O importante não é aquilo que fazem de nós, mas o que nós mesmos fazemos do que os outros fizeram de nós.
JEAN-PAUL SARTRE

quinta-feira, 30 de setembro de 2010

CAMILLE CLAUDEL (1864-1943)

Camille Claudel, era filha de Louis-Prosper Claudel, hipotecário e de Louise-Athanaïse Claudel. Camille passou a sua infância em Villeneuve-sur-Fère. Primeira a ser gerada pelo casal, quatro anos mais velha que Paul Claudel, ela impõe a este, assim como a sua irmã Louise, a sua forte personalidade. Segundo Paul, o seu desejo desde criança era ser escultora, Camille previu também que ele se tornaria escritor e que Louise, a outra irmã, se dedicaria à música. Entre brincadeiras e pequenas aventuras ao lado de Paul, Camille foi uma criança fora dos padrões e alheia ao que se esperava de uma menina no século XIX . Numa época em que as mulheres eram criadas para os afazeres domésticos, ela estava sempre suja de barro, para desespero da mãe e orgulho do pai. Começou a moldar argila, quase como uma brincadeira. Na adolescência, um dos seus professores foi o escultor Alfred Boucher. Foi ele que sugeriu ao pai de Camille, que levasse a menina para Paris, onde ela poderia participar nos grandes salões de arte e conhecer a nata intelectual e artística da época.O pai de Camille acreditava na vocação da filha e, apesar dos gastos que isso representava, em 1881 levou toda a família para Paris. Mas em Paris as dificuldades eram enormes para uma jovem artista. A escultura, além de ser uma actividade prioritariamente masculina, exigia materiais caríssimos, como o mármore e o bronze e era preciso pagar um espaço relativamente amplo, assim como o salário do trabalho de fundidores, auxiliares e modelos. Camille alugou um atelier com mais três jovens artistas, todas inglesas. Dividiam também os pagamentos para o professor Alfred Boucher, que as orientava. Foi numa dessas visitas que Boucher apresentou o trabalho de Camille a Paul Dubois, director da Escola Nacional de Belas-Artes. Dubois notou a semelhança da obra da jovem com a de outro artista, que começava a despontar para a fama e perguntou-lhe se tinha aulas com Auguste Rodin.


Na época, Rodin ainda não era famoso, mas já iniciara a experimentação conceitual e estilística que viria a caracterizar a sua forma inusual de esculpir. Por isso, era odiado pelos críticos e amado pela vanguarda de Paris, ou seja, os impressionistas. Algumas semanas depois, Boucher viajou para Itália e pediu para Rodin assumir as suas aulas particulares. Assim, Camille aproximou-se de Rodin e este passou a frequentar o local e, passados dois anos, chamou Camille para trabalhar com ele. O convite coincidiu com um momento particularmente importante na carreira de Rodin. Ele acabara de receber uma encomenda do governo francês para fazer, Les Portes de l'Enfer e Les Bourgeois de Calais obras de grande porte que precisavam de ajudantes para serem feitas. Camille era uma artesã habilidosa e por isso ficou incumbida de fazer os pés e as mãos das estátuas.Desta época datam as primeiras obras conhecidas de Camille: La Vieille Hélène e Paul à treize ans.Não se sabe quando a convivência entre o mestre e a aluna se tornou um caso de amor, mas as cartas que trocavam em 1886 são reveladoras da paixão e do ciúme que Camille, desde o início, logo sentiu. Camille tinha 19 anos, Rodin era mais velho 24 anos. Rodin nessa época, já vivia com Rose Beuret, de quem tinha um filho, além disso, ostentava a fama de mulherengo. Mas Camille estava apaixonada e, em 1888, deixou a casa dos pais e passou a viver numa casa alugada por Rodin, que eles chamaram de “retiro pagão”. Passaram a frequentar lugares públicos, tornando-se amantes assumidos. O que era um escândalo para a época.Com o tempo Camille passou a ficar só, vivendo à espera de Rodin. O relacionamento começou a deixá-la deprimida, ela queria que Rodin se casasse com ela. Mas ele nunca chegou a deixar Rose (casaram em 1917). Jurava amor a Camille, mas dizia que não podia abandonar a mulher que havia estado ao seu lado nos momentos difíceis. Em 1892, Camille sofreu um aborto. Não se sabe se foi natural, mas ela abandonou o “retiro pagão” e afastou-se de Rodin. Para recuperar o tempo perdido, concentrou-se no trabalho. Foi a sua fase mais produtiva. Camille estudou a arte japonesa e dessa influência surgiram algumas das suas mais belas obras, como As Bisbilhoteiras e A Onda.Apesar das críticas favoráveis, a sua arte não era apreciada pelo grande público, pelo preconceito de ser mulher e porque diziam que ela copiava Rodin. Rodin e Camille continuaram a encontrar-se até 1898, quando romperam definitivamente. A sua obra, L’Age Mûr, marca essa ruptura .


Camille tentou um distanciamento, percebendo-se muito claramente essa tentativa de autonomia na sua obra (1880-94), tanto na escolha dos temas como no tratamento: La Valse ou La Petite Châtelaine. Camille viveu uma efémera fama, expondo em salões e participando de tertúlias em casa de Mallarmé e de Jules Renard, admiradores do seu trabalho.Ferida e desorientada, Camille Claudel nutriu então por Rodin um amor-ódio que a levou à paranóia. Instalou-se no número 19 do Quai Bourbon e continuou a sua busca artística em grande solidão apesar do apoio de críticos como Octave Mirbeau, Mathias Morhardt, Louis Vauxcelles e do fundidor Eugène Blot. Este último organizou duas grandes exposições. As suas exposições tiveram um grande sucesso da crítica, mas Camille já estava bastante doente, para se reconfortar com os elogios.Depois de 1905, os períodos paranóicos de Camille multiplicaram-se e acentuaram-se. Ela tinha delírios, em que via Rodin apoderando-se das suas obras para moldá-las e expô-las como suas, com o conluio do inspector do Ministério das Belas-Artes, e que desconhecidos queriam entrar na sua casa para lhe furtar as obras. Camille fica num grande abatimento físico e psicológico, não se alimentando e desconfiando de todos.A partir de 1906, destruíu grande parte da sua produção, numa espécie de exorcismo, como forma de livrar-se daquilo que ainda a vinculava ao homem amado e com a obsessiva dor do abandono. Rodin tentou em vão vê-la, transformando-se num inimigo perseguidor, dentro do delírio paranóico de Camille.Camille passou então a viver trancada no seu estúdio, cercada pelos seus gatos e com sérios problemas financeiros. Usava roupas e sapatos velhos, não comia e começou a beber. Depois de A Idade Madura, considerada a sua obra mais autobiográfica, ter sido recusada pela Exposição Universal de 1900, Camille, com 36 anos, passou a considerar que havia um complot de Rodin contra ela. Mas, apesar das suspeitas, ele continuou a intervir, assegurando-lhe novas encomendas. Camille fugia de todos, preferia viver sozinha, no silêncio e na escuridão. A sua última escultura data de 1906. Depois desse ano, destruiu toda s sua produção. A partir daí, as suas angústias tornaram-se ideias fixas e instalou-se a psicose.O seu irmão estava longe, em missão diplomática na China. O seu pai estava velho e doente. Ela não tinha mais ninguém, nem dinheiro, nem saúde, nem inspiração. Restava-lhe o abandono e o medo.O seu pai, morreu em 1913.Poucos dias depois, por ordem da mãe e do irmão, foi internada à força num asilo de loucos em Ville-Evrard e, um ano depois, com a eclosão da Primeira Guerra Mundial foi transferida para o hospital psiquiátrico de Montdevergues, onde morreu em 1943, após trinta anos de internamento. A mãe nunca a foi visitar e rejeitou a sugestão do conselho dos médicos para levá-la para casa. O seu irmão, Paul Claudel, além de próspero, fortaleceu-se politicamente, ao tornar-se embaixador da França. Não obstante, negou-se, em 1933, a pagar-lhe uma pensão hospitalar. Nos 30 anos de internamento, Paul visitou-a poucas vezes e nada fez para amenizar o sofrimento de Camille, apesar das cartas suplicantes que esta lhe enviou, narrando as condições sobre-humanas em que vivia.Rodin, enviou-lhe algum dinheiro, expôs algumas das esculturas de Camille que sobreviveram à destruição, mas nada fez para libertá-la do hospital. De qualquer maneira, qualquer iniciativa da sua parte, seria obstada pela mãe de Camille, que o considerava culpado pela ruína e loucura de sua filha.______________________________
A força e a grandiosidade do seu talento estavam na verdade num lugar muito incómodo: entre a figura lendária de Rodin e a de seu irmão que se tornou um dos maiores expoentes da literatura da sua geração. E não é difícil ver que as questões de género permeiam esse lugar menor dedicado a Camille.O seu génio foi sufocado por dois gigantes, a sua vida sufocada pelo abandono, as suas forças e a sua lucidez esgotadas por uma relação com o seu mestre e amante. Uma relação da qual não conseguiu desvincular-se, consumindo a sua vitalidade na vã tentativa de desembaraçar-se desse destino perverso. A sua forte personalidade, a sua intransigência, o seu génio criativo que ultrapassou a compreensão da sua época, permanecerá ainda e sempre um mistério.A sobrinha-neta de Camille, Reine-Marie Paris, autora de uma tese sobre a vida da artista (Camille Claudel, de 1984), conta que brincava com as suas esculturas guardadas na casa do avô, Paul, irmão de Camille. “Até pouco tempo atrás, a família tinha vergonha da escultora e o nome de Camille nem sequer era pronunciado”, disse.
LIVROS
Camille Claudel: Criação e Loucura, Liliana Liviano Wahba, 1998
Camille Claudel, uma Mulher, Anne Delbée, 1988
Rodin, Monique Laurent, 1988
FILME
Camille Claudel - Bruno Nuytten, 1989. Baseado na biografia escrita por Raine-Marie, sobrinha-neta de Camille, o filme foi o responsável pelo “renascimento” das obras da escultora.
SITE
www.camille-claudel.org, Mantido por Reine-Marie, informa sobre exposições e refere os museus onde estão as suas obras.
CONSULTA

terça-feira, 28 de setembro de 2010

HORA ABSURDA - FERNANDO PESSOA


O TEU SILÊNCIO é uma nau com todas as velas pandas...
Brandas, as brisas brincam nas flâmulas, teu sorriso...
E o teu sorriso no teu silêncio é as escadas e as andas
Com que me finjo mais alto e ao pé de qualquer paraíso...
-
Meu coração é uma ânfora que cai e que se parte...
O teu silêncio recolhe-o e guarda-o, partido, a um canto... Minha ideia de ti é um cadáver que o mar traz à praia...,
e entanto
Tu és a tela irreal em que erro em cor a minha arte...
-
Abre todas as portas e que o vento varra a ideia
Que temos de que um fumo perfuma de ócio os salões...
Minha alma é uma caverna enchida p'la maré cheia,
E a minha ideia de te sonhar uma caravana de histriões...
-
Chove ouro baço, mas não no lá-fora...É em mim...Sou a Hora,
E a Hora é de assombros e toda ela escombros dela...
Na minha atenção há uma viúva pobre que nunca chora...
No meu céu interior nunca houve uma única estrela...
-
Hoje o céu é pesado como a ideia de nunca chegar a um porto...
A chuva miúda é vazia...A Hora sabe a ter sido...
Não haver qualquer coisa como leitos para as naus!...Absorto
Em se alhear de si, teu olhar é uma praga sem sentido...
-
Todas as minhas horas são feitas de jaspe negro,
Minhas ânsias todas talhadas num mármore que não há,
Não é alegria nem dor esta dor com que me alegro,
E a minha bondade inversa não é nem boa nem má...
-
Os feixes dos lictores abriram-se à beira dos caminhos...
Os pendões das vitórias medievais nem chegaram às cruzadas...
Puseram in-fólios úteis entre as pedras das barricadas...
E a erva cresceu nas vias férreas com viços daninhos...
-
Ah, como esta hora é velha!... E todas as naus partiram!
Na praia só um cabo morto e uns restos de vela falam
De longe, das horas do Sul, de onde os nossos sonhos tiram
Aquela angústia de sonhar mais que até para si calam...
-
O palácio está em ruínas... Dói ver no parque o abandono
Da fonte sem repuxo... Ninguém ergue o olhar da estrada
E sente saudade de si ante aquele lugar-outono...
Esta paisagem é um manuscrito com a frase mais bela cortada...
-
A doida partiu todos os candelabros glabros,
Sujou de humano o lago com cartas rasgadas, muitas...
E a minha alma é aquela luz que não mais haverá nos
candelabros...
E que querem ao lago aziago minhas ânsias, brisas fortuitas?...
-
Por que me aflijo e me enfermo?...Deitam-se nuas ao luar
Todas as ninfas... Veio o sol e já tinham partido...
O teu silêncio que me embala é a ideia de naufragar,
E a ideia de a tua voz soar a lira dum Apolo fingido...
-
Já não há caudas de pavões todas olhos nos jardins de outrora...
As próprias sombras estão mais tristes...Ainda
Há rastros de vestes de aias (parece) no chão, e ainda chora
Um como que eco de passos pela alameda que eis finda...
-
Todos os ocasos fundiram-se na minha alma...
As relvas de todos os prados foram frescas sob meus pés frios...
Secou em teu olhar a ideia de te julgares calma,
E eu ver isso em ti é um porto sem navios...
-
Ergueram-se a um tempo todos os remos...pelo ouro das searas
Passou uma saudade de não serem o mar...Em frente
Ao meu trono de alheamento há gestos com pedras raras...
Minha alma é uma lâmpada que se apagou e ainda está quente...
-
Ah, e o teu silêncio é um perfil de píncaro ao sol!
Todas as princesas sentiram o seio oprimido...
Da última janela do castelo só um girassol
Se vê, e o sonhar que há outros põe brumas no nosso sentido...
-
Sermos, e não sermos mais!... Ó leões nascidos na jaula!...
Repique de sinos para além, no Outro Vale... Perto?...
Arde o colégio e uma criança ficou fechada na aula...
Por que não há de ser o Norte e Sul?... O que está descoberto?...
-
E eu deliro... De repente pauso no que penso...Fito-te...
E o teu silêncio é uma cegueira minha...Fito-te e sonho...
Há coisas rubras e cobras no modo como medito-te,
E a tua ideia sabe à lembrança de um sabor de medonho...
-
Para que não ter por ti desprezo? Por que não perdê-lo?...
Ah, deixa que eu te ignore...O teu silêncio é um leque ---
Um leque fechado, um leque que aberto seria tão belo, tão belo,
Mas mais belo é não o abrir, para que a Hora não peque...
-
Gelaram todas as mãos cruzadas sobre todos os peitos....
Murcharam mais flores do que as que havia no jardim...
O meu amar-te é uma catedral de silêncio eleitos,
E os meus sonhos uma escada sem princípio mas com fim...
-
Alguém vai entrar pela porta...Sente-se o ar sorrir...
Tecedeiras viúvas gozam as mortalhas de virgens que tecem...
Ah, o teu tédio é uma estátua de uma mulher que há de vir,
O perfume que os crisântemos teriam, se o tivessem...
-
É preciso destruir o propósito de todas as pontes,
Vestir de alheamento as paisagens de todas as terras,
Endireitar à força a curva dos horizontes,
E gemer por ter de viver, como um ruído brusco de serras...
-
Há tão pouca gente que ame as paisagens que não existem!...
Saber que continuará a haver o mesmo mundo amanhã --- como
nos desalegra!...
Que o meu ouvir o teu silêncio não seja nuvens que atristem
O teu sorriso, anjo exilado, e o teu tédio, auréola negra...
-
Suave, como ter mãe e irmãs, a tarde rica desce...
Não chove já, e o vasto céu é um grande sorriso imperfeito...
A minha consciência de ter consciência de ti é uma prece,
E o meu saber-te a sorrir é uma flor murcha a meu peito...
-
Ah, se fôssemos duas figuras num longínquo vitral!...
Ah, se fôssemos as duas cores de uma bandeira de glória!...
Estátua acéfala posta a um canto, poeirenta pia baptismal,
Pendão de vencidos tendo escrito ao centro este lema --- Vitória!
-
O que é que me tortura?... Se até a tua face calma
Só me enche de tédios e de ópios de ócios medonhos...
Não sei...Eu sou um doido que estranha a sua própria alma...
Eu fui amado em efígie num país para além dos sonhos...
-
4-7-1913

Fernando Pessoa

segunda-feira, 27 de setembro de 2010

VANESSA REDGRAVE

Vanessa Redgrave, filha dos actores Rachel Kempson e Michael Redgrave, nasceu em Londres em 1937. Teve dois irmãos mais novos, Corin Redgrave e Lynn Redgrave. Numa casa de actores com ideias progressistas, essa herança passou completamente para Vanessa. Iniciou os seus estudos no Central School of Speech and Drama en Londres e no Royal Shakespeare Company. Relativamente às suas actividades políticas a sua trajectória de militância política começou cedo, filiando-se em varias organizações marxistas.
Entre 1962 e 1967 a actriz foi casada com Tony Richardson, pai das suas duas filhas (ambas actrizes): Natasha Richardson e Joely Richardson. Em 1967 divorciou-se devido ao relacionamento que o marido tinha com Jeanne Monreau.
Começou a trabalhar no teatro e em 1964 obtendo um papel na série, Adeus às Armas e no filme Um Homem para a Eternidade, mas foi com Michelangelo Antonioni, que encontrou o seu primeiro papel importante em Blow up (1966 ).
Nesse filme interpretou uma mulher indomável e desafiadora, o prototipo da mulher que abraça a revolução sexual da época. Com esse filme obteve o prémio de interpretação no Festival de Cannes. Seguiu-se o filme Morgan: A Suitable Case For Treatment, onde interpretou uma mulher burguesa que descobria o vazio da vida e também o a sua sexualidade. Vanessa Redgrave passou a encarnar a mulher "responsável pelo seu próprio destino", comprometida com causas sociais, lutadora e muito activa.
Depois da separação de Richardson, Vanessa conheceu Franco Nero, quando filmavam Camelot e dele teve o seu terceiro filho, Carlo Gabriel Nero.
Em 1968 interpretou a bailarina Isadora Duncan, outro papel de mulher transgressora, que lhe valeu outro prémio no Festival de Cannes.


Vanessa foi protagonista de movimentos progressistas dos anos sessenta, mas também participou na chamada cultura social, em filmes como: Maria, Rainha da Escócia com Glenda Jackson, As Troianas, com Katherine Hepburn e Irene Papas. No teatro fez a Ópera dos Três Vinténs de Bertolt Brecht e Noite de Reis, interpretando Viola, uma jovem adepta do travestismo.
Em pleno êxito profissional, apresentou-se entre 1974 e 1979 às eleições pelo Partido Revolucionário Trotskista, a quem dava muito do seu dinheiro.
Em 1977 , com realização de Fred Zinnemann, interpretou Júlia, a melhor amiga de Lillian Hellman, um papel que se ajusta perfeitamente aos seus ideais. Com ele obteve o Óscar de Melhor actriz secundária.

Umas semanas antes Vanessa, tinha revelado ser simpatizante da causa Palestina e membros da comunidade judia, queimaram a sua fotografia. Ao receber o prémio, Vanessa Redgrave, disse que não se deixava intimidar pelo grupo de sionistas assassinos, cujo comportamento era um insulto aos judeus de todo o mundo. E prometeu continuar a lutar pelo antisemitismo, a opressão e o fascismo.
Apesar do escândalo a sua carreira não decresceu, filmou Yankis com John Schlesinger e Agatha, onde interpreta a escritora Agatha Christie, durante uma situação da sua vida pouco conhecida. Seguiu-se em 1984, The Bostonians, do realizador James Ivory, onde interpreta uma sufragista que se apaixona por uma das suas protegidas. O seu papel foi indicado para um Óscar, mas a Academia teve medo de a premiar, apesar de nessa altura já pertencer ao partido Trabalhista.
Em 1985, o seu pai, Michael Redgrave morreu em plena representação, foi um grande choque para Vanessa. Nos anos seguintes dedicou-se mais ao teatro, passando a seleccionar mais criteriosamente as propostas para cinema. Filmou, o Regresso a Howards End, depois Um Mês no Campo, onde interpreta uma mulher madura, sedutora de jovens e de homens da sua própria geração, Mrs Dallaway, uma mulher que optava por viver, depois de reflectir sobre o vazio e a frustração da sua existencia. Estes títulos revelaram a sua impressionante beleza outonal e proporcionaram-lhe papeis secundários em filmes interessantes como: A Casa dos Espíritos,
Lulu on The Bridge, Inocência Interropida, Wilde.Em 1998 abandonou a militância no Partido Trabalhista. Continuou a fazer filmes e a receber prémios, como o Prémio Donostia, no Festival de Cinema de San Sebastian. Vanessa pediu à assistência para cantarem Imagine de John Lennon. Em 2002 recebeu um Globo de Ouro pelo seu papel no tele filme, If These Walls Could Talk 2.Em 2002 volta também a intensificar a sua militância política, declarando que Guantánamo, era um campo de concentração e no ano seguinte devido ao seu desacordo com a Guerra no Iraque, recusou participar na Cerimónia dos Óscares, onde ia ser homenageada pela sua carreira. No Reino Unido fundou, The Peace and Progress Party com o seu irmão, Corin Redgrave.
Continuou a trabalhar no teatro, recusando varios filmes, apenas aceitou o papel de Virginia Woolf, no filme, The Hours. Entretanto a nível familiar viveu situações bastante dramáticas: a morte de Rachel Kempson em casa do marido de Natasha, Liam Neeson; a irmã Lynn contraiu um cancro na mama, Corin sofreu um enfarte e a sua filha Natasha Richardson teve um acidente fatal de ski.
Em 2005, participou no filme, A Condessa Branca, do realizador James Ivory, onde interpreta uma condessa russa desterrada. Seguiu-se, entre outros trabalhos, Evening e Atonement.

domingo, 26 de setembro de 2010

POEMAS DE SYLVIA PLATH



A CHEGADA DA CAIXA DE ABELHAS
-
Encomendei esta caixa de madeira
Clara, exacta, quase um fardo para carregar.
Eu diria que é um ataúde de um anão ou
De um bebé quadrado
Não fosse o barulho ensurdecedor que dela escapa.
Está trancada, é perigosa.
Tenho de passar a noite com ela e
Não consigo me afastar.
Não tem janelas, não posso ver o que há dentro.
Apenas uma pequena grade e nenhuma saída.
Espio pela grade.
Está escuro, escuro.
Enxame de mãos africanas
Mínimas, encolhidas para exportação,
Negro em negro, escalando com fúria.
Como deixá-las sair?
É o barulho que mais me apavora,
As sílabas ininteligíveis.
São como uma turba romana,
Pequenas, insignificantes como indivíduos,
mas meu deus, juntas!
Escuto esse latim furioso.
Não sou um César.
Simplesmente encomendei uma caixa de maníacos.
Podem ser devolvidos.
Podem morrer, não preciso alimentá-los, sou a dona.
Pergunto se têm fome.
Pergunto se me esqueceriam
Se eu abrisse as trancas e me afastasse e virasse árvore.
Há laburnos, colunatas louras, Anáguas de cerejas.
Poderiam imediatamente ignorar-me.
No meu vestido lunar e véu funerário
Não sou uma fonte de mel.
Por que então recorrer a mim?
Amanhã serei Deus, o generoso – vou libertá-los.
A caixa é apenas temporária.
(tradução de Ana Cândida Perez e Ana Cristina César )
-
40 GRAUS DE FEBRE
-
Pura? Que vem a ser isso?
As línguas do inferno
São baças, baças como as tríplices
Línguas do apático, gordo Cérbero
Que arqueja junto à entrada.
Incapaz
De lamber limpamente
O febril tendão, o pecado, o pecado.
Crepita a chama.
O indelével aroma
De espevitada vela!
Amor, amor, escassa a fumaça
Rola de mim como a echarpe de Isadora, e temo
Que uma das bandas venha a prender-se na roda.
A amarela e morosa fumaça
Faz o seu próprio elemento.
Não irá alto
Mas rolará em redor do globo
A asfixiar o idoso e o humilde,
O frágil
E delicado bebé no seu berço,
A lívida orquídea
Suspensa do seu jardim suspenso no ar,
Diabólico leopardo!
A radiação faz que ela embranqueça
E a extingue em uma hora.
Engordurar os corpos dos adúlteros
Tal qual as cinzas de Hiroshima e corroê-los.
O pecado. O pecado.
Querido, a noite inteira
Eu passei oscilando, morta, viva, morta, viva.
Os lençóis opressivos como beijos de um devasso.
Três dias. Três noites.
Água de limão, canja
Aguada, enjoa-me.
Sou por demais pura para ti ou para alguém.
Teu corpo
Magoa-me como o mundo magoa Deus.
Sou uma lanterna —
Minha cabeça uma lua
De papel japonês, minha pele de ouro laminado
Infinitamente delicada e infinitamente dispendiosa.
Não te assombra meu coração.
E minha luz.
Eu sou, toda eu, uma enorme camélia
Esbraseada e a ir e vir, em rubros jorros.
Creio que vou subir,
Creio que posso ir bem alto
—As contas de metal ardente voam, e eu, amor, eu
Sou uma virgem pura
De acetileno
Acompanhada de rosas,
De beijos, de querubins,
Do que venham a ser essas coisas rosadas.
Não tu, nem ele
Não ele, nem ele
(Eu toda a dissolver-me, anágua de puta velha)
—Ao Paraíso.
-
(tradução de Afonso Félix de Souza)

OUTONO DE RÃ
-
O verão envelhece, mãe impiedosa.
Os insectos vão escassos, esquálidos.
Em nossos lares palustres nós apenas
Coaxamos e definhamos.
As manhas se dissipam em sonolência.
O sol brilha pachorrento
Entre caniços ocos.
As moscas não chegam a nós.
O charco nos repugna.
A geada cobre até aranhas.
Obviamente
O deus da plenitude
Está morando longe daqui.
Nosso povo rareia
Lamentavelmente.
-
(tradução de Jorge Wanderley)

sábado, 25 de setembro de 2010

SYLVIA PLATH



http://www.sylviaplath.de/



PALAVRAS

.
Golpes

De machado na madeira,

E os ecos!

Ecos que partem

A galope.
A seiva Jorra como pranto, como

Água lutando

Para repor seu espelho

Sobre a rocha
Que cai e rola,

Crânio branco

Comido pelas ervas.

Anos depois, na estrada,

Encontro
Essas palavras secas e sem rédeas,

Bater de cascos incansável.

Enquanto do fundo do poço,

estrelas fixas

Decidem uma vida.

.(tradução de Ana Cristina César)
.
ARIEL

.
Estancamento no escuro

E então o fluir azul e insubstancial

De montanha e distância.
Leoa do Senhor como nos unimos

Eixo de calcanhares e joelhos!... O sulco
Afunda e passa, irmão

Do arco tenso

Do pescoço que não consigo dobrar.
Sementes

De olhos negros lançam escuros

Anzóis...
Negro, doce sangue na boca,

Sombra,

Um outro voo
Me arrasta pelo ar...

Coxas, pêlos;

Escamas e calcanhares.

Branca

Godiva, descasco

Mãos mortas, asperezas mortas.
E então

Ondulo como trigo, um brilho de mares.

O grito da criança
Escorre pela parede.

E eu

Sou a flecha,
O orvalho que voa,

Suicida, unido com o impulso

Dentro do olho
Vermelho, caldeirão da manhã.

.(tradução de Ana Cândida Perez e Ana Cristina César)

.

MY BLOG IS CARBON NEUTRAL


"O site alemão Mach's Grün (Make it green - Faça verde) criou um programa chamado "Meu blog é carbono neutro" e planta uma árvore na Califórnia para cada blog que divulgar o programa. Se quer ajudar o meio ambiente colabore. ".Para maiores informações, acesse o site:

sexta-feira, 24 de setembro de 2010

CRISTOVAM PAVIA (1933-1968)



Nome: Francisco António Lahmeyer Flores Bugalho
Pseudónimo: Cristovam Pavia
Nascimento: 7-10-1933, Lisboa
Morte: 13-10-1968, Lisboa



Cristovam Pavia, foi reeditado, motivo que me levou aos meus livros, para reler a sua poesia.



«A poesia de Cristovam Pavia é a de revelação de si próprio, duma personalidade em conflito com o mundo em que vive e que procura uma fuga pela recuperação da infância morta, pela aceitação do seu conhecer-se diferente e despojado do que lhe é mais caro (a infância, o amor, o espaço e o tempo em que ambos se situavam), a transformação do seu próprio ser pelo sofrimento, num movimento de ascese e de autodestruição, quando o poeta atinge a consciência de si próprio e da sua voz».
José BentoCírculo de Poesia, Moraes Editores, Lisboa, 1982





POEMA VESPERAL
.
Dizem que não tenho idade para estar cansado.
Digo que não tenho idade para estar cansado.
Mas eu estou irremediavelmente cansado…
Não sei se conheço ou não a vida
Toda gente diz que não, que é impossível…)
Contudo, estou cansado.
.
Representei
E cansei-me; e desatei a gritar tudo…toda a verdade.
.
Febrilmente gritei; rasguei máscaras, cuspi más caras…
Agora até disso estou cansado
E nem leio o meu Baudelaire…o Príncipe de todos.
.
Experimentei «tomar alegria»,
Ouvir danças bárbaras,
Ver danças bárbaras,
Grandes contorsões modernas,
Sabiam falso…
.
Mais tarde descobri morto aquele-menino-que-fui.
Chorei…tive saudades…ali, puro menino saudável…
_Cansei saudades e lágrimas também…

Estou muito cansado.
.
Só interessa ir para a cama
E dormir…
.
Dormir bem…
.
MELANCOLIA.
Quando eu estiver convalescente
Daquela doença tão sonhada,
E tão magoada e tão minha;
_virás na luz violeta da tarde…
E em silêncio,
Naquela hora indecisa,
Pousarás como uma brisa
Sobre meus olhos cerrados…

quinta-feira, 23 de setembro de 2010

RACISMO NA ORDEM DO DIA!...

VOLTANDO AO PLANETA DAS PEÚGAS RÔTAS DE MIA COUTO

EXCERTO

Nos dias de hoje, estamos assistindo a um dramático exemplo da fabricação de fantasmas: diariamente no Iraque matam-se civis inocentes em nome de Deus, em nome da luta contra um demónio que são os outros. José Saramago disse: "Matar em nome de Deus faz desse Deus um assassino."Vivemos ainda sentimentos de profunda intolerância religiosa, étnica e racial. É muito mais fácil a explicação mentirosa de que os culpados são os outros, os da outra raça, os da outra religião, do que aceitar que precisamos de mudar tanto como os outros.Ao longo da História, as operações de agressão aos outros começam por curiosamente por despessoalizar esses mesmos outros. Por assim dizer esses - os inimigos - não são pessoas humanas como nós. A primeira operação na guerra dos EUA contra o Vietname não foi de ordem militar. Foi de ordem psicológica e consistiu em desumanizar os vietnamitas. Eles já não eram humanos: eram amarelos, eram seres de outra natureza sobre os quais não haveria problema de ética em lançar bombas e napalm.O genocídio no Ruanda foi aqui perto e não muito distante no tempo. Comunidades que conviviam em harmonia foram manipuladas por elites criminosas ao ponto de se ter cometido o maior massacre da história contemporânea. Se antes de 1994 perguntássemos a um tutsi ou a um hutu se acreditava que aquilo poderia acontecer no seu país eles declarariam que isso era inimaginável. Mas sucedeu. E sucedeu porque a capacidade de produzir demónios é ainda muito grande nos nossos países. Quanto mais pobre é um país maior é a capacidade de se destruir a si mesmo.A partir de Abril de 1994 e durante 100 dias consecutivos mais de 800.000 tutsis foram assassinados pelos seus compatriotas Hutus. Machados e catanas foram usados para chacinar 10.000 pessoas por dia, o que dá uma média de 10 pessoas por minuto. Nunca na História humana se matou tanto em tão pouco tempo. Toda esta violência foi possível porque se tinha trabalhado para provar, uma vez mais, que os outros, não eram pessoas humanas. O tempo escolhido pela propaganda Hutu para falar dos Tutsis era de cockroaches, baratas. A matança estava assim isenta de qualquer objecção moral, estava-se matando insectos e não pessoas humanas, compatriotas falando a mesma língua e vivendo a mesma cultura.No vizinho Zimbabwe, o discurso da unidade que marcou o início de uma sociedade multirracial foi, subitamente alterado para uma agressão marcadamente racista. O Vice-Presidente do Zimbabwe, Jospeh Msica, num comício na cidade de Bulawayo disse textualmente: "Os brancos não são seres humanos". Ele apenas estava repetindo o que Robert Mugabe já havia proclamado. E eu cito as palavras de Mugabe: "O que odiamos nos brancos não é a sua pele mas o demónio que emana deles". Os dirigentes da ZANU tinham-se distinguido, poucos anos antes, como defensores de uma nação multi-racial. O que tinha mudado? Mudou o jogo de forças. A ambição pelo poder provoca mudanças surpreendentes nas pessoas e nos partidos.

quarta-feira, 22 de setembro de 2010

EROTISMO, PORNOGRAFIA… CULTURA E ARTE!...

Sou confrontada constantemente com definições, de uma coisa ou outra, sobre determinados assuntos, onde é dominante a moral das religiões, sendo mais acutilante deste lado, a católica. Parece que nasci com o pecado colado a mim, eu que até considero nem ter pecados! Tratando-se de matéria sexual isso é por demais evidente. O sexo é algo cheio de tabus, quando afinal o sexo é tão natural, como comer ou beber. O erotismo, é considerada coisa perigosa, mas ainda assim tolerada, ela entra todos os dias pela nossa casa através do spot publicitário e a pornografia, é considerada licenciosa, perversa e promíscua, mas mantém um mercado comercial, economicamente muito rentável, pela grande procura.
Ah sociedade hipócrita e cheia de moralismos ressabiados!..


Esta pintura de Courbet, aparecia, como capa de uma revista de arte e foi aprendida, não há muito tempo, numa cidade de província, pela polícia, considerada como pornográfica, quando apenas representa o corpo de uma mulher nua e com um título muito adequado. E que dizer então do objecto artístico de actividade sexual explícita, que a que chamam pornografia? A sexualidade explícita e sugestiva é uma forma de arte tão antiga quanto todas outras, em suportes diversos: frescos, pinturas, gravuras, desenhos, esculturas, fotos, filmes…
O retrato da nudez e da sexualidade humana tiveram início na era paleolítica (ex. as figuras de Vénus). Existem inúmeras pinturas eróticas nas paredes de Pompeia, na Itália. Na Alemanha arqueólogos encontraram, em 2005, uma figura pornográfica de cerca de 7200 anos, de um homem sobre uma mulher, sugerindo um acto sexual.
Não vejo diferenças entre erotismo e pornografia, na arte. Eu aprecio da mesma maneira uma imagem onde é sugerido um acto sexual e aquela que efectivamente o mostra. Eu penso mesmo que a pornografia está nos olhos de quem vê, segundo a sua própria mentalidade.




Recentemente chegou-me às mãos o livro de Pietro Aretino (1492-1556), os Sonetos Luxuriosos, obra realmente audaz na linguagem que usa, alguns dos seus sonetos, podem ser lidos em:

No entanto Aretino, foi protegido e respeitado pelos nobres, que temiam a sua grande influência pessoal e a mordacidade dos seus escritos. Era admirado por personalidades, como o Papa Leão X, o que lhe garantia uma vida de rei, como ele mesmo gostava de dizer: "Figlio di cortigiana con anima di re"
Viveu num estado de liberdade jamais conferido a outro homem da sua época. De forma ousada e pouco convencional para os padrões literários desse período, atacou nobres e clérigos, de tal maneira, que ficou conhecido na história pela alcunha, "Flagelo dos Príncipes".
A ilação é sempre a mesma, a sociedade é de uma grande hipocrisia!
Aretino, levou-me a Agostino Carracci (ou Caracci) (Bolonha, 1557 — Parma, 1602), pintor e gravador italiano, da famosa família dos Carracci, que também fez gravuras pornográficas para o livro de Aretino, como se pode ver neste vídeo:
AQUI

segunda-feira, 20 de setembro de 2010

MEDITAÇÃO SOBRE OS PODERES


Rubricavam os decretos,
as folhas tristes sobre a mesa
dos seus poderes efémeros.
Queriam ser reis, czares, tantas coisas,
e rodeavam-se de pequenos corvos,
palradores e reverentes,
dos que repetem:
és grande, ninguém te iguala, ninguém.
Repartiam entre si os tesouros e as dádivas,
murmurando forjadas confidências,
não amando ninguém, nada respeitando.
Encantavam-se com o eco liquefeito
das suas vozes comandando, decretando.
Banqueteavam-se com a pequenez de tudo
quanto julgavam ser grande,
com os quadros, com o fulgor novo-rico
das vénias e dos protocolos.
Vinha a morte e mostrava-lhes
como tudo é fugaz quando,
humanamente, se está de passagem,
corpo em trânsito para lado nenhum.
Acabaram sempre a chorar
sobre a miséria dos seus títulos
afundados na terra lamacenta.
José Jorge Letria, in "Quem com Ferro Ama"

domingo, 19 de setembro de 2010

MOZART...MOZART...MOZART...

UMA NOITE QUENTE DE VERÃO COM MOZART…
Concerto nº.21, Concerto nº. 24
Sinfonia n.º40
Orquestra Sinfónica do Porto Casa da Música e o pianista António Rosado

Teatro Constantino Nery - Matosinhos

1º ANDAMENTO (ANDANTE) DO CONCERTO PARA PIANO Nº. 21


sábado, 18 de setembro de 2010

EXCERTO DO PLANETA DAS PEÚGAS RÔTAS DE MIA COUTO



Em 1998, cerca de 100 pessoas morreram no Monte Tumbine, na Zambéziana, por causa de um abatimento de terras. As terras desabaram porque se retirou a cobertura florestal das encostas e as chuvas arrastaram os solos. Foram feitos relatórios com recomendações muito claras. Os relatórios desapareceram. A floresta voltou a ser cortada e as pessoas voltaram a povoar as regiões perigosas. O que resta de Tumbine são as vozes que têm uma outra explicação. Essas vozes insistem na seguinte versão: há um dragão que mora no Monte de Tumbine em Milange e que desperta de 5 em 5 anos para ir deitar os ovos no alto mar. Para não ser visto, o dragão cria o caos e a escuridão enquanto atravessa os céus desapercebido.Existe uma poderosa força poética nesta interpretação dos fenómenos geológicos. Mas a poesia e as cerimónias dos espíritos não bastam para assegurar que uma nova tragédia não se venha a repetir.A minha pergunta é: estamos nós aqui assim tão longe dessas crenças? O facto de vivermos em cidades, com arranha-céus, no meio de computadores e da internet de banda larga, será que tudo isso nos isenta de termos um pé na explicação mágica do mundo? Basta olhar para os nossos jornais para termos a resposta. Junto da tabela da taxa de câmbio encontra-se o anúncio do chamado médico tradicional, esse generoso personagem que se propõe resolver problemas básicos da nossa vida. Se percorrerem a lista dos serviços oferecidos por esses médicos tradicionais verificarão que figuram os seguintes produtos: (vou citar os feitos propagados, saltando os milagres conseguidos na saúde) faz subir na Vida; ajuda a promoção no emprego; faz passar no exame; ajuda a recuperar o esposo ou esposa. Parodiando a linguagem moderna dos relatórios, eu referi, um por um, os outputs do job description do nosso glorioso médico tradicional. Numa palavra, o atirador de sortes faz surgir por magia tudo aquilo que só pode resultar do esforço, do trabalho e do suor. De novo, interroguemos as palavras que nós próprios criamos e usamos. Na realidade, "médicos tradicionais" é um nome duplamente falso. Primeiro, eles não são médicos. A medicina é um domínio muito particular do conhecimento científico. Não há médicos tradicionais como não há engenheiros tradicionais nem pilotos de avião tradicionais. Não se trata aqui de negar as sabedorias locais, nem de desvalorizar a importância das lógicas rurais. Mas os anunciantes não são médicos e também não são tão "tradicionais" assim. As práticas de feitiçaria são profundamente modernas, estão nascendo e sendo refeitas na actualidade dos nossos centros urbanos.(Um bom exemplo dessa habilidade de incorporação do moderno é o de anúncio que eu recortei da nossa imprensa em que um destes curandeiros anunciava textualmente: curamos asma, diabetes e borbulhas; tratamos doenças sexuais e dores de cabeça; afastamos má sorte e... tiramos fotocópias.) Durante muito tempo, era interdito aos verdadeiros médicos fazerem publicidade nos órgãos de informação. E, no entanto, esses outros chamados de tradicionais tinham permissão de se anunciarem.Porquê esta complacência? Porque, no fundo, nós estamos disponíveis para acreditar. Nós pertencemos a esse universo, mesmo que, em simultâneo, já pertençamos a outros imaginários. Não são apenas os pobres, os menos educados que partilham esses dois mundos. São quadros de formação superior, são dirigentes políticos que procuram a bênção para serem promovidos e para terem sucesso nas suas carreiras.

quarta-feira, 15 de setembro de 2010

SONHOS (REFLEXÕES)


Sonhos Prometedores

Tenho mais pena dos que sonham o provável, o legítimo e o próximo, do que dos que devaneiam sobre o longínquo e o estranho. Os que sonham grandemente, ou são doidos e acreditam no que sonham e são felizes, ou são devaneadores simples, para quem o devaneio é uma música da alma, que os embala sem lhes dizer nada. Mas o que sonha o possível tem a possibilidade real da verdadeira desilusão. Não me pode pesar muito o ter deixado de ser imperador romano, mas pode doer-me o nunca ter sequer falado à costureira que, cerca das nove horas, volta sempre a esquina da direita. O sonho que nos promete o impossível já nisso nos priva dele, mas o sonho que nos promete o possível intromete-se com a própria vida e delega nela a sua solução. Um vive exclusivo e independente; o outro submisso das contingências do que acontece.
Fernando Pessoa/ Bernardo Soares, in 'O Livro do Desassossego'

Sonhos sem Ilusões

Saber não ter ilusões é absolutamente necessário para se poder ter sonhos. Atingirás assim o ponto supremo da abstenção sonhadora, onde os sentimentos se mesclam, os sentimentos se extravasam, as ideias se interpenetram. Assim como as cores e os sons sabem uns a outros, os ódios sabem a amores, e as coisas concretas a abstractas, e as abstractas a concretas. Quebram-se os laços que, ao mesmo tempo que ligavam tudo, separavam tudo, isolando cada elemento. Tudo se funde e confunde.
Fernando Pessoa/ Bernardo Soares, in 'O Livro do Desassossego'



RACHMANINOV - CONCERTO DE PIANO Nº.2 - I. Moderato (part1)



CONTINUAÇÃO:

http://www.youtube.com/watch?v=42aMCKX0k9Y&feature=related

http://www.youtube.com/watch?v=jWRb90BRB5w&feature=related

http://www.youtube.com/watch?v=EWF10gP9LQQ&feature=related

http://www.youtube.com/watch?v=r_6niD3DvW0&feature=related

http://www.youtube.com/watch?v=3rIflzamYLo&feature=related

segunda-feira, 13 de setembro de 2010

Alexander von Zemlinsky - Die Seejungfrau

CASA DA MÚSICA
ORQUESTRA SINFÓNICA DO PORTO
DIRECÇÃO PETER RUNDEL


Integralmente pela primeira vez no país, A PEQUENA SEREIA (DIE SEEJUNGFRAU), (segundo conto de H.C. Andersen) do compositor ALEXANDER VON ZEMLINSKY
Sonoridades aquáticas, deslizantes e misteriosas, dão início a uma das mais comoventes partituras de Zemlinski que retrata a história da pequena sereia que sacrificou a sua própria vida em nome do amor, transformando-se em espuma do mar. Poema sinfónico complementado com sugestões visuais.



CONTINUAÇÃO:
http://www.youtube.com/watch?v=O0snAu0HWLo&feature=related
http://www.youtube.com/watch?v=-K-34IvkpoI&feature=related
http://www.youtube.com/watch?v=jZze_2uawNk&feature=related
http://www.youtube.com/watch?v=jZze_2uawNk&feature=related
http://www.youtube.com/watch?v=tpjNMn7cTgc&feature=related






Alexander von Zemlinsky (Viena, 1871 — Larchmont, 1942) foi compositor, maestro e professor.
O trabalho mais conhecido de Zemlinsky é a Sinfonia Lírica (1923), uma peça em sete movimentos para orquestra, soprano e barítono. Outros trabalhos orquestrais incluem o poema sinfônico, Die Seejungfrau, que estreou em 1905.
Biografia:
AQUI

quinta-feira, 9 de setembro de 2010

DIA 152 - POEMA DE JOAQUIM PESSOA


Dia 152
Obrigado, excelências.
Obrigado por nos destruírem o sonho
e a oportunidadede vivermos felizes e em paz.
Obrigado pelo exemplo que se esforçam em nos dar
de como é possível viver sem vergonha,
sem respeito e semdignidade.
Obrigado por nos roubarem.
Por não nos perguntarem nada.
Por não nos darem explicações.
Obrigado por se orgulharem de nos tirar
as coisas por que lutámos e às quais temos direito.
Obrigado por nos tirarem até o sono.
E a tranquilidade.
E a alegria.
Obrigado pelo cinzentismo, pela depressão, pelo desespero.
Obrigado pela vossa mediocridade.
E obrigado por aquilo que podem e não querem fazer.
Obrigado por tudo o que não sabem e fingem saber.
Obrigado por transformarem o nosso coração numa sala de espera.
Obrigado por fazerem de cada um dos nossos dias
um dia menos interessante que o anterior.
Obrigado por nos exigirem mais do que podemos dar.
Obrigado por nos darem em troca quase nada.
Obrigado por não disfarçarem a cobiça, a corrupção, a indignidade.
Pelo chocante imerecimento da vossa comodidade
e da vossa felicidade adquirida a qualquer preço.
E pelo vosso vergonhoso descaramento.
Obrigado por nos ensinarem tudo o que nunca deveremos querer,
o que nunca deveremos fazer, o que nunca deveremos aceitar.
Obrigado por serem o que são.
Obrigado por serem como são.
Para que não sejamos também assim.
E para que possamos reconhecer facilmente
quem temos de rejeitar.
Joaquim Pessoa (Do livro a publicar, ANO COMUM)

quarta-feira, 8 de setembro de 2010

GUILHERMINA SUGGIA (Porto,1885 — Porto,1950)

Em 1923 o pintor galês Augustus John, pintou Guilhermina Suggia, tocando o seu instrumento de eleição, num fantástico vestido vermelho.

Guilhermina Suggia era uma mulher muito culta, uma mulher de muitas experiências, uma conquistadora nata, tinha uma lógica própria e relacionava-se com o mundo a partir dessa lógica. Falar do seu temperamento implica falar de música, porque a vida de Suggia é acompanhada sempre de música e do violoncelo. Apesar do seu talento para o violoncelo, estudava muitíssimo, motivada por um ideal de perfeição estilística e musical.

Para Suggia, o violoncelo era o mais extraordinário de todos os instrumentos, considerando-o o único que tem a possibilidade de suster um baixo por um longo período e a possibilidade de cantar uma melodia praticamente em qualquer registo. Porém, para que se revele a substância musical do violoncelo, é preciso que a técnica não seja estudada apenas como destreza, mas que tenda sempre para a música. "A técnica é necessária como veículo de expressão e quanto mais perfeita a técnica, mais livre fica a mente para interpretar as ideias que animaram o compositor".


Guilhermina Suggia, "The Violoncello" in Music and Letters, nº 2, vol. I, Londres, Abril de 1920, 106].

Guilhermina revolucionou o instrumento em técnica, posição e sonoridade. Abriu as portas profissionais do violoncelo às mulheres, até então quase fechadas. De facto, o considerável gasto de energia exigido para manejar a envergadura do violoncelo, acrescido do facto de as boas maneiras da época obrigarem a colocar o instrumento de um ou outro lado do corpo obrigando a uma significativa contorção do dorso, tornavam o instrumento ainda mais inacessível às executantes femininas. ( Note-se que ainda em 1930 o violoncelo era tido como um instrumento indecoroso para as mulheres, sendo então proibida a contratação de violoncelistas mulheres pela própria orquestra da BBC).
Suggia tocou todos os importantes concertos da época para violoncelo e orquestra – os concertos de Haydn, Elgar, Saint-Saëns, Schumann, Eugen d'Albert, Dvořák.


BIOGRAFIA AQUI

terça-feira, 7 de setembro de 2010

RUY DUARTE DE CARVALHO (1941-2010)


Ruy Duarte de Carvalho (Santarém, Portugal, 1941 – Swakopmund, Namíbia, 12 de Agosto de 2010), foi um escritor, cineasta, escultor e antropólogo angolano.
O poeta que presentemente estou a ler.
BIOGRAFIA: AQUI
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Chagas de salitre
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Olha-me este país a esboroar-se
em chagas de salitre
e os muros, negros, dos fortes
roídos pelo vegetar
da urina e do suor
a carne virgem mandada
cavar glórias e grandeza
do outro lado do mar.

Olha-me a história de um país perdido:
marés vazantes de gente amordaçada,
a ingénua tolerância aproveitada
em carne. Pergunta ao mar,
que é manso e afaga ainda
a mesma velha costa erosionada.

Olha-me as brutas construções quadradas:
embarcadouros, depósitos de gente.
Olha-me os rios renovados de cadáveres,
os rios turvos de espesso deslizar
dos braços e das mãos do meu país.

Olha-me as igrejas restauradas
sobre ruínas de propalada fé:
paredes brancas de um urgente brio
escondendo ferros de educar gentio.

Olha-me a noite herdada, nestes olhos
de um povo condenado a amassar-te o pão.
Olha-me amor, atenta podes ver
uma história de pedra a construir-se
sobre uma história morta a esboroar-se
em chagas de salitre.

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A gravação do rosto
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Na superfície branca do deserto
na atmosfera ocre das distâncias
no verde breve da chuva de Novembro
deixei gravado meu rosto
minha mão
minha vontade e meu esperma;
prendi aos montes os gestos da entrega
cumpri as trajectórias do encontro
gravei nas águas a fúria da conquista
da devolução do amor.

Os calcários e os granitos desta terra
foram por mim pesados.
Dei-lhes afagos
leves olhares
insónias longas
impacientes esperas.

O zinco dos telhados cobriu-me solidões
e esperanças que tu sabes.

Esperei por ti
Bordei-te flores nos canteiros do céu
abri-te valas, semeei-te milhos
pari colheitas de searas vãs
abri os dedos, semeei calhaus.

Espremi a terra e fiz-lhe água nascente
povoei prados de criaturas doces
ergui torres, girassóis gigantes
dei vida e morte, vi nascer, morrer.

Aqui reinei, julguei, plantei videiras
caminhos, grutas de vestígios
colhi olhares de animais bravios
deixei aos dedos aladas liberdades.

Empilhei madrugadas de atenção
disparei molas, carabinas frias
de traição ao vento.
Combati silêncios, instalei trincheiras
de perdão. Recebi recados de mongólias vastas
acendi fogueiras
para sufocar o medo.

Aqui sonhei Europas, verdes Ásias
cidades de cristais, Antárctidas caiadas
daqui refiz a lua de astronautas;
contei estrelas colhi algumas
para dormir com elas.

Aqui ejaculei delírios verdes
que a madrugada insinua e vence.
Aqui colhi primícias de virgens escandinavas
e coroei outeiros e o meu sexo
com as suas tranças de ouro.

Saltei de monte em monte
e naveguei o ventre do deserto
assinalei o umbigo do mundo e plantei setas
apontando o sexo fundo da terra.
Beijei a carne universal e húmida de uma fêmea em cio,
menstruada.

Aqui me dei, aqui me fiz
desfiz, refiz amores.
Aqui me embebedei e vomitei o espanto.

Daqui abalo hoje, parido para o nada
apalpo a água
afago um bicho
ordeno qualquer coisa
e vou.

quarta-feira, 1 de setembro de 2010

FRAGMENTOS DE UM DISCURSO AMOROSO - (1977) de Roland Barthes



Este ensaio causou muita polémica e levanta várias questões sobre o amor, escrito numa época em que a sexualidade ou até mesmo a pornografia ditavam a lei, muito de acordo com o presente, apesar de terem passado 33 anos.
Barthes, foi ao século XIX, onde a paixão era algo importante na psicologia e referiu o Werther de Goethe. O romance que desencadeou uma famosa vaga de suicídios. Hoje este tipo de amor está fora de moda, nos meios intelectuais é pouco abordado, a não ser com algum gracejo e troça, depreciando o sujeito apaixonado, que é considerado um lunático e um louco. A nível mais popular, fala-se de amor à boca-cheia, aparece em todas as canções e novelas, há uma certa apetência para isso, mas no fundo é sempre assim algo exagerado e piegas.
O amor-paixão é considerado como uma doença, que há que curar, não é mais um enriquecimento, como acontecia no século XIX, em que se notava bem as poses de um apaixonado. Hoje já não são reconhecíveis, podemos encontrar-nos com alguns na rua, mas nada têm de característico. O objecto amado, é uma pessoa, que o apaixonado despersonaliza, uma imagem criada de uma forma muito pessoal, um objecto único. A atracção súbita, o «enlevo», é provocada por uma imagem, uma imagem viva, uma imagem em acção.
A paixão, para muitas pessoas actualmente, equivale ao «grande amor», que dura toda a vida. O apaixonado de Barthes concordaria com o «grande amor», mas para ele «toda a vida» não tem sentido, porque ele encontra-se num absoluto do tempo. Este apaixonado está sempre a caminho de um sofrimento ao qual nunca escapa. O sofrimento é uma espécie de valor, algo que é puro e isento de qualquer falta. O desgosto de amor está implícito. O bom senso diz que há um momento em que se tem que largar o «estar apaixonado» e «amar». Põe-se de parte os logros, ilusões, dominações, cenas, dificuldades…Para aceder a um sentimento mais pacificado, mais dialéctico, menos ciumento, menos possessivo. O sofrimento do apaixonado implicitamente está ligado ao «grande ciúme». Presentemente o ciúme pode existir, mas não é tão acentuado, podemos até ficar surpreendidos, com uma espécie de partilha entre vários ou de cada um tem a sua vida.
Barthes considera que é possível amar várias pessoas ao mesmo tempo, considera que é até algo «delicioso», estar mergulhado num clima de amores múltiplos, de flirt generalizado, mas essa situação não pode durar muito, em determinada altura há uma cristalização, quando o apaixonado mergulha na paixão. Acabam os devaneios, o apaixonado foi agarrado por uma força tirânica, só que ele também é uma força tirânica para o alvo da sua paixão. Não é agradável amar e ser amado desta forma. O apaixonado quer combater isto e não consegue, tem consciência que é uma humilhação e ao mesmo tempo pode sofrer por submeter a outra pessoa. Na realidade está demasiado «agarrado» pela sublimação.
Um apaixonado pode ser considerado um «pateta», porque vive numa des-realidade, a realidade para ele é uma ilusão. Tudo que diverte os outros, as suas conversas, as suas indignações, não lhe dizem nada. O seu real é a sua relação com o objecto amado e fica alienado de tudo o mais ou não lhe dá grande importância. Facilmente nesta inversão sente-se um inadaptado social, pode ter reacções estranhas e as outras pessoas consideram-no um idiota. «O amor é cego», de uma certa maneira sim, o apaixonado conjuga aspectos de neurose e de psicose: é um atormentado e um louco. Fica cego!
Roland Barthes numa entrevista, foi inquirido sobre a sua experiência. Para escrever este ensaio, baseou-se em casos da sua vida, em experiências de outras pessoas, em livros, mas depois confessou que teve também uma cristalização e que escreveu o livro para não se perder, não cair no desespero, porque a escrita tem o maravilhoso poder da pacificação. Desculpou-se de certo modo dizendo que não era uma unidade em si e a moral que quis passar era de afirmação: Não nos devemos deixar impressionar pelas depreciações de que o sentimento amoroso é objecto. É preciso afirmar. É preciso ousar. Ousar amar…
Barthes acabou por dizer que mesmo em épocas de paixão mais moderada, ninguém está imune de ser agarrado, mas o melhor é mesmo «amar».