O importante não é aquilo que fazem de nós, mas o que nós mesmos fazemos do que os outros fizeram de nós.
JEAN-PAUL SARTRE

segunda-feira, 30 de agosto de 2010

POEMAS DE FERNANDO NAMORA


Profecia
.Nem me disseram ainda para o que vim.
Se logro ou verdade,
se filho amado ou rejeitado.
Mas sei que quando cheguei
os meus olhos viram tudo
e tontos de gula ou espanto
renegaram tudo — e no meu sangue
veias se abriram noutro sangue...
A ele obedeço, sempre, a esse incitamento mudo.
Também sei que hei-de perecer, exangue,
de excesso de desejar;
mas sinto, sempre, que não posso recuar.
Hei-de ir contigo bebendo fel, sorvendo pragas,
ultrajado e temido, abandonado aos corvos,
com o pus dos bolores e o fogo das lavas.
Hei-de assustar os rebanhos dos montes
ser bandoleiro de estradas.
— Negro fado, feia sina,
mas não sei trocar a minha sorte!
Não venham dizer-me com frases adocicadas
(não venham que os não oiço)
que levo caminho errado,
que tenho os caminhos cerrados à minha febre!
Hei-de gritar, cair, sofrer — eu sei.
Mas não quero ter outra lei,
outro fado, outro viver.
Não importa lá chegar...
O que eu quero é ir em frente sem loas,
ópios ou afagos dos lábios que mentem.
É esta, não é outra, a minha crença.
Raios vos partam, vós que duvidais,
raios vos partam, cegos de nascença!
.
Coisas, Pequenas Coisas
.Fazer das coisas fracas um poema.
Uma árvore está quieta, murcha, desprezada.
Mas se o poeta a levanta pelos cabelos
e lhe sopra os dedos,
ela volta a empertigar-se, renovada.
E tu, que não sabias o segredo,
perdes a vaidade.
Fora de ti há o mundo e nele há tudo
que em ti não cabe.
Homem, até o barro tem poesia!
Olha as coisas com humildade.
.Ó Noite, Coalhada nas Formas de um Corpo de Mulher
.Ó noite, coalhada nas formas de um corpo de mulher
vago e belo e voluptuoso, num bailado erótico,
com o cenário dos astros, mudos e quedos.
Estrelas que as suas mãos afagam e a boca repele,
deixai que os caminhos da noite,
cegos e rectos como o destino,
suspensos como uma nuvem,
sejam os caminhos dos poetas
que lhes decoraram o nome.
Ó noite, coalhada nas formas de um corpo de mulher!
Esconde a vida no seio de uma estrela e fá-la pairar,
assim mágica e irreal,
para que a olhemos como uma lua sonâmbula.

sábado, 28 de agosto de 2010

SIMONE DE BEAUVOIR - «SEGUNDO SEXO»

Simone Lucie-Ernestine-Marie Bertrand de Beauvoir, mais conhecida como Simone de Beauvoir (1908 — 1986), foi escritora, filósofa existencialista e feminista.
Era a mais velha de duas filhas de Georges de Beauvoir, um advogado, e Françoise Brasseur. Simone mais tarde optou por se livrar das suas origens burguesas. Foi professora de filosofia até 1943 em escolas de diferentes localidades francesas. Morreu de pneumonia em Paris, aos 78 anos
As suas obras oferecem uma visão reveladora da sua vida e do seu tempo.
No seu primeiro romance, A Convidada (1943), explorou os dilemas existencialistas da liberdade, da acção e da responsabilidade individual, temas que abordou igualmente em romances posteriores como, O Sangue dos Outros (1944) e Os Mandarins (1954), obra considerada a sua obra-prima e pela qual recebeu o Prêmio Goncourt.
As teses existencialistas, segundo as quais cada pessoa é responsável por si própria, introduzem-se também numa série de obras autobiográficas, além de Memórias de uma moça bem-comportada, A Força das Coisas e Tudo Dito e Feito. Entre os seus ensaios críticos cabe destacar, O Segundo Sexo, uma profunda análise sobre o papel das mulheres na sociedade; A velhice, sobre o processo de envelhecimento, onde teceu críticas apaixonadas sobre a atitude da sociedade para com os velhos e A cerimonia do Adeus (1981), onde evocou a figura do seu companheiro de tantos anos, Sartre.
CONSULTA:
AQUI


Simone, conheceu Sartre, quando foi com Maheu e Nizan ao seu quarto, para estudar Leibniz. Logo no primeiro encontro percebeu que Sartre era o que mais sabia do grupo. Sartre tinha 23 anos, Simone, 21. Depois desse primeiro contacto, seguiu-se um período de alegre camaradagem entre Simone e os três rapazes, que a consideravam como uma igual. Simone apesar de ser de uma família burguesa e com formação católica, era uma rapariga desinibida. Em pouco tempo, a amizade de Sartre prevaleceu sobre a dos outros dois. Formaram um casal, cujo entendimento funcionou, Sartre não privava Simone da sua liberdade e Simone era uma mulher antiburguesa que não queria casamento, filhos, nem bens patrimoniais comuns.
Nunca moraram na mesma casa, respeitando os limites da autonomia de cada um. Viviam uma parte de férias juntos e as restantes, cada um as gozava como queria. Uma união em que o pensamento e a escrita sempre estiveram em primeiro lugar, seguidos do companheirismo, do prazer da conversa, da paixão pela política. Simone sentia-se dominada intelectualmente por Sartre, mas simultaneamente ele era um estímulo para o seu trabalho intelectual. Sartre e Simone viveram desta maneira mais de 50 anos. Partilhavam toda a sua vivência intelectual, eram os primeiros a ler os livros um do outro. A lista de casos amorosos de Sartre é longa, Simone tinha conhecimento, estava dentro da proposta de liberdade sexual de ambos, mas segundo disse Sartre, Simone foi sempre a mulher que amou, as outras eram experiências, o mundo singular que precisava de conhecer.
Beauvoir, teve uma forte relação com o escritor norte-americano Nelson Algren logo após a guerra, e na década de 1950 manteve outra relação de oito anos com Claude Lanzmann, autor de Shoah, e antigo aluno de Sartre. No Verão, era comum Beauvoir e Lanzmann viajarem com Sartre e a sua amante Michelle Vian, ex-esposa do escritor Boris Vian.
Depois postumamente soube-se da vida pessoal de Simone, com mais detalhe e para muitos as suas contradições vão contra as suas ideias relativamente à mulher e principalmente ao seu livro O SEGUNDO SEXO,
que despertou milhões de mulheres e as lançou na liberdade e na revolta. Contrariamente ao que dizia no livro, a sua ligação com Nelson Algren foi de grande submissão e dependência.

E isso não era tudo. Simone, era lésbica. Dava aulas de filosofia e tinha um grande interesse pelas suas alunas inteligentes e bonitas, que seduzia, usava-as e passava-as a Sarte. A sua vida amorosa era um trio, ela, Sartre o «amor necessário» e os «amores contigentes»Isto é incomodo para Simone de Beauvoir que sempre tinha negado ser homossexual ou bissexual. Essa omissão, essa negação, é lamentável, sobretudo partindo de uma pessoa que sempre se jactou de nunca mentir, de estar acima da mentira. Isso causou perplexidade. Sobretudo nas mulheres e principalmente para as feministas.No seu livro O SEGUNDO SEXO, ela considera que as lésbicas seguem caminhos condenados, embora rectifique falsas certezas da psicanálise sobre o lesbianismo. Simone não estava preparada para se reconhecer como lésbica, no seu livro a sua concepção da emancipação feminina é a sua fraternidade com o homem, consolidada pela independência económica.

Mesmo durante os anos do MLF (Mouvement de Libération des Femmes — Movimento de Libertação das Mulheres), em que as lésbicas enfim, tiveram voz pública, Simone de Beauvoir jamais disse uma palavra de apoio, preferindo o combate a favor do aborto. Este silêncio sobre a homossexualidade tem uma razão, e pode explicar-se pelas suas ideias filosóficas. O materialismo existencial, que fundamenta a sua análise da opressão das mulheres, bloqueia o amor lésbico como uma dinâmica emancipadora. Pois se a mulher é o Outro, se a feminilidade é socialmente construída, se o amor é uma alienação livremente consentida, como é que uma mulher poderia construir a sua identidade de sujeito livre através de um amor por outra mulher? É impossível, e compreende-se porque tal visão da mulher “relativa” não pode desembocar numa análise da homofobia. Seria preciso que “a essência” não sucedesse à existência, que ela fosse ao menos co-originária para que o desejo homossexual fosse incluído como uma das dimensões da identidade humana.
A frase que inicia o capítulo de O Segundo Sexo sobre o lesbianismo é reveladora desta posição de identidade insustentável que teve Beauvoir do pós-guerra até à sua morte em 1986. “... a mulher sempre será frustrada como indivíduo activo”. “Não é o órgão da possessão que ela inveja no homem, mas a sua presa”. Eis as palavras extremamente reveladoras de sua relação com a mulher desejada e o mundo masculino. A mulher é uma “presa” sexual, um objecto de consumo, de devoração.
Pode-se imaginar em que contradições, Simone de Beauvoir, se debatia. Uma avidez existencial sem precedentes que incluía a volúpia feminina, uma paixão absurda por Sartre que lhe impôs amantes que ela “dividia” com ele. Enfim, um desgosto pela feminilidade concebida como puro produto da dominação não lhe ajudou em nada a abandonar o silêncio de sua práxis lésbica.
O Segundo Sexo, publicado em 1949 provocou escândalo, era uma análise política sem precedentes da questão feminina. Beauvoir demonstrava que a inferioridade feminina não é natural e sim construída socialmente. Muitos homens revoltavam-se contra o livro, enquanto as mulheres o liam. Até à sua morte, milhares de mulheres escreveram a Beauvoir, algumas para dizer que o seu livro as tinha salvo. A americana Betty Friedan dedicou-lhe, em 1963, A Mulher Mistificada, segunda obra fundadora do feminismo.Durante toda a vida, tal como Sartre, Beauvoir serviu-se de sua notoriedade para defender os intelectuais e os “oprimidos”, especialmente as mulheres. Nos últimos quinze anos da sua vida, encontrou nas mulheres do “movimento”, um radicalismo e uma exigência de clareza à sua medida e ela colaborava nesse movimento entusiasmada, “porque elas não eram feministas para tomar o lugar dos homens, mas sim para mudar o mundo”. Ela criou a associação, Escolher para o Direito a uma Maternidade Desejada, em conjunto com a advogada Gisèle Halimi, o Centro Audiovisual Simone-de-Beauvoir, com a atriz Delphine Seyrig e Carole Roussopoulos e a
Liga do Direito das Mulheres.

Relativamente ao seu legado, numa entrevista, Anne Zelensky-Tristan, co-fundadora, em 1974, da Liga do Direito das Mulheres, presidida por Simone de Beauvoir, disse:“A ideia da Liga do Direito das Mulheres partiu dela, que estava irritada com a inércia da Liga dos Direitos Humanos nesse tópico. A associação foi fundada por várias mulheres e presidida por Beauvoir. Ela sempre esteve muito presente. Em 1971, estava à frente do Manifesto das 343, assinado por mulheres conhecidas que declaravam ter-se submetido a um aborto. O escândalo foi imenso. Em 1972, participou das duas Jornadas de denúncias dos crimes contra as mulheres. Simone de Beauvoir foi, para mim, um modelo vivo e um modelo de vida. Já muito jovem, eu quis viver como ela, assumir minha liberdade. Sempre admirei a tentativa dela e Sartre de reinventar o casal, tentativa esta que continua à frente do que se faz hoje. O Segundo Sexo, continua sendo uma bomba para o sistema patriarcal! Apesar dos guardiães do templo, sua herança é imensa.”http://www.simonebeauvoir.kit.net/artigos_p09.htm

No seu centenário (1908-2008), em França foi feita uma homenagem a Simone de Beauvoir. Fadela Amara, secretária de Estado do governo Sarkozy, encabeçou as suas felicitações com a seguinte frase: "Ser livre é querer a liberdade dos outros", citação de Simone de Beauvoir. O facto de uma ministra de um Executivo que tem entre seus objectivos "acabar com o pensamento de Maio de 68" citar Beauvoir, fundadora do feminismo moderno, maoísta ocasional, que se autodefinia como "totalmente de esquerda" e desejosa da queda do capitalismo, combinou mal com o lema sarkozista de
"trabalhar mais para ganhar mais".
Hoje, através de biografias, depoimentos e análises, o que Sartre e Beauvoir simbolizaram é criticado por alguns. Não foram tão "resistentes" como diziam, não foram tão "livres" como pareciam, não tiveram tanta razão como se acreditava. E o marxismo já não é o sistema filosófico, e sim mais um entre eles, como esse existencialismo do qual eles foram os profetas.
Mas cerca de 1,2 milhão de exemplares foram vendidos desde 1949 (só em francês) de O Segundo Sexo, livro de referência do feminismo e consequente influência do mesmo na evolução da mentalidade contemporânea. Assim como é preciso considerar todas as outras obras que escreveu. Tudo contribuiu para fazer de Simone de Beauvoir num mito, embora alguns aproveitem só para descobrir que seus pés eram de barro. Com efeito, de barro humano. Sartre e Simone de Beauvoir são figuras mundiais respeitadas, curiosamente mais nos EUA do que em França.
http://noticias.uol.com.br/midiaglobal/elpais/2008/01/12/ult581u2409.jhtm
[C&H]

quinta-feira, 26 de agosto de 2010



PANFLETO.Fere-me esta idolatria mais do que todos os crimes:
Tanto fervor desviado e perdido!
Tanta gente ajoelhando à passagem do tempo
e tão poucos lutando para lhe abrir caminho!
Há uma vida inteira a jogar e gastar
no pano verde imenso das campinas do mundo.
Há desertos cativos de uma ausência dos povos.
Há uma guerra devastando a vida,
enquanto a supuserem redimida!
E em nós a redenção quase perdida!..
Vamos rasgar, ó poetas, esta mentira da alma,
vamos gritar aos homens que os enganam,
que não é a força, que não é a glória,
que não é o sol nem a lua nem as estrelas,
nem os lares nem os filhos, nem os mares floridos,
nem o prazer nem a dor nem a amizade,
nem o indivíduo só compreendendo as causas,
nem os livros nem os poemas, nem as audácias heróicas,
— a redenção sou eu, se formos nós sem forma,
sem liberdade ou corpo, sem programas ou escolas!
Aqui está a redenção. Tomai-a toda
E se é verdade a fome
se é verdade o abismo,
se é verdade o pensamento húmido
que pestaneja ansioso nos cortejos públicos,
se são verdade as redenções que mentem:
Matem essa gente para salvar a Vida!
E matem-me com elas para que as queime ainda!


.
INDEPENDÊNCIA

.
Recuso-me a aceitar o que me derem.
Recuso-me às verdades acabadas;
recuso-me, também, às que tiverem
pousadas no sem-fim as sete espadas.
.
Recuso-me às espadas que não ferem
e às que ferem por não serem dadas.
Recuso-me aos eus-próprios que vierem
e às almas que já foram conquistadas.
.
Recuso-me a estar lúcido ou comprado
e a estar sozinho ou estar acompanhado.
Recuso-me a morrer. Recuso a vida.
.
Recuso-me à inocência e ao pecado
como a ser livre ou ser predestinado.
Recuso tudo, ó Terra dividida!
.
Jorge de Sena, in 'Coroa da Terra'
.
ODE À MENTIRA
.Crueldades, prisões, perseguições, injustiças,
como sereis cruéis, como sereis injustas?
Quem torturais, quem perseguis,
quem esmagais vilmente em ferros que inventais,
apenas sendo vosso gemeria as dores
que ansiosamente ao vosso medo
lembram e ao vosso coração cardíaco constrangem.
Quem de vós morre, quem de por vós a vida
lhe vai sendo sugada a cada canto
dos gestos e palavras, nas esquinas das ruas e dos montes
e dos mares da terra que marcais,
matriculais, comprais, vendeis, hipotecais,
regais a sangue, esses e os outros,
que, de olhar à escuta e de sorriso amargurado
à beira de saber-vos, vos contemplam como coisas óbvias,
fatais a vós que não a quem matais,
esses e os outros todos...
- como sereis cruéis, como sereis injustas,
como sereis tão falsas?
Ferocidade, falsidade, injúria são tudo quanto tendes,
porque ainda é nosso o coração que apavorado
em vós soluça a raiva ansiosa de esmagar
as pedras dessa encosta abrupta que desceis.
Ao fundo, a vida vos espera.
Descereis ao fundo.
Hoje, amanhã, há séculos, daqui a séculos?
Descereis, descereis sempre, descereis.
Jorge de Sena, in 'Pedra Filosofal'

terça-feira, 24 de agosto de 2010

DOCUMENTÁRIO DE AGUSTINA BESSA-LUÍS

Gostei de rever este documentário e ouvir a escritora a falar de si. Da infância, adolescência, da escrita, do seu casamento (interessante a forma como escolheu o companheiro, colocando um anúncio num jornal: Homem inteligente e culto...), dos seus êxitos, do seu relacionamento com o realizador Manuel de Oliveira, nem sempre cordato....enfim gostei de estar com Agustina, que dizia:

"Eu não me levo muito a sério. É a melhor maneira de viver. Aquele que se leva a sério está sempre numa situação de inferioridade perante a vida."

O seu primeiro livro foi o «Mundo Fechado» e desse livro, mandou cópias aos escritores, que na altura ela considerava importantes: Pascoaes, Torga, Aquilino, Ferreira de Castro.
Torga não respondeu, Pascoaes estava muito doente e pouco depois morreu, mas mais tarde foram encontrados nos seus papeis uns apontamentos para Agustina, favoráveis ao livro.


"Escrever é comover para desconvocar a angústia e aligeirar o medo...Ama-se a palavra usa-se a escrita despertam-se as coisas do silêncio em que foram criadas."

A sua escrita, são divagações sobre a condição humana. Uma visão cáustica, cruel e implacável sobre as paixões, com falhas de coerência e lógica, porque elas também existem na vida real.
Os seus grandes influenciadores foram, Dostoievsky e Freud, porque eles foram ao fundo da alma.
O seu romance preferido: Um Inverno Frio.



A Capacidade de Adaptação dos Portugueses
Os observadores estrangeiros maravilham-se de que Portugal resista à crise política e económica com tal poder de adaptação. Há nos Portugueses uma sinceridade para com o imediato que desconcerta o panorama que transcende o imediato. O infinito é o que eu situo - dizem. E assim vivem. Protegidos talvez por essa condição de afecto pelas coisas, pelos seus próprios delitos, que não consideram dramáticos, só ao jeito das necessidades. De resto — quem se apresenta a salvar-nos que não esteja suspeitamente indignado? Os que muito se formalizam muito escondem; os que acusam demasiado privam-se de ser leais consigo próprios. O país não precisa de quem diga o que está errado; precisa de quem saiba o que está certo.

Agustina Bessa-Luís, in 'Dicionário Imperfeito'

Garras dos sentidos

Não quero cantar amores,
Amores são passos perdidos,
São frios raios solares,
Verdes garras dos sentidos.
São cavalos corredores
Com asas de ferro e chumbo,
Caídos nas águas fundas,
não quero cantar amores.
Paraísos proibidos,
Contentamentos injustos,
Feliz adversidade,
Amores são passos perdidos.
São demências dos olhares,
Alegre festa de pranto,
São furor obediente,
São frios raios solares.
Da má sorte defendidos
Os homens de bom juízo
Têm nas mãos prodigiosas
Verdes garras dos sentidos.
Não quero cantar amores
Nem falar dos seus motivos

domingo, 22 de agosto de 2010

LOU ANDREAS-SALOMÉ - UMA MULHER SEDUTORA, APAIXONADA E LIVRE


LOU ANDREAS-SALOMÉ, também conhecida como Louise von Salomé (São Petesburgo, Rússia, 12 de Fevereiro de 1861 – Göttingen, 5 de Fevereiro de 1937).


"Ouse, ouse... ouse tudo!!
Não tenha necessidade de nada!
Não tente adequar sua vida a modelos,
nem queira você mesmo ser um modelo para ninguém.
Acredite: a vida lhe dará poucos presentes.
Se você quer uma vida, aprenda ... a roubá-la!
Ouse, ouse tudo!
Seja na vida o que você é, aconteça o que acontecer.
Não defenda nenhum princípio,
mas algo de bem mais maravilhoso:
algo que está em nós e que queima como o fogo da vida!!"
"No mais profundo de si mesmo, o nosso ser
rebela-se em absoluto contra todos os limites.
Os limites físicos são-nos tão insuportáveis quanto
os limites do que nos é psiquicamente possível:
não fazem verdadeiramente parte de nós.
Circunscrevem-nos mais estreitamente do que desejaríamos."
Lou Andréas-Salomé


Dela disse Nietzsche, ser “de longe, a pessoa mais brilhante que conheci”. Se a afirmação é ou não verdadeira tal não é pertinente, antes revela claramente o fascínio que a figura desta mulher exerceu sobre os intelectuais mais importantes da sua época. Na figura de Lou confundem-se a personagem histórica e a lenda. A biografia escrita por Stéphane Michaud procura esclarecer os contornos que constituíram a personalidade controversa desta mulher que foi romancista, poeta, ensaísta, psicanalista e uma pioneira do modernismo europeu. Famosa pela sua beleza e notável inteligência, Lou nasceu em São Petersburgo, a 12 de Fevereiro de 1861, filha de Louise Wilm e de Gustav von Salomé, um alemão descendente de hugenotes, que ocupava o cargo de conselheiro secreto do soberano, na corte imperial. Pertencendo às altas esferas da nobreza, Louise Wilm recebeu as felicitações do czar pelo nascimento de Lou, que foi educada no luxo cosmopolita da corte, condição que lhe permitiu desfrutar de uma ampla liberdade, assim como de um ambiente propício ao contacto e à aprendizagem das correntes filosóficas e literárias em voga. Com o seu estatuto de única filha, foi excessivamente protegida, numa família de cinco rapazes. A presença tutelar dos irmãos projectar-se-á, posteriormente, sobre todos os homens que Lou conheceu. Igualmente, a figura do pai transformar-se-á numa figura omnipresente que a dominará por toda a vida. Arrapazada, de cabelos curtos e frisados, revelou cedo os aspectos que iriam marcar a sua singularidade: um olhar independente e firme, uma personalidade enigmática e uma tendência imaginativa, que a levava a fechar-se na solidão de um mundo encantado. Durante a adolescência, o mais pequeno pretexto servia para que o pai a libertasse de todas as obrigações, mas mais tarde, ela sublinhará à amiga Frieda von Büllow a singularidade da sua infância, referindo que tinha sido o período menos feliz da sua existência.O espírito crítico de Lou conduziu-a a uma atitude de descrença perante a religião. Recusando o ultra-conservadorismo do pastor Dalton, sedenta de independência e impaciente por viver, foi rejeitando, cada vez mais, a fé em Deus. Com a morte do pai, as esperanças de pacificação com a religião e com Deus desapareceram por completo. Poucas semanas após essa perda, e tendo ouvido falar de Gillot, um pregador em voga, defensor de novas ideias religiosas, dirigiu-lhe uma carta que era um pedido de socorro desesperado e na qual suplicava que a libertasse de dúvidas. A intrepidez, inteligência e a sede de aprender de Lou atraíram Gillot que tomou a sua educação a seu cargo. Lou tinha dezassete anos e Gillot quarenta e dois. Era casado e pai de dois filhos. Lou representou para ele, não apenas um sonho de pedagogo, como transferiu para esse homem a imagem do pai perdido. A educação não se limitava apenas à religião, mas visava igualmente prepará-la para os estudos universitários que fará em Zurique, na Suíça, um dos raros países tolerantes que aceitava mulheres nos cursos superiores. Gillot apaixonou-se por Lou e propôs-lhe casamento, perspectivando o divórcio. Embora o sentimento de Lou fosse recíproco, como mais tarde nas suas Memórias deixou transparecer, fugiu de Gillot, que lhe surgia como um obstáculo à sua liberdade. O fascínio por Gillot desintegrou-se brutalmente e confessou posteriormente que no seu universo não havia lugar para o desejo nem para o sexo, nem tão pouco, espaço para um casamento.Em 1880, Lou partiu para Zurique, onde estudou lógica, história das religiões e metafísica. Ainda que se revelasse sobredotada, a sua saúde era frágil. Durante este período confirmou também a sua vocação literária, retomando os poemas escritos nos tempos da sua relação com Gillot e procurando publicá-los em revistas literárias. No ano seguinte, viajou até Roma, onde o clima lhe permitiu o restabelecimento da saúde. Tinha pedido ao seu amigo Kinkel uma carta de apresentação para um dos espíritos mais livres do seu tempo: Malwida von Meysenburg. Europeia convicta e adepta do livre pensamento, Malwida sonhava com uma sociedade humana liberta das cadeias da religião e dos seus dogmas, lutando para que artistas e filósofos conquistassem o lugar privilegiado que deveriam ocupar. Defendia ousadamente os direitos das mulheres e a sua participação na vida colectiva. As suas ideias arrojadas tinham-lhe valido o exílio definitivo da cidade natal e da Prússia. Pedagoga, ensaísta, romancista e melómana, Malwida tinha, aos sessenta e cinco anos de idade, uma carreira repleta atrás de si. O tempo de exílio que havia passado em Londres transformara-a numa acérrima e feroz defensora de Wagner, que havia conhecido em Londres. À sua volta formara um círculo de intelectuais, de escritores e artistas que defendia, apoiava e protegia da intolerância e incompreensão dos seus contemporâneos. Tinha acolhido Nietzsche em Sorrento, numa villa, onde o odor das laranjeiras se confundia com a brisa marítima. Doente, Nietzsche havia pedido à universidade de Basileia uma licença de longa duração e estava acompanhado por dois amigos. Um deles era o jovem discípulo Brenner, que lhe servia de secretário, e o outro era o filósofo Paul Rée. O estado de saúde de Nietzsche melhorara nesse Outono, permitindo-lhe visitar a família Wagner, que habitava nas proximidades. Porém, quando Lou chegou, na Primavera de 1882, a atmosfera tinha-se alterado substancialmente. A relação com Wagner degradara-se e Nietzsche sentia na pele as consequências do facto. A universidade de Basileia transformou a sua licença de um ano numa reforma definitiva o que contribuiu para um novo agravamento do seu estado de saúde.Malwida, investiu toda a sua paixão nessa mulher-criança, cujo brilho intelectual e audácia a fascinavam. Lou conheceu então Paul Rée, sentindo-se cativada por este jovem filósofo de trinta e três anos, de espírito aventureiro e dado ao vício do jogo. Propôs-lhe viverem juntos, partilhar a casa e o amor aos livros e reunir em torno de ambos, os outros espíritos filosóficos. Rée, desconcertado, pediu-a em casamento o que provocou a cólera de Lou que imediatamente o rejeitou, explicando-lhe que desde a sua relação com Gillot tinha posto um ponto final à sua vida amorosa. Nessa altura e julgando servir os interesses de Lou, Rée escreveu a Nietsche, que se revelou predisposto a aceitar uma relação a três, desembarcando de improviso em Roma à procura da “Russa” e do amigo. Imediatamente seduzido pela jovem, Nietzsche encarregou Rée de lhe servir de intermediário para lhe pedir a mão, o que provocou uma nova recusa por parte de Lou, que exigiu que Rée explicasse a Nietzsche a sua aversão pelo casamento. Mas a natureza solitária e a inteligência de Nietzsche não a deixaram indiferente. Sentindo-se demasiado atraída pelo filósofo, refreou essa atracção e refugiou-se na relação terna e protectora de Paul Rée, que a amava e que sofria com a sua indiferença física.


















Lou, Rée e Nietzsche

Nietzsche continuava obcecado pela ambição de formar um discípulo que pudesse ser iniciado na sua filosofia e, a inteligência e independência de Lou, imprimiram um novo rumo à sua existência. Em Lucerna, no Löwengarten, onde voltaram a reunir-se mais tarde, Nietzsche pediu-a novamente em casamento, mas Lou manteve a sua recusa obstinada, deixando o filósofo estarrecido com a declaração de que lhe interessava unicamente cumprir a vontade de viver e entregar-se ao estudo da filosofia e da literatura.Perante os projectos de Lou, que mantinha firme a ideia de viver com os dois filósofos, os irmãos tentaram demovê-la e impedir o escândalo, procurando fazê-la regressar a São Petersburgo. Entretanto, Nietzsche introduzira Lou no seu círculo de artistas e intelectuais de Bayreuth, onde ela provoca uma onda de choque pela sua audácia. A irmã de Nietzsche, Elisabeth, via com maus olhos as atitudes daquela jovem mundana e cheia de vitalidade, chegando a provocar altercações violentas e tentando, a todo o custo, destruir a relação entre Lou e o irmão. Por fim, o amor de Nietzsche transformou-se em amargura e decepção. A sistemática recusa de Lou levou-o ao desespero, à beira do suicídio. Só a embriaguez do ópio o salvava dessa dor lancinante, cuja experiência, depois de amadurecida o levou a começar a escrever, Assim Falava Zaratustra. Foi assim que Nietzsche se libertou do fascínio que Lou exercia sobre ele. Jamais voltariam a encontrar-se. Na verdade, a sua irmã Elisabeth minara todas as relações entre os membros do círculo. O debate suscitado e os escândalos daí resultantes, alimentando a voracidade de um público ávido, remeteu Lou para um silêncio do qual não voltou a sair. Respondeu sempre com um muro de silêncio que não a beneficiava, uma vez que não contribuía para clarificar a situação. Todavia, o afastamento de Nietzsche não lhe causou tanto dano que não permitisse que ela continuasse unida a Rée, encontrando, junto dele, não apenas a atenção e a ternura, como um certo apaziguamento. Juntos, reuniram à sua volta alguns dos espíritos mais promissores da época, como o crítico Georg Brandes, um dos primeiros autores a compreender o impacto da filosofia de Nietzsche, Hermann Ebbinghaus, fundador da Psicologia, e Ferdinand Tönnies, fundador da Sociologia.Alguns deles declarar-se-ão a Lou e ela recusará todos os pedidos, convertendo-os em amigos enquanto mantém Rée junto de si. Em 1886, porém, o amigo sentir-se-á traído. A 1 de Novembro, a celebração do noivado secreto de Lou com Andreas, de cuja chegada Rée não se apercebera e que irá ocupar o seu lugar, obriga-o a partir, em princípios de 1887, pondo termo a quatro anos de vida em comum. O sentimento de culpa atormentá-la-á mais tarde, ao saber que Rée foi encontrado morto, em 1901, em circunstâncias estranhas.Quer Malwida, quer Rée, tão próximos de Lou, ignoravam tudo acerca de Andreas. Porque razão, a certa altura, Lou decidiu casar? O que a terá motivado? A diferença de idades era considerável. Ele tinha 41 anos e ela 26. Príncipe e beduíno do deserto, numa sociedade na qual não se integrava e cujas regras tinha dificuldade em aceitar, era uma figura singular, tanto pela linhagem como pela experiência de vida, pois era filho de um arménio e nascera na Indonésia, em Jacarta. Quando jovem estudara no liceu de Genebra e destacara-se como aluno brilhante pelas suas aptidões musicais e linguísticas. Consagrara-se ao estudo das línguas orientais e tinha obtido o doutoramento em 1868, dedicando-se à leitura de manuscritos persas raros.Para Lou, Andréas encarnava, o ideal do sábio universal das épocas anteriores, o príncipe e o camponês, segundo o modelo russo. A aventureira deixara-se fascinar por esse poliglota que se afastava dos intelectuais que ela conhecera até então. Andreas destacava-se deles por uma “soberania das mais reais”, fazendo-a sonhar com viagens à Pérsia, indo ao encontro do seu lado selvagem e transmitindo-lhe um misto de doçura e de rebeldia. O casamento, nada convencional, foi realizado em 1887. O projecto de vida comum estabeleceu-se com base numa comunhão de gostos e de estudos, tratando-se de uma união puramente intelectual. Lou obteve de Andreas a garantia formal de que nunca teriam filhos. Revoltava-se contra a ideia de pôr no mundo uma criança indesejada e não suportava a ideia de dar à luz. Repudiava qualquer ligação entre amor carnal e casamento, uma convicção, que Andreas esperava ver alterada, mas jamais se modificará

















Lou e Andreas

Em 1890, a adesão do casal à Associação do Teatro Livre veio proporcionar a Lou os contactos que faltavam. Foi Georg Brandes, crítico dinamarquês, que redigiu uma carta de apresentação para o Deutsche Rundschau. Quanto a Wilhelm Bölsche, crítico, romancista e ensaísta, introduziu o casal no círculo de Friedrichsagen. Lou conheceu aí jovens escritores para quem a literatura, bem longe de ser um passatempo frívolo, era um imperativo de ordem existencial, um conceito a que imediatamente aderiu, tendo começado a escrever para duas publicações berlinenses de renome e participando da vanguarda literária e artística mais prestigiada da época, com Tolstoi, Maupassant, D’Anunzio e Knut Hamsun. Nesta boémia literária, cuja fantasia a afastava da austeridade e da disciplina do círculo de Rée, a mulher de quase trinta anos conheceu Georg Ledebour, conhecido pela sua liberdade, que o impedia de se subjugar à religião ou às convenções sociais. Foi essa fusão entre delicadeza e firmeza que atraiu Lou. Embora sensível ao fascínio desse terno amigo que lhe declara o seu amor, Lou resistiu-lhe, mas tal paixão provocou uma crise conjugal.Esse aspecto doloroso da sua vida irá reflectir-se na sua obra, numa fase em que escreve com uma tenacidade obstinada, uma actividade que foi injustamente negligenciada, pela dispersão por várias colunas de jornais. Dedicou-se igualmente à ficção, publicando, em 1885 Combate Por Deus e, em 1895, Ruth, o seu segundo romance, onde trata, ainda, a sua obsessão por Gillot.Em 1894, a escritora desembarcou em Paris, onde foi aceite pela sociedade boémia e literária e conquistou a admiração dos críticos mais influentes, como escritora e ensaísta. Começou a corresponder-se com Schnitzler, que ela admirava profundamente. Mas em relação a esse tempo de Paris, onde redescobriu os prazeres mundanos, Lou confessou um certo desencanto, provocado por um afastamento do seu trabalho. De volta a Berlim, permaneceu aí durante o tempo estritamente necessário. Trazia de tal modo entranhado o gosto pelas viagens que partiu, ao fim de seis meses, para S. Petersburgo onde reviu a família e Gillot. Regressada a Viena, onde a atmosfera era semelhante à de Paris, encontrou Schnitzler e travou conhecimento com Hofmannsthal, Beer-Hofmann e Friedrich Pineles, o médico a quem se ligará numa intensa e duradoura relação. Pineles tinha na altura vinte e sete anos e Lou trinta e quatro. Nessa sociedade brilhante, extremamente requisitada e apreciada pela sua capacidade de comunicação, Lou revelava uma lenta eclosão, que fez com que Schnitzler traçasse dela o retrato de uma mulher volúvel, deslumbrante e desinibida, de uma euforia e um gosto pela vida invulgares.Quando Lou e Rilke se encontraram, o poeta era um jovem de 21 anos, com um talento prodigioso, em busca de reconhecimento literário. Colaborava em vários jornais e revistas e era, ele próprio, editor de uma revista que pretendia divulgar as novas tendências da poesia. A relação que se estabeleceu entre ambos foi a de mãe-amante. Procuraram um refúgio nas montanhas, longe do bulício da cidade. Foi sob o olhar de Lou que Rilke iniciou um novo período de intensa produtividade literária. Lou, estava fascinada pelo ardor do poeta e pela sua virilidade amenizada pela doçura. Stéphane Michaud, na sua biografia, refere que a fase mais intensa da paixão entre ambos ocorreu entre 1897 e 1901, mas Lou, de comum acordo com Rilke, queimou as cartas relativas a esses anos.




















Lou e Rilke

Em 1898, Rilke, Andréas e Lou deixaram Berlim em direcção a Moscovo. Os viajantes partilhavam a mesma paixão pela Rússia antiga, pelas suas paisagens e pelo seu povo. Paradoxalmente, esta viagem afasta Lou de Rilke. O seu diário deixa compreender como a imagem do pai se sobrepõe à do amante. Lou sentiu-se incomodada pela presença de Rilke, forçando-o a partir. Sem remorso, considerou natural que se afastassem para que ambos pudessem crescer.Sob a orientação do psicoterapeuta sueco Poul Bjerre, Lou iniciou-se no estudo da Psicanálise. Mais tarde, afastando-se da posição teórica de Bjerre, que se distingue de Freud, Lou tornou-se de uma fidelidade inquebrantável relativamente ao fundador da psicanálise, durante vinte e cinco anos. Só a morte de Lou porá termo a essa relação. Freud confiou-lhe também a orientação da filha Anna, estabelecendo-se entre os três uma cumplicidade intensa. Depois da Guerra, quando Lou sofreu dificuldades económicas, foi o seu dedicado amigo Freud quem a ajudou.


Na última fase da sua obra, Lou procurou conciliar a influência da psicanálise - ela própria torna-se psicanalista - com a literatura. Nasceram dessa confluência, os seus mais estranhos contos, povoados por figuras e personagens que se apresentavam como representações simbólicas e intensas. De alguma forma, a sua obra surgiu integrada numa contra-corrente literária, pois na literatura alemã distinguiram-se outros autores, mais marcados pela vanguarda da estética expressionista, mais trabalhada pela política, como é o caso de Döblin, de Kastner ou, ainda, de Werfel. Finalmente, Lou escreveu,
As Memórias, obra que se revelará posteriormente, como um manancial e um testemunho da sua vida, mas onde a sua postura se mantém discreta e reservada. Lou sabia exactamente que compunha a derradeira imagem com que havia de deixar o mundo: a de uma mulher com uma beleza que a acompanhará até ao final da sua vida, tendo sempre do seu lado a vida (como dela disse um dia Rilke) e uma capacidade de dádiva que apenas se encontra nas almas superiores. Disso são prova as relações constantes e duradouras que manteve com os homens (amigos e amantes) até ao final da sua vida que terminou a 5 de Fevereiro de 1937, pouco antes de completar setenta e seis anos. Uma morte discreta a celebrar o esplendor do que foi a sua vida, guiada por uma liberdade radical.




Fonte: Michaud, Stéphane - Lou Andreas-Salomé - Edicões Asa, 2001(Stéphane Michaud é um estudioso da vida e da obra de Lou – Andreas Salomé, escreveu uma biografia apaixonante, que pela primeira vez, teve acesso a fontes até agora interditas.)
Fotografias: google

[C&H]

sexta-feira, 20 de agosto de 2010

ALBERTO DE LACERDA (1928-2007)



SOBRE ALBERTO DE LACERDA:

Alberto de Lacerda. In Infopédia [Em linha]. Porto: Porto Editora, 2003-2010. [Consult. 2010-08-17].Disponível na www:
http://www.infopedia.pt/$alberto-de-lacerda>.
http://pt.wikipedia.org/wiki/Alberto_de_Lacerda




NÃO ENCONTRASTE A RUA

Não encontraste a rua
Não encontraste a casa
Não encontraste a mesa
No café que alguém
Por engano indicou.
Mas a cidade é esta
E não outra
Não encontraste o rosto
O anel caiu
Ninguém sabe aonde.
- REGRESSO
Não vim à procura de nada
Nem de saudades que não tenho
Nem de carga do tempo perdido
Nem de conflitos sobrenaturais
Do tempo e do espaço
Amei desde criança
Certas coisas que não choro
Fui a pureza deslumbrada
que não volta jamais
O vidro sem ranhura
que o sol atravessa
A pureza
Que me deixou feridas imortais
Vim para ver
Para ver de novo
Para contemplar sem perguntas
Não vim à procura de nada
Não me perguntem por nada
Um rio não se interroga
O vento não se arrepende
- COPO DE ÁGUA

Que maravilha um copo de água!
Que transparência saborosa
Penetra a luz nos nossos lábios
Como nos olhos uma rosa.
.
Ó material, imaterial
Incandescência, ponte clara!
Brasão da terra, misterioso,
Da terra boa, terra amara.
.
Ó doçura que nos inunda
Como um clarão vindo de tudo,
Ó água que vais abrigando
Neste copo teu riso mudo!
.
Mudo? Não sei. Talvez caudal
Já tenhas sido, eco celeste,
Céu que te abres ao corpo súplice,
Seda que a sede humana veste!
. in Antologia da Poesia Portuguesa Contemporânea,
Um PanoramaOrganização de Alberto da Costa e Silva e Alexei Bueno, Lacerda Editores -
FALEMOS DE MIOSÓTIS
Visto que Você não quer
que as coisas continuem
Assim
Nesse caso
Falemos de miosótis
Flor sobre a qual não sabemos
Nada
- IMAGEM
No firme azul do desdobrado céu
Decantarei a mínima magia
Das sensações mais puras, melodia
Da minha infância, onde era apenas Eu.
.
Da realidade nua desce um véu
Que, já sem mar, apenas maresia,
me vem tecer aquela chuva fria,
Que prende esta janela ao claro céu.
.
Despido o ouropel desvalioso,
Já não apenas servo, mas o Rei
Da luz da minha lâmpada nomeia,
.
Assim procuro o centro misterioso
Do mundo que hoje habito, onde serei
Concêntrica expressão da vida inteira.

quinta-feira, 19 de agosto de 2010

BERNARDO SOARES - AGI SEMPRE PARA DENTRO...NUNCA TOQUEI NA VIDA...

Agi sempre para dentro... Nunca toquei na vida... Sempre que esboçava um gesto, acabava-o em sonho, heroicamente... Uma espada pesa mais que a ideia de uma espada... Comandei grandes exércitos — venci grandes batalhas, gozei grandes derrotas — tudo dentro de mim...
Gostava de passear sozinho pelas alamedas e pelos grandes corredores e de comandar as árvores e desafiar os retratos das paredes... No grande corredor sombrio que há ao fundo do palácio passeei com a minha noiva muitas vezes... Eu nunca tive noiva real... Nunca soube como se amava... Apenas soube como se sonhava amar... Se eu gostava de usar anéis de dama nos meus dedos é que às vezes queria julgar que as minhas mãos eram de princesa e que eu era, pelo menos no gesto das minhas mãos, aquela que eu amava...
Um dia foram-me encontrar vestido de rainha... Eu estava sonhando que eu era a minha esposa régia... Gostava de ver a minha face reflectida porque podia sonhar que era a face de outra criatura — porque era de formas femininas, que era de minha amada que era a minha face reflectida... Quantas vezes a minha boca, tocou na minha boca nesse espelho!... Quantas vezes apertei uma das mãos com a outra, quantas adorei meus cabelos com a minha mão alheada para que parecesse dela ao tocar-me. Não sou eu que te estou dizendo isto... É o resto de mim que está falando.
s.d.
Livro do Desassossego. Vol.I. Fernando Pessoa. (Organização e fixação de inéditos de Teresa Sobral Cunha.) Coimbra: Presença, 1990. - 76.

HERMAN LEONARD (1923-2010) - FOTÓGRAFO DO JAZZ

Herman Leonard, norte-americano conhecido como o fotógrafo do jazz, morreu no sábado, em Los Angeles, aos 87 anos. O seu lema era: “Above all, enjoy the music”.


Leonard começou a sua carreira nos anos 40, por ser amante da música jazz - como não tinha dinheiro para entrar nos clubes de Nova Iorque (como os Royal Roost, Birdland ou Bop City) foi através da fotografia que conseguiu assistir a concertos. Viveu em Nova Iorque, depois em Paris, e fotografou todos os nomes importantes do jazz. Captou para a posteridade Dexter Gordon, Charlie Parker, Dizzy Gillespie, Billie Holiday, Duke Ellington, Miles Davis, entre outros.

Durante algum tempo foi o fotógrafo pessoal de Marlon Brando, e também fotografou para a revista “Playboy” norte-americana. Em 2006, o fotógrafo perdeu grande parte dos seus bens por causa do furacão Katrina que atingiu a sua casa em Nova Orleães e destruiu mais de 8 mil fotografias. Mas os negativos foram salvos, pois estavam depositados no Ogden Museum of Southern Art. O fotógrafo trabalhava agora com o músico Lenny Kravitz. Leonard é autor do livro “The Eye of Jazz” (editora Viking) e de “Jazz” que será publicado em Novembro pela Bloomsbury nos Estados Unidos.
(Jornal Público)




Miles Davis


Ella Fitzgerald

Frank Sinatra

Louis Amstrong

terça-feira, 17 de agosto de 2010

William Shakespeare - SONETO LXX


SONNET LXX


That thou art blamed shall not be thy defect,
For slander's mark was ever yet the fair;
The ornament of beauty is suspect,
A crow that flies in heaven's sweetest air.
So thou be good, slander doth but approve
Thy worth the greater, being woo'd of time;
For canker vice the sweetest buds doth love,
And thou present'st a pure unstained prime.
Thou hast pass'd by the ambush of young days,
Either not assail'd or victor being charged;
Yet this thy praise cannot be so thy praise,
To tie up envy evermore enlarged:
If some suspect of ill mask'd not thy show,
Then thou alone kingdoms of hearts shouldst owe.


SONETO LXX

Se te censuram, não é teu defeito,
Porque a injúria o mais belo pretende;
Da graça o ornamento é vão, suspeito,
Corvo a sujar o céu que mais esplende.
Enquanto fores bom, a injúria prova
Que tens valor, que o tempo te venera,
Pois o Verme na flor gozo renova,
E em ti irrompe a mais pura primavera.
Da infância os maus tempos pular soubeste,
Vencendo o assalto ou do assalto distante;
Mas não penses achar vantagem neste
Fado, que a inveja alarga, é incessante.
Se a ti nada demanda de suspeita,
És reino a que o coração se sujeita.

trad. Diego Raphael

segunda-feira, 16 de agosto de 2010

JULIEN GRACQ (1910 - 2007)

Centenário do nascimento de Julien Gracq (1910 - 2007), escritor francês, cujo nome verdadeiro era Louis Poirier.
Cracq escreveu dois romances excepcionais, Le Rivage des Syrtes e Un Balcon en Forêt, além de obras contundentes de crítica e ensaio. Grande admirador de Ernst Jünger. Professor de História e Geografia, recusou o Prémio Goncourt. Esteve próximo dos surrealistas, tendo sido amigo de André Breton, mas recusou ser assimilado.
Um escritor alérgico aos holofotes, de tempos a tempos, lançava um livro, mostrando que era um visionário, tal a sua capacidade de narrar histórias inquietantes e desconcertantes.


BIOGRAFIA COMPLETA: AQUI

LE RIVAGE DES SYRTES – Tradução de Pedro Tamen. É o seu romance mais célebre e uma arrebatadora obra de ficção europeia do século XX.
Uma cidade, capital de um império em declínio, consome-se na espera de um inimigo virtual. Esta capital do rumor, é o centro de todas as intrigas, o cadinho de todos os presságios, o vulcão de todas as superstições. Sonâmbulos, os habitantes da cidade vegetam na sombra da ameaça ancestral: acabarão a desejar o ataque libertador, que os devolva à sua antiga condição de seres com história.


Uma sensação de vento nas têmporas, é o que causam os seus livros, escritos num francês de tal riqueza lexical e sintáctica, que chega a ser estonteante. Gracq é um mago, a quem não fazia falta trazer a filosofia para a ficção, porque a sua ficção era toda ela metafísica, como um quadro de Chirico ou o Pélléas de Debussy.

Mega Ferreira.


domingo, 15 de agosto de 2010

MÁRIO DIONÍSIO (1916- 1993)

Escritor, professor e crítico de arte português. Licenciou-se Filologia Românica na Faculdade de Letras. Foi, durante vinte anos, professor do ensino secundário no Liceu Camões, ingressando depois, até 1986, na Faculdade de Letras de Lisboa, como professor associado. Colaborou em diversos jornais e revistas, como a Presença, Altitude, Revista de Portugal, Seara Nova e Vértice. Foi poeta, ficcionista, ensaísta (sendo um dos mais importantes teorizadores do neo-realismo, sem deixar de valorizar aspectos específicos da criação literária, exerceu a sua actividade crítica, quer no domínio da criação literária, quer no das artes plásticas) e pintor. Participou em inúmeras exposições colectivas, tendo realizado a sua primeira exposição individual, em Lisboa e no Porto, em 1989. Poeta ligado ao Novo Cancioneiro, destacou-se pelo carácter combativo da sua lírica e pelo seu optimismo quanto à evolução da sociedade e do homem, considerando que «a poesia está na vida/a poesia está em tudo quanto vive/a poesia está na luta dos homens».
A sua poesia foi-se progressivamente afastando do neo-realismo uma vez que o autor evoluiu com o tempo e as mudanças estéticas, políticas e sociais, muito embora se tenha afirmado sempre como opositor ao fascismo salazarista.


Obras:
Publicou as obras poéticas Lamento na Hora Incerta, Poemas (1941), As Solicitações e Emboscadas (1950), Riso Dissonante (1950), Memória de um Pintor Desconhecido (1965), Le Feu Qui Dort (1967, obra a partir da qual a sua poética apresenta por vezes traços do surrealismo) e Terceira Idade (1982, Prémio do Centro Português da Associação Internacional de Críticos Literários, ex-aequo com uma obra de Alexandre O'Neill). Publicou ainda o volume de contos Dia Cinzento (1944) e os romances Não Há Morte nem Princípio (1969), Monólogo a Duas Vozes (1986) e A Morte é Para os Outros (1988). No domínio do ensaio e da polémica escreveu Ficha 14 (1944), Vincent Van Gogh (1947), XVI Desenhos de Júlio Pomar (1948), «Guilherme de Azevedo», in Perspectiva da Literatura Portuguesa do Século XIX (1949), Encontros em Paris (1951, entrevistas com personalidades várias), Conflito e Unidade da Arte Contemporânea (1958), A Paleta e o Mundo (2 volumes, 1956-1960) e Autobiografia (1987). Há ainda vários estudos e prefácios críticos de sua autoria, como os de Poemas Completos, de Manuel da Fonseca (1963), Casa na Duna, de Carlos de Oliveira (1963), Barranco de Cegos, de Alves Redol (1970), Poeta Militante I, de José Gomes Ferreira (1977), O Mundo dos Outros, de José Gomes Ferreira (1978), O Anjo Ancorado, de José Cardoso Pires (1985), Mensagem, de Fernando Pessoa (1985), e Júlio Pomar (1990)


*
As Solicitações e Emboscadas
Pode-se pintar com óleo
com petróleo ou aguarrás
Mas pode-se também pintar
com lágrimas silenciosas
No desprezo das horas odiosas
tanto faz


Reunião Clandestina
Silenciosa Música do Cosmos
As bocas que estão fechadas não estão caladas
Os braços que estão caídos não estão imóveis
E os olhos que estão voltados não estão sem ver
Homem só homem
só tu bem me compreendes
quando digo que não estás só
e bem entendes
bem entendes este longo discurso
enchendo o ar que vem de toda a parte
e vai a toda a parte eternamente
Em surdina
*

Meu galope é em frente
Direis que não é poesia
e a mim que importa?
Eu canto porque a voz nasce e tem de libertar-se.
E grito porque respondo
às lanças que me espetam
e aos braços que me chamam
E porque, dia e noite,
minhas mãos e meus olhos,
por estranhas telegrafias,
dos cantos mais ignotos
e das ilhas perdidas
e dos campos esquecidos
e dos lagos remotos,
e dos montes,
recebem longas mensagens e comunicações:
para que grite e cante.
.
O meu grito e meu canto é a voz de milhões.
.
Por isso que me importa?
Eu canto e cantarei o que tiver a cantar
e grito e gritarei o que tiver a gritar
e falo e falarei o que tiver a falar.
.
Direis que não é poesia.
E a mim que importa
se eu estou aqui apenas para escancarar a porta
e derrubar os muros?
E a mim que importa
se vós sois afinal o que hei-de ultrapassar
e esmigalhar
em nome
de todos os futuros?
.
Eu sigo e seguirei
como um doido ou um anjo,
obstinado e heróico a caminho de nós
em palavras e acções
Por todos os vendavais
e temporais
e multidões
nos cantos mais ignotos
e nas ilhas perdidas
e nos campos esquecidos
e nos lagos remotos
e nos montes
– por terra, mar e ar.
.
Direis que não é poesia
e a mim que importa!
Convosco ou não, meu galope é em frente.
Pertenço a outra raça, a outro mundo, a outra gente.

É andar, é andar!
Vendedor AmbulanteElegia ao Companheiro Morto
Meu companheiro morreu às cinco da manhã
Foi de noite ao fim da noite
às cinco em ponto da manhã
Ah antes fosse noite noite apenas
noite sem a promessa da manhã
Ah antes fosse noite noite noite apenas noite
e não houvesse em tudo a promessa da manhã
Deitado para sempre às cinco da manhã
Agora que sabia olhar os homens
com força e ver nas sombras
que até aí não via a promessa risonha da manhã
Mas quem se vai interessar amigos
quem por quem só tem o sonho da manhã?
E uma vez de noite ao fim da noite mesmo
ao cabo da noite meu companheiro
ficou deitado para sempre
e com a boca cerrada para sempre
e com os olhos fechados para sempre
e com as mãos cruzadas para sempre
imóvel e calado para sempre
E era quase manhã
E era quase amanhã
*Memória dum Pintor Desconhecido
Os presos contam os dias
eu as horas nesta prisão maior
onde um olhar ficou boiando
e uma voz um som de passos
perseguidos na sombra
perseguindo a segurança fugidia
Na cidade que amo e a sós comigo
é talvez só futuro ou já saudade
com alma bem nascida entre o fragor de máquinas,
cimento e energia atómica
indefeso entre irmãos de cárcere
demando a voz que foge os irmãos
que não vejo o brando olhar
que guarda o meu desejo
e só consigo ver o gomoso arrastar das horas
e das horas tantas horas
à baioneta marcadas
por uma sentinela
aos quatro cantos da janela gradeada
Mulher de Mãos Gretadas
Ode
Oh tempo de hoje
a tua face é odiada por milhões
Quem não te amaldiçoou
ao menos uma vez?
e não crispou as mãos
e o rosto ao menos uma vez
ao remoinho impiedoso das tuas contradições?
Meu tempo meu tempo
feito de braços decepados
com gritos reprimidos
tua poesia de dentes cariados
teus sonhos desmentidos
e ainda sempre amados
Vêem-te o esgar
Vivem-te o bafo pestilento
todos te odeiam
Sim
Mas eu amo-te
tempo dos meus dias
e dou-te com fervor a toda a hora
o mais profundo e mais inolvidável que há em mim

CONSULTA:
AQUI

terça-feira, 10 de agosto de 2010

SIMBOLISMO

Movimento artístico, que surgiu em França no século XIX, opondo-se ao Realismo, ao Naturalismo e ao Positivismo da época.
Esta corrente teve a adesão, de escritores e também de pintores e foi influenciada pelo misticismo e pelo orientalismo.
Como tudo que é novo houve contestação, o simbolismo foi chamado de decadentismo, que aludia à decadência dos valores estéticos existentes e uma afectação dos mesmos. Em 1886, um manifesto formalizou a nova corrente: SIMBOLISMO.

Embora vários artistas tivessem aderido a esta corrente, predominava entre os mesmos o individualismo. Uma característica, no entanto era abrangente: o subjectivismo, os artistas procuram o mais profundo do «eu», o inconsciente, o sonho. Este vector pode ter uma aproximação ao passado movimento romântico e até ao futuro movimento surrealista, de «grosso modo». Ênfase no imaginário e na fantasia. Para interpretar a realidade, os simbolistas valem-se da intuição e não da razão ou da lógica. Preferem o vago, o indefinido, o impreciso.
Tendo surgido paralelamente ao neo-impressionismo de Georges Seurat e de Paul Signac, o simbolismo apresenta-se como mais uma tentativa de superação da pura visualidade defendida pelo impressionismo. Porém enquanto o divisionismo de Seurat e Signac, se baseia em leis científicas de visão, o simbolismo segue uma trilha espiritualista e anticientífica. Se o impressionismo fornece sensações visuais, o simbolismo almeja apreender valores transcendentes - o Bem, o Belo, o Verdadeiro, o Sagrado - que se encontram no pólo oposto ao da razão analítica.
Oriundo do impressionismo, Paul Gauguin deixou-se influenciar pelas pinturas japonesas que apareceram na Europa e abandonou as técnicas ainda vigentes nas telas do movimento onde se iniciou. A temática alegórica passa a dominar, a partir de 1890. Ao artista não bastava pintar a realidade, mas demonstrar na tela a essência sentimental dos personagens - e em Gauguin isto levou a uma busca tal pelo primitivismo que o próprio artista abandonou a França e foi morar com os nativos da Polinésia francesa.





A "pintura literária" de Gustave Moreau e Pierre Puvis de Chavannes, por exemplo, focaliza civilizações e mitologias antigas, com o auxílio de imagens místicas, tratadas com forte sensualidade, como, A Aparição, ca.1875.
APARICÃO de GUSTAVE MOREAU

Salomé com seu corpo adornado e atraente, aponta para a cabeça degolada de João Baptista.
Referência ao episódio bíblico, no qual Salomé é apontada como responsável pela execução de João Batista, a cena parece querer associar o acto de matar o amado e ver o seu sangue escorrer com uma compulsão erótica feminina associada à histeria e à encarnação de Eros e Thanatos.

Mestre da cor, o artista soube representar uma mulher de beleza rara, com traços de anjo e pele aveludada, cobertas apenas por ousadas transparências. A luz foi utilizada por Moreau para obter essa atmosfera ao mesmo tempo mística e mágica, que caracterizou a pintura simbolista.

Odilon Redon, explora, em desenhos e litografias, diversos temas fantásticos, sob inspiração da literatura de Edgar Allan Poe.


Tendo a sua origem em França, o simbolismo, converteu-se imediatamente num fenómeno europeu. Na Áustria, a obra de Gustav Klimt é emblemática da associação entre fórmulas decorativas e temáticas simbolistas, como indicam, por exemplo, as figuras femininas, de tom alegórico e forte sensualidade, visto no Retrato de Corpo Inteiro de Emilie Flöge, 1902, Judite I, 1901, e As Três Idades da Mulher, 1908, entre outros.



Outros artistas europeus da época, aderem, como por exemplo: o suíço Ferdinand Hodler, destacando-se as obras, O Desapontado, 1890, e Eurritmia, 1895 - e Arnold Böcklin, responsável por telas de tom místico e clima sombrio como, A Ilha dos Mortos, 1880.
A Ilha dos Mortos - Arnold Böcklin

Ou ainda, na Inglaterra, os trabalhos de Aubrey Beardsley - autor das ilustrações da versão inglesa de Salomé, de Oscar Wilde - e das obras esteticistas de sir Edward Coley Burne-Jones.
Os pintores do grupo belga Les Vingt (Les XX) - que reúne
James Ensor, Theodor Toorop e Henri van de Velde - são outros exemplos da expressão europeia simbolista/decadentista. Ensor produziu uma obra povoada de elementos macabros e figuras grotescas, que procura enveredar pelas profundezas do inconsciente.
Christ's Entry into Brussels


A obra do norueguês Edvard Munch, alia-se primeiro ao simbolismo, tornando-se depois um expoente do expressionismo. Munch, confere um sentido mais trágico ao diagnóstico pessimista lançado pelos artistas em relação à sociedade industrial do fim de século. Nesse ponto também se verifica um movimento de arte da realidade exterior para o universo interior, só que os seus trabalhos recusam qualquer sentido de transcendência da arte e do símbolo. As suas obras tematizam a dor, a morte e os estados psicológicos extremos, sem nenhum apelo estetizante - O Grito, 1893, Ansiedade, 1894.
O Grito - Munch




É possível pensar ainda em reverberações simbolistas e decadentistas no grupo francês dos nabis - Aristide Maillol, Pierre Bonnard e Édouard Vuillard - e no expressionismo, de Wassily Kandinsky e Paul Klee.

CONSULTA: GUIA DA HISTÓRIA DE ARTE, SPROCCATI, Sandro, Editorial presença, 4ª. Edição, Lisboa, 1999
(C&H)