhor actor secundário (Michael Chekhov), entre outros. O produtor David O. Selznick utilizou as suas experiências na psicanálise, e até levou aos estúdios uma terapeuta, para servir de consultora. Hitchcock fez algumas cenas, imaginadas pelo pintor surrealista Salvador Dalí para ilustrar certas cenas de confusão mental.


Notorious, onde participam Cary Grant e Ingrid Bergman, foi o primeiro filme que Hitchcock dirigiu e produziu. O filme recebeu a indicação para o Óscar de actor secundário, mas não venceu.
Rope,
foi baseado na peça teatral de Patrick Hamilton, foi o primeiro de uma série de filmes de sucesso com o actor James Stewart. Baseado na história do caso de Leopold e Loeb, é tido como tendo um conteúdo homossexual.
Em 1949, Hitchcock lançou o filme
Under Capricorn, com Ingrid Bergman. O filme fracassou, em parte pela publicidade negativa sobre o relacionamento extraconjugal, que Ingrid Bergman tinha com o director italiano Roberto Rossellini.
O filme Strangers on a Train,
foi baseado no romance de Patricia Highsmith. No começo dos anos 1950, a MCA e o agente Lew Wasserman, que tinha como clientes James Stewart e Janet Leigh, tiveram grande importância nos filmes de Hitchcock. Com a ajuda de Wasseraman, Hitchcock teve grande liberdade criativa para trabalhar.
Em 1954, o filme Dial M for Murder teve Ray Milland e Grace Kelly nos papéis principais. Foi o primeiro filme em que Hitchcock trabalhou com Grace Kelly, baseado na peça escrita por Frederick Knotte, pela primeira vez, o director usou a técnica 3D.
No mesmo ano, Hitchcock lançou o filme Rear Window, com James Stewart e Grace Kelly nos papéis principais. O filme é considerado um dos maiores sucessos do director.


No ano seguinte foi a vez de To Catch a Thief com Gary Grant e Grace Kelly, seguindo-se nova versão do filme, The Man Who Knew Too Much, agora com James Stewart e Doris Day nos papéis principais. O director considerou a versão superior ao original feito por em 1934.
Em 1957, o director lançou o filme
The Wrong Man, com Henry Fonda e Vera Miles, com roteiro baseado no livro The True Story of Christopher Emmanuel Balestrero, de Maxwell Anderson, um caso real de confusão de identidade.
Vertigo, com James Stewart e Kim Novak, é visto como uma das obras-primas do director, embora na época tenha sido um fracasso comercial. O filme foi eleito entre os cem melhores filmes de todos os tempos pelo Instituto de Cinema Americano, em 1998.


North by Northwest foi protagonizado por Cary Grant, Eva Marie Saint e Martin Landau, entre outros. Conta a história de um homem inocente perseguido por agentes de uma misteriosa organização. É considerado como um grande trabalho de Hitchcock.
Psycho, que teve como protagonistas Janet Leigh, Anthony Perkins e Vera Miles, venceu o Globo de Ouro na categoria de melhor actriz (Janet Leigh). O filme trouxe uma das cenas mais conhecidas da história do cinema, a famosa cena do chuveiro, quando a personagem de Janet Leigh é assassinada à facada. Este filme ficou na décima oitava posição entre os 100 melhores filmes do Instituto de Cinema Americano.


The Birds, é baseado num conto de mesmo nome da escritora britânica Daphne Du Maurier e é protagonizado por Rod Taylor, Jessica Tandy e Tippi Hedren, uma actriz que foi descoberta por Hitchcock. O filme inovou na banda sonora e nos efeitos especiais, e foi nomeado para o Óscar. Tippi Hedren, mãe da futura actriz Melanie Griffith, ganhou o Globo de Ouro.


Marnie, de 1964, foi estrelado por Tippi Hedren e Sean Connery, e é um dos filmes clássicos de Hitchcock. Em 1966, lançou Torn Curtain, um thriller político com Paul Newman e Julie Andrews nos papéis principais.
Topaz, filmado entre 1968 e 1969, aborda a Guerra Fria, e conta a história de um espião, baseando-se no livro de mesmo nome escrito por Leon Uris. Em 1972, Hitchcok lançou Frenzy , um thriller que trouxe pela primeira vez cenas de nudez e palavras de baixo calão aos seus filmes.
O seu último filme foi
Family Plot, com Karen Black e Bruce Dern.
Em 1980, Alfred Hitchcock recebeu a KBE da Ordem do Império Britânico, das mãos da Rainha Elizabeth II, morreu quatro meses depois, de insuficiência renal, na sua casa em Los Angeles.

Este texto segue mais on menos o publicado AQUI , com alguma correção ortográfica e o acréscimo de trailers dos meus filmes preferidos, que visiono muitas vezes.

domingo, 10 de outubro de 2010

SERRALVES. MARLENE DUMAS/GRAZIA TODERI

MARLENE DUMAS: CONTRA O MURO

“As minhas raízes”
.
Cor não sei grande coisa sobre as cores,
a sério uso-as intuitivamente
.
e as tuas raízes
.
não sei grande coisa sobre o racismo,
a sério o meu conhecimento é epidérmico
.
que queres dizer com isso, disse ele
oh, disse ela, não sabias que todas as cicatrizes
têm uma cor rosa que se nota
.
Marlene Dumas Maio 2010 ..
in Marlene Dumas: Contra o Muro, Catálogo da exposição, Museu de Serralves, 2010, p. 59.

A primeira imagem que me evocava o nome de Marlene Dumas (1953, Cidade do Cabo) era uma série de rostos povoados por cores a gouache. Algo inquietante sobressaía desses retratos, cujas fisionomias eram acentuadas pelas cores utilizadas. A cor da pele deixava de ser natural mas na sua irrealidade de azul, laranja ou rosa fucsia tornava visível a identidade de cada um dos personagens de forma emocional.
Marlene Dumas colecciona imagens da realidade, reportagens fotográficas, recortes que transforma nas suas pinturas com a força de várias camadas de ficções e cultura, que absorve da pintura italiana de Caravaggio, do cinema de Bergman ou dos livros de Céline. Na série “Contra o Muro”, que é o núcleo principal desta exposição, faz referência ao “muro”, chamado de segurança, que divide Palestianos de Israelitas na Cisjordânia.

Os muros são a forma arquitectónica mais básica que o homem utiliza, desde a pré-história, para separar algo, da terra aos caminhos. Numa cidade, os muros que dividem uma zona de outra, separam olhares, e a propriedade que temos de nos ver uns aos outros como grupo de indivíduos. Colocar alguém contra o muro é a forma mais básica de submissão do outro. Um destes dias voltando a casa, vejo uma dezena de jovens adolescentes negros e de origem árabe, com as mãos no ar, voltados contra o muro de um edifício que fica ao lado de minha casa, em Paris. Os polícias mantêm-nos nesta posição, numa espécie de rusga. Com que impunidade colocamos, mesmo dentro duma velha democracia como a francesa, no centro da sua capital, jovens indivíduos contra o muro? Berlim teve um muro, a China uma muralha. Na ala direita do Museu de Serralves, ao lado do contra-ponto do macrocosmos expositivo de Grazia Toderi que ocupa o resto do Museu, encontramos de novo os rostos que tornaram conhecida a pintora. Mais além deste muro real, com pessoas a serem revistadas pelo exército, encontramos figuras que fazem eco aos símbolos da humanidade: uma criança que acena (“Child Waving”, 2010), um homem ajoelhado (“Living on your knees”, 2010), uma mãe que chora um filho no cemitério (“The Mother”, 2009). O nosso olhar retorna, após cada perspectiva individual, aos muros presentes no muro do Museu: homens contra o Muro altifalante desta série (“Wall Weeping”, 2009) ou grandes blocos de pedra (“Mindblocks”, 2009)

que nos trazem o presente da história, que se é intemporal na arte, é igualmente contemporânea nesta série de trabalhos que nos mostram um hoje e um agora no estado de guerra latente entre os homens.


A exposição comissariada por Ulrich Loock exibe as pinturas mostradas pela primeira vez em Março-Abril de 2010, em Nova Iorque, na Galeria de David Zwirner. Acrescentando outros trabalhos da artista, a exposição é apresentada num justo equilíbrio. As grandes paredes do Museu de Siza permitem um confronto com a arquitectura presente nas telas, que quase se prolonga na brancura dos muros do museu. São telas de grande formato acompanhadas de algumas naturezas-mortas, azeitonas da oliveira bíblica (“Olives”, 2009), pratos com um cacho de uvas já comido (“The Graphes of Wrath”),

autores desaparecidos (“The Death of the Author”, 2003), retrato baseado numa fotografia do autor de Voyage au bout de la nuit, Céline, no seu leito de morte; e mães desaparecidas, como a mãe da pintora (“Hiroshima, mon amour”, 2008).

Uma vitrine com recortes de jornais encerra a exposição que urge ver, sobretudo num momento em que o único museu de arte contemporânea português reconhecido na Europa se encontra posto contra o muro por razões económicas.
.
A condição humana
(ou uma saudação a quem me inspirou)
.
(...)
.
Uma saudação à cultura popular dos fornecedores de imagens,
correspondentes de guerra, gestores de media,
guerreiros de hotel e artistas de aeroporto.
.
À arte de retratar, mais ou menos utilizada
por políticos, mártires, assassinos,
militares... que sei eu.
.
(…) Aos cartazes que Ad van Denderen
fotografou na Cisjordânia.
Aos soldados israelitas que se recusam a lutar
nos territórios ocupados.
.
A Amos Oz que se pronunciou
sobre o facto de judeus e árabes
terem sido vítimas do mesmo opressor.
Isto torna o seu conflito mais difícil, não mais fácil.
Ambos foram humilhados,
discriminados e perseguidos
pela Civilização Europeia.
.
(...)
.
À diferença entre esquecer e perdoar.
Á distinção entre liberdade, sina e destino.
Ao nosso ponto de partida e ao nosso ponto de chegada.
Ao facto de a vida ser circular,
e de o que anda por aí permanecer por aí,
de, para o melhor e para o pior,
partilharmos todos a mesma condição.”
Marlene Dumas Amesterdão, Setembro de 2006 in Marlene Dumas: Contra o Muro, Catálogo da exposição, Museu de Serralves, 2010, p. 72.