O importante não é aquilo que fazem de nós, mas o que nós mesmos fazemos do que os outros fizeram de nós.
JEAN-PAUL SARTRE

quarta-feira, 31 de março de 2010

FRUSTRAÇÃO - OUTONO EM PEQUIM - BORIS VIAN

Boris Vian é considerado um indomável escritor e também foi músico, letrista e compositor, matemático, inventor…
Inicialmente com o pseudónimo de Vermon Sullivan, escreveu policiais negros.
OUTONO EM PEQUIM, é um romance desarmante: nada faz aparente sentido nesta trama desconexa, desigual e caótica. E, no entanto (ou por causa disso mesmo…), tudo se encaixa, como se a desordem fosse o caminho mais indicado para chegarmos a algum lado. DIZEM, EU SÓ CHEGUEI A MEIO!...A construção de uma linha férrea em pleno deserto, num local tão inóspito quanto imaginário chamado Exopotâmia, vai reunir um conjunto de insólitas personagens. Embora a acção não esteja isenta da narrativa (há fugas, amores não correspondidos e intensos jogos de sedução), o que estes seres procuram ou para onde vão acaba por ser secundário, quando comparado com aquilo que representam, muito superior a eles; sem o saberem, todos pertencem a um microcosmos que representa a sociedade em toda a sua decadência e esplendor, uma realidade que Vian tanto gostava de desmontar para melhor expor as suas contradições e hipocrisias.Mais do que pela trama narrativa (in)xistente, é pela espirituosidade dos diálogos, absurdo das situações e feroz crítica social do autor-satirizando figuras (sa)gradas da sociedade francesa da época.

segunda-feira, 29 de março de 2010

POESIA - HERBERTO HELDER

Começa o tempo onde a mulher começa,
é sua carne que do minuto obscuro e morto
se devolve à luz.
Na morte referve o vinho, e a promessa atinge as pálpebras
Com uma imagem.
Espero o tempo com a face espantada junto ao teu peito
De sal e silêncio, concebo para minha serenidade
Uma ideia de pedra e de brancura.
És tu que me aceitas em teu sorriso, que ouves,
Que te alimentas de desejos puros.
E une-se ao vento o espírito, rarefaz-se a auréola,
A sombra canta baixo
HERBERTO HELDER IN «o Amor em Visita

sexta-feira, 26 de março de 2010

BICENTENÁRIO DE ALEXANDRE HERCULANO

Apesar de ser um nome fundamental da literatura e da História de Portugal, o Ministério da Cultura não vai dedicar nenhum programa comemorativo ao bicentenário de Herculano que ocorre no próximo domingo.
A data vai ser assinalada por organizações privadas.
EM LISBOA: A comemoração foi organizada pelo Grémio Literário, onde Herculano foi sócio-fundador e vai decorrer na Sala dos Capítulos do Mosteiro dos Jerónimos, junto ao túmulo do escritor, historiador e político, com a presença simbólica da Ministra da Cultura e do respectivo secretário do Estado. Será deposta uma coroa de flores, seguindo-se a actuação de um grupo de câmara da Orquestra Metropolitana de Lisboa.
NO PORTO: Cooperativa Árvore, intervenção de Guilherme d'Oliveira Martins, presidente do Centro Nacional de Cultura, que discorrerá sobre Herculano e a sua obra. Leitura de textos. Lançamento do albúm de arte «Cinco Retratos para Herculano». O Jornal de Notícias no domingo incluiu um suplemento especial com um roteiro sobre os locais que mais influenciaram Herculano e uma entrevista de Vasco da Graça Moura, autor de uma tese sobre «Eurico, o presbítero».
POESIA

A GRAÇA
Que harmonia suave
É esta, que na mente
Eu sinto murmurar,
Ora profunda e grave,
Ora meiga e cadente,
Ora que faz chorar?
Porque da morte a sombra,
Que para mim em tudo
Negra se reproduz,
Se aclara, e desassombra
Seu gesto carrancudo,
Banhada em branda luz?
Porque no coração
Não sinto pesar tanto
O férreo pé da dor,
E o hino da oração,
Em vez de irado canto,
Me pede íntimo ardor?
És tu, meu anjo, cuja voz divina
Vem consolar a solidão do enfermo,
E a contemplar com placidez o ensina
De curta vida o derradeiro termo?
Oh, sim!, és tu, que na infantil idade,
Da aurora à frouxa luz,
Me dizias: «Acorda, inocentinho,
Faz o sinal da Cruz.»
És tu, que eu via em sonhos, nesses anos
De inda puro sonhar,
Em nuvem d'ouro e púrpura descendo
Coas roupas a alvejar.
És tu, és tu!, que ao pôr do Sol, na veiga,
Junto ao bosque fremente,
Me contavas mistérios, harmonias
Dos Céus, do mar dormente.
És tu, és tu!, que, lá, nesta alma absorta
Modulavas o canto,
Que de noite, ao luar, sozinho erguia
Ao Deus três vezes santo.
És tu, que eu esqueci na idade ardente
Das paixões juvenis,
E que voltas a mim, sincero amigo,
Quando sou infeliz.
Sinta a tua voz de novo,
Que me reboca a Deus:
Inspira-me a esperança,
Que te seguiu dos Céus!...

Este poema integra a antologia 100 poemas para SMS, compilada por valter hugo mãe e Jorge Reis-Sá.

A VITÓRIA E A PIEDADEI
Eu nunca fiz soar meus pobres cantos
Nos Paços dos senhores!
Eu jamais consagrei hino mentido
Da terra dos opressores.
Mal haja o trovador que vai sentar-se
À porta do abastado,
O qual com ouro paga a própria infâmia,
Louvor que foi comprado.
Desonra àquele, que ao poder e ao ouro
Prostitui o alaúde!
Deus à poesia deu por alvo a pátria,
Deu a glória e a virtude.
Feliz ou infeliz, triste ou contente,
Livre o poeta seja,
E em hino isento a inspiração transforme
Que na sua alma adeja.

FRASES DE HERCULANO

O homem é mais propenso a contentar-se com as ideias dos outros, do que a reflectir e a raciocinar.

Eu não me envergonho de corrigir os meus erros e mudar de opinião, porque não me envergonho de raciocinar e aprender.

Querer é quase sempre poder: o que é excessivamente raro é o querer.

Feliz a alma vulgar e rude que crê, e nem sempre sabe que a dúvida existe no mundo!

O segredo da felicidade é encontrar a nossa alegria na alegria dos outros.

A ingratidão é o mais horrendo de todos os pecados
Saber resistir à violência é forte, mas vulgar; saber resistir à calúnia e aos motejos é maior esforço e mais raro.

É erro vulgar confundir o desejar com o querer. O desejo mede os obstáculos; a vontade vence-os.

Quanto mais conheço os homens, mais estimo os animais.
As lágrimas de piedade consolam quando é um amigo que as derrama.

Que a tirania de dez milhões se exerça sobre um indivíduo, que a de um indivíduo se exerça sobre dez milhões, é sempre tirania, é sempre uma coisa abominável.

Das definições possíveis do homem, uma só é verdadeira: o homem é o animal que disputa.

Dai às paixões todo o ardor que puderes, ao prazeres mil vezes mais intensidade, aos sentidos a máxima energia e convertereis o mundo em paraíso, mas tirai dele a mulher, e o mundo será um ermo melancólico, os deleites serão apenas o prelúdio do tédio...



Alexandre Herculano foi um poeta português nascido em Lisboa em 1810. Escreveu também teatro e romance. Enquadra-se na época do romancismo. Para além de escritor foi historiador e jornalista. Morreu em Santarém em 1877.

MAIS SOBRE ALEXANDRE HERCULANO
http://pt.wikipedia.org/wiki/Alexandre_Herculano#Algumas_obras_dispon.C3.ADveis_em_formato_digital_na_Internet

quarta-feira, 24 de março de 2010

FRUSTRAÇÃO - ULISSES - JAMES JOYCE

Nunca consegui ler este livro, já fiz várias tentativas, mas...acaba por ser posto de lado, no entanto ainda não desisti de o ler.
Até tive que ler a Ilíada de Homero, na qual se baseia o livro...mas a linguagem de James Joyce é que me tem desmotivado.


Vi uma peça de teatro, interpretada por Graça Lobo, há uns anos, que tinha por título «MOLLY» e suscitou um certo escândalo!...



RESUMO DE ULISSES - A 16 de Junho de 1904, Leopold Bloom, um judeu irlandês, sai de casa para comprar os rins que a mulher adora comer ao pequeno-almoço, ir à Posta Restante buscar as cartas de amor da amante, cumprir as suas obrigações de angariador de publicidade e assistir ao enterro de um velho conhecido no cemitério.
O Sr. Bloom, como Ulisses através dos mares, vai ser arrastado através de Dublin numa odisseia trivial e aventureira. A ilha dos Lotófagos, a gruta de Polifemo e a caverna de Circe, tomam aqui nomes de praças de Dublin, de bares e de bordéis irlandeses. Nausicaa, Penélope, Telémaco e os pretendentes são pessoas que vai encontrando, uma cantora, um jovem professor de História falador e boémio, um velho empresário corrupto ou ébrios eloquentes. Será apenas na madrugada seguinte, bem comido e melhor bebido, que Leopold Bloom regressará a casa (Ítaca), após ter sido expulso de um bar por um sujeito intratável, depois também de ter apanhado no bordel uma bebedeira memorável que termina num pandemónio fabuloso. História da vida de um pobre diabo judeu irlandês, enganado pela mulher e que corre atrás de qualquer saia que lhe passa perto.
Terá pelo caminho refeito todo o percurso da História, paródica e sublime, a história de tudo o que a Humanidade inventou para atravessar a terra: línguas, culturas, metafísicas, filosofias, teologias, erotismos, ritos, brincadeiras, preces, magias, sem esquecer o whisky, o vinho tinto e os rins fritos em manteiga, sem esquecer também os prodígios da palavra humana, única alavanca de Arquimedes que poderia, sem ponto de apoio, levantar o mundo.
'Ulisses' foi escrito pelo irlandês James Joyce quando vivia modestamente em Paris. Joyce passou alguns anos escrevendo a sua obra-prima, hoje considerada um divisor de águas da literatura mundial. Existe um antes e um depois de 'Ulisses'. O livro que criou formas inusitadas de expressão, que inaugurou uma nova linguagem, que inventou voz e estilo, e que por muito tempo, também por suas transgressões, permaneceu censurado.
SOBRE JAMES JOYCE EM:
http://pt.wikipedia.org/wiki/James_Joyce

segunda-feira, 22 de março de 2010

domingo, 21 de março de 2010

DIA DA POESIA



LVIIMudam-se os tempos, mudam-se as vontades,
Muda-se o ser, muda-se a confiança:
Todo o mundo é composto de mudança,
Tomando sempre novas qualidades.


Continuamente vemos novidades,
Diferentes em tudo da esperança:
Do mal ficam as mágoas na lembrança,
E do bem (se algum houve) as saudades.


O tempo cobre o chão de verde manto,
Que já coberto foi de neve fria,
E em mim converte em choro o doce canto.


E afora este mudar-se cada dia,
Outra mudança faz de mor espanto,
Que não se muda já como soía.


CAMÕES

PRIMAVERA - BOTTICELLI





































sábado, 20 de março de 2010

JUDITH TEIXEIRA (1880-1959)

Judite Teixeira nasceu em 1880 em Viseu e foi baptizada, como filha natural de Maria do Carmo, não constando do assento do baptismo o nome do pai. Em 1907 foi perfilhada por Francisco dos Reis Ramos, alferes de Infantaria. Era então solteira e residia em Lisboa. Algum tempo depois terá casado com Jaime Levy Azancot, mas em 1913 o casamento foi dissolvido, tendo sido acusada de adultério e abandono do domicílio legal. Em 1914, no Bussaco, casou com Álvaro Virgílio de Franco Teixeira. É na década dos seus quarenta anos, entre 1922 e 1927, que publicou todos os seus livros e dirigiu a revista Europa. Foi atacada violentamente na imprensa conservadora pelas "vergonhas sexuais" e "versalhadas ignóbeis" que escrevia. O seu livro Decadência (1923) foi apreendido, juntamente com os livros de António Botto e Raul Leal, pelo Governo Civil de Lisboa na sequência de uma campanha, liderada pela conservadora Liga de Acção dos Estudantes de Lisboa, contra "os artistas decadentes, os poetas de Sodoma, os editores, autores e vendedores de livros imorais".
Em 1927 encontrava-se ausente de Portugal, como se depreende de uma nota inserida no fim do livro Satânia, o último que publicou. Não se sabe nada dos últimos trinta e dois anos da sua vida; morreu em 1959, residindo então em Lisboa. Segundo o assento de óbito, morreu viúva, sem deixar filhos nem bens.










Há pouca informação na net, sobre Judite Teixeira a única que consegui, foi de António Manuel Couto Viana, in Coração Arquivista, Lisboa, Verbo, de que transcrevo alguns fragmentos:

E as «orgias de morfina» — a droga a que a poetisa chamava «a minha amante» («Dizem que eu tenho amores contigo / Deixa-os dizer! ... / Eles sabem lá o que há de sublime, / nos meus sonhos de prazer ») — que indignação terão causado, assim confessadas, com soberano despudor! (Na longínqua Macau, outro poeta, Camilo Pessanha, ia sumindo-se, aos poucos, «como faz um verme», sorvendo a fundos haustos pelo longo cachimbo de bambu o ópio da evasão.) Pasmo que qualquer dos poemas citados não tenha merecido à sensibilidade e cultura de Natália Correia a inclusão na sua Antologia de Poesia Portuguesa Erótica e Satírica, onde alguns talvez menos autênticos se coligiram. E pasmo que Judith Teixeira não esteja presente na Antologia da Poesia Feminina Portuguesa que a cultura e sensibilidade de António Salvado organizaram. Porque, apesar da frouxidão e desleixo da forma (quase sempre), há uma personalidade poética original O que não sei / é ser banal» — diz a escritora) a distinguir e a prezar. Mais a mais, ela é a nossa única poetisa «modernista» (Violante de Cisneiros é um criptónimo de Côrtes-Rodrigues e Fernanda de Castro, com ser moderna, nunca foi «modernista». Muito menos Florbela, Virgínia Vitorino, Laura Chaves... — as mulheres-poetas da época). O segundo livro de Judith Teixeira, Castelo de Sombras, apresentava-se muito mais discreto que o primeiro. Em tudo. Decadência era um volume fascinantemente luxuoso, num formato de livro de arte, em excelente papel e com apurado arranjo tipográfico, tendo a enriquecê-lo a gravura da capa, a cores, da autoria do pintor «modernista» Carlos Porfírio, que foi o director de Portugal Futurista. Castelo de Sombras mantinha o bom gosto gráfico, o grande formato (embora menor que o de Decadência), mas o conteúdo perdera ousadia, «a vertigem sagrada da luxúria» que exigia Raul Leal, o profeta Henoch, para o mais sublime culto estético. («A luxúria é uma força!» gritava Valentine de Saint-Point, com quem Judith Teixeira se identifica, proclamando na sua conferência De Mim: «A luxúria é uma fonte dolorosa e sagrada de cujo seio violento corre, cantando e sofrendo, o ritmo harmonioso das nossas sensações!»)…/…
É irresistível: leio as poesias de Judith Teixeira e, separando muito trigo de muito joio, penso-as merecedoras de melhor sorte do que o silêncio, a ignorância, a que têm estado votadas».
Esta publicação, saída em 2002, como corolário de umas jornadas dedicadas a José Régio na Universidade de Aveiro, inclui o ensaio de Martim de Gouveia e Sousa intitulado "Régio e Judith Teixeira: um encontro, uma voz e uma 'brasa ardente' de que alguém se lembrará".
POEMAS DE JUDITH TEIXEIRA

Adoro o inverno.
Envolvo-me assim mais no teu carinho,
friorenta e louca...
Nascem-me na alma os beijos
que se vão aninhar na tua boca!...
Gosto da neve a diluir-se ao sol
em risos de cristal!
Vem-me turbar a ânsia do teu rogo...
E a neve fulgente dos meus dentes trémulos,
vai fundir-se na taça ardente,
rubra e original,
na qual eu bebo os teus beijos em fogo!
Tu adormentas a minha dor
na doce sombra dos teus cabelos,
e eu envolvo-me toda nos teus braços
para dormir e sonhar!...
- lá fora que não deixe de chover,
e o vento que não deixe de clamar!
Deixá-lo gritar!
Que importa o seu clamor,
se me abrasa o teu olhar vivíssimo?!...
Atei, meu amor, o fogo em que me exalto...
- Enrola-me mais... ainda mais... no teu afago;
que esta alegria do nosso amor suavíssimo,
será mais forte e gritará mais alto!
Inverno - Sol Posto
1925

A MINHA COLCHA ENCARNADA

Perfumes estonteantes
atiram-me embriagada
sobre os cetins roçagantes
da minha colcha encarnada!

Em espasmos delirantes,
numa posse insaciada -
rasgo as sedas provocantes
em que me sinto enrolada!

Tomo o cetim às mãos cheias..,
Sinto latejar as veias
na minha carne abrasada!

Torcem-me o corpo desejos...
mordendo o cetim com beijos
numa ânsia desgrenhada!
MAIS BEIJOS
Devagar...
outro beijo... outro ainda...
O teu olhar, misterioso e lento,
veio desgrenhar
a cálida tempestade
que me desvaira o pensamento!

Mais beijos!...
Deixa que eu, endoidecida,
incendeie a tua boca
e domine a tua vida!

Sim, amor...
deixa que se alongue mais
este momento breve!...
que o meu desejo subindo
solte a rubra asa
e nos leve!

sexta-feira, 19 de março de 2010

GÉRARD CASTELLO-LOPES


Nasceu em Vichy (França), em 1925. Viveu em Lisboa, Cascais e Estrasburgo, onde fez parte do Corpo Diplomático da Missão Permanente de Portugal junto do Conselho da Europa. Acabou por fixar residência em Paris. Licenciou-se em Economia, mas trabalha profissionalmente nas áreas do cinema, da fotografia e da crítica. Começou a dedicar-se à Fotografia de forma autodidacta. Expôs individual e colectivamente em cidades portuguesas e no estrangeiro: Áustria, Bélgica, Canadá, E.U.A., França, Itália, Japão, Reino Unido, Suíça e Tunísia. O seu trabalho está presente em colecções públicas como a Colecção Nacional de Fotografia (do Centro Português de Fotografia — Porto), a da Secretaria de Estado da Cultura, a da Fundação Calouste Gulbenkian, a da Fundação de Serralves, a Colecção Permanente da FNAC de Paris, a do Carpenter Center for the Visual Arts (Harvard University – E.U.A.) e a do Centre Carré d’Art. Chartres de Bretagne (França).







segunda-feira, 15 de março de 2010

FERNANDO PESSOA vs ANTÓNIO BOTTO

FERNANDO PESSOA SOBRE ANTÓNIO BOTTO

O livro «Ciúme» de António Botto representa uma nova fase da sua fase de sempre. Certos elementos, dos que compõem a essência dos seus poemas, emergem neste livro mais declarada ou distintivamente do que em seus livros anteriores. É esta a diferença, que poderá ser tida por pequena ou por grande consoante a sensibilidade de cada um e a reacção dessa sensibilidade perante uns e outros poemas — os da fase anterior e os da presente.
De um modo geral, ainda que concreto, pode dizer-se que a obra poética de António Botto gira e se anima em torno de quatro ideias, ou estados mentais — a emoção sem paixão, a inteligência das superfícies, o sentimento contraditório, e a ironia emotiva. Estes quatro elementos não são, porém, diversos, desconexos ou simplesmente justapostos: derivam de um mesmo fundo temperamental, que por todos eles igual e concordantemente se manifesta.
Por emoção sem paixão entendo, como sem dificuldades entenderá qualquer, que os estados emotivos do poeta não comportam, nem envolvem, nenhum aprofundamento ou intensificação. António Botto não analisa emotivamente as suas emoções, nem de tal modo nelas se concentra que automaticamente se animem, aqueçam, se convertam em paixões.
Com análise emotiva das emoções — oposição implícita à análise intelectual delas — quero significar aquele estado em que o poeta, ou homem, se concentra sonhadoramente no que sente, e assim o multiplica, o desdobra, o sente diversa e divididamente. Tal estado merece o nome de paixão, não porque envolva intensidade, mas porque implica absorção. Em António Botto não se dá tal estado. As suas emoções são simples e directas, embora os seus sentimentos — isto é, os prolongamentos temperamentais dessas emoções — sejam porventura complicados. Isto, porém, é já outro assunto, de que mais adiante se tratará.
Se não existe em António Botto essa análise emotiva das emoções, tão-pouco existe, ainda menos existe a paixão propriamente dita — aquela exaltação da emoção por meio da qual esta exclui todo outro elemento, e, concentrando-se num ponto ou fito, imprime ao espírito uma unidade emotiva.
Por inteligência das superfícies entendo, como é intuitivo, aquela inteligência que se preocupa tão-somente com os aspectos exteriores das coisas — quer os seres externos, a que comummente chamamos coisas, quer aqueles seres internos, que são as nossas ideias e emoções. Se António Botto pouco se preocupa com a análise emotiva das suas emoções, tão-pouco, ou menos ainda, se preocupa com a análise intelectual delas. Deixa-as passar e fita-as bem. Se por vezes lhes desdobra os mantos, todavia nunca as interroga. «Deixa-me ver como és por fora», diz ele a cada coisa que sente.
Isto ficará mais claro, ou, se se preferir, menos obscuro, se compararmos a acção da inteligência das superfícies com a dos outros tipos de inteligência, a que podemos chamar a inteligencia de aprofundamento e a inteligencia de definição. A primeira busca ir até ao fundo das coisas, à alma e essência dos seres, e pode ser intuitiva e é até por isso mesmo extra-intelectual. A segunda, atenta ao mesmo fito, não pretende consegui-lo por um processo de sondagem, mais análogo à visão que ao entendimento: procura antes, por uma análise paciente da superfície, deduzir dela o fundo, ver nela não o que ela é, mas o que simboliza ou figura. Por isso, na exposição, a inteligência de aprofundamento é normalmente gnómica ou analógica a de definição normalmente raciocinada ou discursiva. E que esta vive mais do processo do que do intuito dele.
É evidente que a inteligência de definição de pouco ou nada serve a um poeta; o seu ritmo é de natureza oposta ao ritmo da emoção, em que a poesia assenta: dá-se uma interferência de ondas, e portanto uma anulação de efeitos, como em Boileau ou Pope, que são prosadores em verso. E a inteligência de aprofundamento, se deveras pode servi-lo muitas vezes estorva com o que dá e confunde com o que afirma; são duas visões simultâneas — uma do fundo, outra da superfície; só quando, o que é raro, exactamente se sobrepõem, surge, como no «Kubla Khan» de Coleridge, uma grande obra de arte, e então como que sobrenatural. Uma e outra valem mais, para o poeta, nos seus reflexos do que nas suas presenças: servem-no desde que ele se não sirva delas. Assim Poe, prodigioso raciocinado, escreveu poemas admiráveis, sem sombra de raciocínio porque sabia raciocinar: o raciocínio ausente está presente no facto de esses poemas não serem, como em substância são, simples loucura. Assim Shakespeare, prodigioso aprofundador, escreveu versos espantosos, sem sombra de aprofundamento, porque sabia aprofundar: a frase, naturalmente, vive da luz que lhe ministra uma presença que lhe é estranha.
Por sentimento contraditório quero dizer aquela subtileza da emoção consigo mesma, pela qual imediatamente compreende que traz sempre em si dois elementos opostos. Toda emoção sentida é a diagonal de um paralelogramo de forças: vive de ambas e a ambas anula. Como toda a vida é, de um modo ou de outro, um sistema de atracção e repulsão, tudo quanto sentimos contém obscuramente duas forças, essas duas forças; e há certos estados de sentimento — entendendo este como a permanência, consciente ou inconsciente, da emoção — em que a diagonal se decompõe, talvez por fraqueza em sentir, nas duas forças de que se forma. Então o espírito toma consciência de cada emoção como dupla, de cada sentimento como a contradição de si mesmo. O homem sente que, ao sentir, é dois. É o odi et amo de Catulo.
Foi sempre esta uma das feições mais constantes, e mais características da obra poética ou outra, de António Botto. Sempre ele se mostrou sentindo o contrário do que estava a sentir. Sempre ele disse, ao mesmo tempo o avesso do que dizia. O mesmo ritmo de todos os seus versos traz, no fluxo audível, o sussurro implícito do refluxo que se lhe vai seguir.
A ironia emotiva nasce naturalmente do sentimento contraditório, desde que a paixão não intervenha, ou a inteligência não seja de aprofundar ou definir. Se a paixão intervém, a contradição do sentimento sofre-se com revolta. Se a inteligência aprofunda ou define, a contradição do sentimento repele-se com raiva. Se, como em António Botto, nem uma nem outra coisa se dá, a contradição do sentimento aceita-se com um sorriso — um sorriso triste, talvez; mas um sorriso triste é, em si mesmo, uma contradição e uma ironia.
Que está, afinal, no fundo de tudo isto? Um temperamento conscientemente emotivo, que, por emotivo exclui tanto a paixão como as formas intensas da inteligência; que, por consciente, conhece as suas contradições e se alimenta da ironia delas. Em resumo, António Botto. E assim o que a análise dividira em quatro, tem a mesma lógica que reconhecer que a vida reunira em um.
Em seus livros anteriores, António Botto afirmara-se mais como só um emotivo sem paixão e um contraditório de sentimentos. Neste, melhor consigo, estabelece-se como também um inteligente das superfícies e um ironista das suas emoções. Em outras palavras, revela-se, agora, o total de si mesmo.
E isto, que se diz em poucas palavras, levou tantas para dizer que se ia dizer!
1935
Textos de Crítica e de Intervenção . Fernando Pessoa. Lisboa: Ática, 1980.
1ª publ. in “Diário de Lisboa”. Mar. 1935.



António Tomás Botto ( 1897 — 1959), nasceu em Concavada, de família humilde. Viveu depois no típico bairro de Alfama em Lisboa, que muito influenciou a sua obra. Recebeu pouca educação formal e trabalhou em livrarias, onde travou conhecimento com muitas das personalidades literárias da época, e foi funcionário público. Também esteve a trabalhar em Angola durante um ano.
O retrato físico e psicológico de António Botto, por quem o conheceu, revela um homem de forte personalidade, sardónico, irónico, malicioso, incisivo, magro, de estatura média, de feições finas, bem vestido e sempre com um chapéu de abas largas.
A sua perversidade e irreverência, trouxe-lhe bastantes inimizades, embora fosse uma pessoa inteligente e bom conversador. Alguns dos seus contemporâneos consideravam-no frívolo, mercurial, mundano, inculto, vingativo, mitómano, maldizente e, sobretudo, terrivelmente narcisista a ponto de ser megalómano.
Era visitante regular dos bairros boémios de Lisboa e das docas marítimas onde desfrutava a companhia dos marinheiros. Apesar de ser sobretudo homossexual, António Botto foi casado até ao final da sua vida com Carminda Silva Rodrigues ("O casamento convém a todo homem belo e decadente", como escreveu).
Em 1942 António Botto foi demitido do seu emprego na função pública, no anúncio publicado no Diário do Governo, está implícita a razão: homossexualidade.

Para se sustentar passou a escrever artigos, colunas e crítica literária em jornais, e publicou vários livros, entre os quais "Os Contos de António Botto" e "O Livro das Crianças", uma colecção de sucesso (que seria oficialmente aprovada como leitura escolar na Irlanda, sob o título The Children’s Book. Mas tudo isto se revelou insuficiente. A sua saúde deteriorou-se devido a sífilis que ele recusava tratar e o brilho da sua poesia começou a desvanecer-se. Era alvo de troça quando entrava nos cafés, livrarias e teatros. Por fim, cansou-se de viver em Portugal e em 1947 decidiu emigrar para o Brasil. Para juntar dinheiro para a viagem organizou, em Maio desse ano, recitais de poesia em Lisboa e no Porto, que resultaram em grandes sucessos, com elogios por parte de vários intelectuais e artistas, entre os quais Amália Rodrigues, João Villaret e o escritor Aquilino Ribeiro. A 17 de Agosto partiu finalmente para o Brasil com a mulher.
No Brasil residiu em São Paulo e depois mudou-se para o Rio de Janeiro. Sobreviveu escrevendo artigos e colunas em jornais Portugueses e Brasileiros, participando em programas de rádio e organizando récitas de poesia em teatros, associações, clubes e, por fim, botequins.
A sua vida foi-se degradando de dia para dia e acabou por viver na mais profunda miséria. A sua megalomania agravada pela sífilis era gritante e não parava de contar histórias delirantes. Quis voltar a Portugal, mas não tinha dinheiro. Em 1959 foi atropelado mortalmente na Avenida Copacabana, no Brasil. Em 1966 os seus restos mortais foram trasladados para Lisboa. O seu espólio foi enviado, pela sua mulher e doado à Biblioteca Nacional.

CANÇÕES, é a sua obra mais conhecida, com carácter abertamente homossexual, que causou grande agitação nos meios religiosamente conservadores. Foi amigo pessoal de Fernando Pessoa que traduziu em 1930 as suas Canções para inglês, e com quem colaborou numa Antologia de Poemas Portugueses Modernos. Homossexual assumido, a sua obra reflecte, o mais distinto conjunto de poesia homoerótica de língua portuguesa.
As Canções de António Botto, foram publicadas com um texto de Fernando Pessoa, de que se transcreve, um fragmento:
A noção de beleza masculina, é de todos os elementos do ideal estético, aquele que mais pode servir de arma contra a opressão do nosso ambiente; daí servir-se António Botto dela com uma constância e uma persistência que há não só que compreender, mas que louvar. António Botto é um esteta grego nascido num exílio longínquo. Ama a Pátria pérfida com a devoção violenta de quem não poderá voltar a ela.

A tempestade desencadeada por Canções e por "Sodoma Divinizada" de Raul Leal, bem como por outras obras e artigos que apareciam nas livrarias e jornais da época de que importa destacar "Decadência" de Judite Teixeira, foi tremenda, e a Federação Académica de Lisboa, tendo como porta-voz Pedro Teotónio Pereira, denuncia no jornal "A Época", em 1923, a "vergonhosíssima desmoralização, que sob os mais repugnantes aspectos, alastra constantemente". Nesse mesmo ano o Governo Civil de Lisboa ordena a apreensão dos livros de Botto, Raul Leal e Judite Teixeira.
Fernando Pessoa e Álvaro de Campos protestam contra o ataque dos estudantes a Raul Leal:
"Ó meninos: estudem, divirtam-se e calem-se. (...) Divirtam-se com mulheres, se gostam de mulheres; divirtam-se de outra maneira, se preferem outra. Tudo está certo, porque não passa do corpo de quem se diverte. Mas quanto ao resto, calem-se. Calem-se o mais silenciosamente possível". Mas com pouco efeito. O impulso censório, moralista, obscurantista e homofóbico, ganha força com o regime do Estado Novo e a revista "Ordem Nova" declara-se "antimoderna, antiliberal, antidemocrática, antibolchevista e antiburguesa; contra-revolucionária; reaccionária; católica, apostólica e romana; monárquica; intolerante e intransigente; insolidária com escritores, jornalistas e quaisquer profissionais das letras, das artes e da informação". António Botto acaba por se ver forçado a emigrar para o Brasil e Raul Leal será vítima de espancamentos e deixará de escrever para jornais durante 23 anos.

JORGE DE SENNA SOBRE ANTÓNIO BOTTO:

«A vasta obra poética de Botto, em parte ainda dispersa ou não-recoligida, apesar de e também pelo muito que ele publicou, republicou, reorganizou em volumes dispersos ou suprimia de volumes anteriores, etc., poderá repartir-se em quatro fases: a juvenil, em que continua o tom da quadra dita popular, conjugando-o com aspectos da dicção simbolista que poetas como Correia de Oliveira, Augusto Gil, e sobretudo Lopes Vieira haviam introduzido nela; a simbolístico esteticista, em que a juvenilidade tradicionalizante se literaliza dos requebros esteticistas que marcaram, nos anos 20, muita poesia simultaneamente da tradição saudosista e modernista (é a das primeiras edições das Canções e breves plaquetes seguintes, em que todavia a personalidade do poeta já figura inteira em diversos poemas); a fase pessoal e original, nos anos 30, desde as edições de 1930-32 das canções (em que ele ia incorporando selecções de colectâneas anteriores) até a Vida Que Te Dei e Os Sonetos (fase que é também a dos seus excepcionais contos infantis (fase que é também a dos seus excepcionais contos infantis que tiveram realmente as edições estrangeiras que se julgava ser uma das mentiras megalomaníacas do poeta, da «novela dramática» António, e da peça Alfama); e a última fase, nos anos 40 e 50, até à morte que é a de uma longa e triste decadência, com poemas desvairadamente oportunistas, revisões desastrosas afectando nas reedições alguns dos melhores poemas anteriores [...] ».Líricas Portuguesas/ Jorge de Sena

As sucessivas e confusas edições das suas obras, as inexactidões bibliográficas de toda a ordem em notas e apontamentos (até sobre o local e data do nascimento do poeta correm variadas versões) contribuíram para a mistificação duma obra cujo brilho, porém, nada logrou esmorecer. Óbices desta natureza também não impediram que fosse extremamente significativo o reconhecimento de grandes personagens das letras estrangeiras que a Botto se referiram em termos de louvor. Unamuno, Garcia Lorca, António Machado, Ramon Jiménez, Gide, Valéry, Pirandello, Malaparte, Mário de Andrade, Jorge de Lima, Lins do Rego, Gabriela Mistral foram unânimes em saudar nas canções o aparecimento de um grande poeta moderno. Em Portugal, a repercussão não foi menor. Manuel Teixeira Gomes prefaciou, as Canções com um estudo crítico que Fernando Pessoa verteu para inglês. O próprio Pessoa veio a prefaciar a novela António, cuja edição original era também acompanhada por uma carta de Guerra Junqueiro. No volume de prosa, Cartas que me foram devolvidas surgiram ensaios críticos de Fernando Pessoa e José Régio e, finalmente, João Gaspar Simões também contribuiu com algumas páginas de crítica no prefácio ao volume Ciúme." Dicionário Biográfico Universal de Autores

Fernando Pessoa e António Botto elaboram em conjunto uma Antologia de Poemas Portugueses Modernos, tendo Fernando Pessoa falecido antes de concluir a obra. Em "Marginália" António Botto dedica-lhe um poema com as seguintes palavras:

"[...] E como grande poeta que será, dou-lhe a mais sincera homenagem fixando o seu nome, o de Álvaro de Campos, o de Alberto Caeiro e de Ricardo Reis, que são os seus nomes também, nestas páginas que a sua límpida e funda inteligência crítica, comigo apartou, para regalo daqueles que saibam ler e sentir"
À memória de Fernando Pessoa - António Botto

Se eu pudesse fazer com que viesses
Todos os dias, como antigamente,
Falar-me nessa lúcida visão
–Estranha, sensualíssima, mordente;
Se eu pudesse contar-te e tu me ouvisses,
Meu pobre e grande e genial artista,
O que tem sido a vida – esta boémia
Coberta de farrapos e de estrelas,
Tristíssima, pedante, e contrafeita,
Desde que estes meus olhos numa névoa
De lágrimas te viram num caixão;
Se eu pudesse, Fernando, e tu me ouvisses,
Voltávamos à mesma: Tu, lá onde
Os astros e as divinas madrugadas
Noivam na luz eterna de um sorriso;
E eu, por aqui, vadio de descrença
Tirando o meu chapéu aos homens de juízo…
Isto por cá vai indo como dantes;
O mesmo arremelgado idiotismo
Nuns senhores que tu já conhecias
– Autênticos patifes bem falantes…
E a mesma intriga: as horas, os minutos,
As noites sempre iguais, os mesmos dias,
Tudo igual! Acordando e adormecendo
Na mesma cor, do mesmo lado, sempre
O mesmo ar e em tudo a mesma posição
De condenados, hirtos, a viver
–Sem estímulo, sem fé, sem convicção…
Poetas, escutai-me. Transformemos
A nossa natural angústia de pensar
–Num cântico de sonho!, e junto dele,
Do camarada raro que lembramos,
Fiquemos uns momentos a cantar!

POESIAS DE ANTÓNIO BOTTO

I
Não beijemo-nos apenas
Nesta agonia da tarde.
Guarda -
Para outro momento,
Teu viril corpo trigueiro.
O meu desejo não arde
E a convivência contigo
Modificou-me - sou outro...
A névoa da noite cai.
Já mal distingo a cor fulva
Dos teus cabelos - És lindo!
A morte
Devia ser
Uma vaga fantasia!
Dá-me o teu braço: - não ponhas
Esse desmaio na voz.
Sim, beijemo-nos, apenas!
- Que mais precisamos nós?

*

O que desejei às vezes
O que desejei às vezes
Diante do teu olhar,
Diante da tua boca!

Quase que choro de pena
Medindo aquela ansiedade
Pela de hoje - que é tão pouca!

Tão pouca que nem existe!

De tudo quanto nós fomos,
Apenas sei que sou triste.


António Botto
Aves de Um Parque Real
As Canções de António Botto
Editorial Presença
1999
MAIS POESIAS DE ANTÓNIO BOTTO EM:http://poesiaseprosas.no.sapo.pt/antonio_botto/poetas_antoniobotto_oquedesejei01.htm - http://www.revista.agulha.nom.br/an01.html

domingo, 14 de março de 2010

BACH - CONCERTO PARA VIOLINO E ORQUESTRA nº. 2

CONCERTO PARA VIOLINO E ORQUESTRA Nº.2
ALLEGRO


ADAGIO (ESTE ADAGIO LEVA-ME ÀS LÁGRIMAS)



ALEGRETTO ASSAI

quarta-feira, 10 de março de 2010

Pintor: ALMADA NEGREIROS

[Carta de Fernando Pessoa a Camilo Pessanha - 1915?]


Ex.mo Senhor Dr. Camilo Pessanha, Macau
Há anos que os poemas de V. Exa. são muito conhecidos, e invariavelmente admirados, por toda Lisboa. É para lamentar — e todos lamentam — que eles não estejam, pelo menos em parte, publicados. Se estivessem inteiramente escondidos da publicidade, nas laudas ocultas dos seus cadernos, esta abstinência da publicidade seria, da parte de V. Exa., lamentável mas explicável. O que se dá, porém, não se explica; visto que, sendo de todos mais ou menos conhecidos esses poemas, eles não se encontram acessíveis a um público maior e mais permanente na forma normal da letra redonda.
É sobre este assunto que assumo a liberdade de escrever a V. Exa. Decerto que V. Exa. de mim não se recorda. Duas vezes apenas falámos, no “Suíço”, e fui apresentado a V. Exa. pelo general Henrique Rosa. Logo da primeira vez que nos vimos, fez-me V. Exa. a honra, e deu-me o prazer, de me recitar alguns poemas seus. Guardo dessa hora espiritualizada uma religiosa recordação. Obtive, depois, pelo Carlos Amaro, cópias de alguns desses poemas. Hoje, sei-os de cor, aqueles cujas cópias tenho, e eles são para mim fonte continua de exaltação estética.
Não escrevo estas coisas a V. Exa. para seu mero agrado, adulando. Elas são a expressão sincera do modo como sinto as composições a que me reporto. Nem sequer cito este prazer, que os seus poemas me deram, com o restrito fim de apoiar em frases que possivelmente sensibilizem o pedido que venho fazer. A ordem dos factos é outra: é porque muito admiro esses poemas, e porque muito lamento o seu actual carácter de inéditos (quando, aliás, correm, estropiados, de boca em boca nos cafés) a que ouso endereçar a V. Exa. esta carta, com o pedido que contém.
Sou um dos directores da revista trimestral de literatura “Orpheu”. Não sei se V. Exa. a conhece; é provável que a não conheça. Terá talvez lido, casualmente, alguma das referências desagradáveis que a imprensa portuguesa nos tem feito. Se assim é, é possível que essa notícia o tenha impressionado mal a nosso respeito, se bem que eu faça a V. Exa. a justiça de acreditar que pouco deve orientar-se, salvo em sentido contrário, pela opinião dos meros jornalistas. Resta explicar o que é “Orpheu”. É uma revista, da qual saíram já dois números; é a única revista literária a valer que tem aparecido em Portugal, desde a “Revista de Portugal”, que foi dirigida por Eça de Queirós. A nossa revista acolhe tudo quanto representa a arte avançada; assim é que temos publicado poemas e prosas que vão do ultra-simbolismo até ao futurismo. Falar do nível que ela tem mantido será talvez inábil, e possivelmente desgracioso. Mas o facto é que ela tem sabido irritar e enfurecer, o que, como V. Exa. muito bem sabe, a mera banalidade nunca consegue que aconteça. Os dois números não só se têm vendido, como se esgotaram, o primeiro deles no espaço inacreditável de três semanas. Isto alguma coisa prova — atentas as condições artisticamente negativas do nosso meio — a favor do interesse que conseguimos despertar. E serve ao mesmo tempo de explicação para o facto de não remeter a V. Exa. os dois números dessa revista. Caso seja possível arranjá-los, enviá-los-emos sem demora.
O meu pedido — tenho, reparo agora, tardado a chegar a ele — é que V. Exa. permitisse a inserção, em lugar de honra do terceiro número, de alguns dos seus admiráveis poemas. Em geral publicamos em cada número bastante colaboração de cada autor, de modo que, apesar de a revista ter 80 páginas, os colaboradores de cada número não têm passado de 7 (8). Isto é para indicar que sobremaneira estimaríamos que nos concedesse a honra de publicar umas dez a vinte páginas de sua colaboração. Entre os poemas que era empenho nosso inserir contam-se os seguintes: “Violoncelos”, “Tatuagens”, “O Estilita” (só conheço, deste, o segundo soneto), “Castelo de Óbidos”, “O Tambor”, “Nocturno”, “Passeio no Jardim”, “Ao longe os barcos de flores”, “O meu coração desce...”, “ Passou o Outono já”, “Floriram por engano as rosas bravas...”, “O Fonógrafo”. Ao soneto que considero o maior de todos os seus, e é sem dúvida um dos maiores que tenho lido — “Regresso ao Lar” — , não me refiro, visto que o seu assunto, infelizmente, inibe (e creio ser essa a vontade de V. Exa.) que ele se publique.
Podia V. Exa. fazer-nos o favor que pedimos? Nós não pedimos só por nós, mas por todos quantos amam a arte em Portugal; não serão muitos, mas, talvez por isso mesmo, merecem mais carinhosa atenção dos poetas. Se fosse possível enviar-nos mais colaboração do que esta que indiquei, dobrado seria o favor, e sobradamente honradas as páginas da nossa revista.
Como correm por aqui várias versões, mesmo escritas, dos seus poemas, pedíamos que — caso quisesse anuir ao nosso pedido, no que julgamos que não terá dúvida — ou nos enviasse cópia exacta deles, ou — caso isso o incomodasse — nos indicasse a quem, aqui, nos devamos dirigir para obter essas cópias.
Como nos parece que estamos abusando do tempo e da paciência de V. Exa., e como esta carta segue registada, basta-nos, para resposta, um postal — ainda que uma carta registada, contendo as cópias ou a indicação pedida, fosse preferível — , ou, caso V. Exa. não queira dar-se ao incómodo de nos enviar esse postal, basta (cremos não abusar combinando assim) que V. Exa. não nos responda negativamente para nos considerarmos autorizados. Nesse caso guiar-nos-emos pelas cópias que nos parecerem mais conformes à constante psíquica do seu pensamento poético. O preferível, porém, era que V. Exa. nos enviasse as cópias dos poemas.
Confessando-me, pelo “Orpheu”, desde já altamente grato e honrado com o envio dos seus poemas, subscrevo-me, com o maior respeito e admiração.

Páginas de Estética e de Teoria Literárias. Fernando Pessoa. (Textos estabelecidos e prefaciados por Georg Rudolf Lind e Jacinto do Prado Coelho.) Lisboa: Ática, 1966.

Camilo de Almeida Pessanha nasceu em Coimbra em 1867, fruto da ligação ilícita entre um aristocrata estudante de direito e uma empregada doméstica. Fez os estudos normais em Lamego e depois formou-se em Direito na Universidade de Coimbra. Partiu, três anos mais tarde, para Macau, onde deu aulas de filosofia.
Os seus poemas foram publicados, pela primeira vez, em 1899 - não devido aos esforços de Camilo Pessanha, mas dos amigos. Foram eles que os fizeram chegar às revistas literárias. Foi assim que se tornou uma referência para a geração de Orpheu, que tinha como figuras de proa Fernando Pessoa e Mário de Sá-Carneiro.
Camilo Pessanha fazia parte do Simbolismo, movimento proveniente de França e da Alemanha, que procurava expressar a realidade através de símbolos. A sua poesia é melancólica e pessimista, como podemos depreender em, “Castelo de Óbidos”:

CASTELO DE ÓBIDOS
Quando se erguerão as seteiras,
Outra vez, do castelo em ruína,
E haverá gritos e bandeiras
Na fria aragem matutina?
Se ouvirá tocar a rebate
Sobre a planície abandonada?
E sairemos ao combate
De cota e elmo e a longa espada?
Quando iremos, tristes e sérios,
Nas prolixas e vãs contendas.
Soltando juras, impropérios,
Pelas divisas e legendas?
.......................................
.......................................
.......................................
.......................................
E voltaremos, os antigos
E puríssimos lidadores,
(Quantos trabalhos e perigos!)
Quase mortos e vencedores?
E quando, ó Doce Infanta Real,
Nos sorrirás do belveder?
– Magra figura de vitral,
Por quem nós fomos combater...
O meu coração desce, Um balão apagado...
Melhor fora que ardesse,
Nas trevas, incendiado.Na bruma fastidienta,
Como um caixão à cova...
– Porque antes não rebenta
De dor violenta e nova?!
Que apego ainda o sustém? Átomo miserando...
– Se o esmagasse o trem
Dum comboio arquejando!...
O inane, vil despojo
Da alma egoísta e fraca!
Trouxesse-o o mar de rojo,
Levasse-o na ressaca.

Em muitas das suas obras, mostrava uma tristeza absoluta e viscosa, de que era impossível fugir, como uma doença. A dor dilacerava.
Em 1900 Pessanha ocupou a função de conservador do Registo Predial de Macau. Ao mesmo tempo, ia estudando a cultura chinesa. Aproveitou o conhecimento da língua para traduzir poemas de autores locais.
Regressou algumas vezes a Portugal. Um dos seus melhores amigos era Alberto Osório de Castro, irmão da escritora e feminista Ana de Castro Osório. Pessanha apaixonou-se perdidamente por ela. Um amor não correspondido que durou a vida inteira. Ana de Castro Osório viria a ser uma das responsáveis pela publicação do livro: “Clepsidra”.



Regressou a Macau onde acabou por morrer. O consumo diário de ópio provocou-lhe a morte em 1926. Camilo Pessanha revelou-se essencial para a poesia portuguesa. Sem ele, autores como Cesário Verde e Eugénio de Andrade não teriam encontrado um mestre.

SIMBOLISMO - Movimento literário que surge em finais do século XIX e que tem por base o conceito de símbolo . Com Baudelaire como um dos mais influentes precursores, esta arte da sugestão é teorizada em 1886 por Jean Moréas com o seu “Manifeste Littéraire de l’École Symboliste”, publicado no Figaro. A este escritor juntam-se nomes como Rimbaud, Mallarmé, Paul Verlaine e outros.
Em Portugal, o Simbolismo, de origem francesa e com uma enorme influência de Verlaine, está intrinsecamente ligado à noção de decadência e ao pessimismo próprio desta. É uma corrente que reage contra o positivismo científico, o materialismo, a disciplina e o realismo parnasiano. Procura a espiritualidade, a transcendência física, a imaginação, proclama o ideal (parnasiano) da arte pela arte e afirma-se sobretudo na poesia (a poesia pela poesia).
Apesar de este movimento ter sido introduzido por Eugénio de Castro, seria Camilo Pessanha o expoente máximo do Simbolismo em Portugal, publicando já em 1887 o tríptico de sonetos simbolistas mais tarde intitulado “Caminho” e que viria a fazer parte da Clepsydra.
A poesia de Camilo Pessanha reúne os aspectos mais marcantes da escola simbolista. Aliado ao conceito de símbolo, encontramos a arte da sugestão que em Pessanha se traduz na utilização da técnica impressionista, na imagem visual e sonora, com a finalidade de sugerir sensações e convidar o leitor a interpretar estados de alma, sem nunca se deter “na descrição que levaria à objectividade. O termo “decadência”, também fulcral na poesia simbolista, está bem espelhado no pessimismo de Pessanha, na sua angústia que também é a do povo português, na sua “lírica da agonia, do afogamento, do naufrágio”, no saudosismo do “poeta das coisas interiores e fugidias, da realidade depurada, subjectiva, irreal. Recorda interior e não exterior, pessoal e não social, íntimas sensações, sentimentos e visões”



CAMINHO

I

Tenho sonhos cruéis; n'alma doente
Sinto um vago receio prematuro.
Vou a medo na aresta do futuro,
Embebido em saudades do presente...

Saudades desta dor que em vão procuro
Do peito afugentar bem rudemente,
Devendo, ao desmaiar sobre o poente,
Cobrir-me o coração dum véu escuro!...

Porque a dor, esta falta d'harmonia,
Toda a luz desgrenhada que alumia
As almas doidamente, o céu d'agora,

Sem ela o coração é quase nada:
Um sol onde expirasse a madrugada,
Porque é só madrugada quando chora.

II

Encontraste-me um dia no caminho
Em procura de quê, nem eu o sei.
--- Bom dia, companheiro --- te saudei,
Que a jornada é maior indo sozinho.

É longe, é muito longe, há muito espinho!
Paraste a repousar, eu descansei...
Na venda em que poisaste, onde poisei,
Bebemos cada um do mesmo vinho.

É no monte escabroso, solitário.
Corta os pés como a rocha dum calvário,
E queima como a areia!... Foi no entanto

Que chorámos a dor de cada um...
E o vinho em que choraste era comum:
Tivemos que beber do mesmo pranto.

III

Fez-nos bem, muito bem, esta demora:
Enrijou a coragem fatigada...
Eis os nossos bordões da caminhada,
Vai já rompendo o sol: vamos embora.

Este vinho, mais virgem do que a aurora,
Tão virgem não o temos na jornada...
Enchamos as cabaças: pela estrada,
Daqui inda este néctar avigora!...

Cada um por seu lado!... Eu vou sozinho,
Eu quero arrostar só todo o caminho,
Eu posso resistir à grande calma!...

Deixai-me chorar mais e beber mais,
perseguir doidamente os meus ideais,
E ter fé e sonhar --- encher a alma.


VIOLONCELO
Chorai arcadas
Do violoncelo!
Convulsionadas,
Pontes aladas
De pesadelo...
De que esvoaçam,
Brancos, os arcos...
Por baixo passam,
Se despedaçam,
No rio, os barcos.
Fundas, soluçam
Caudais de choro...
Que ruínas (ouçam)!
Se se debruçam,
Que sorvedouro!...
Trémulos astros...
Solidões lacustres...
– Lemos e mastros...
E os alabastros
Dos balaústres!
Urnas quebradas!
Blocos de gelo...
– Chorai arcadas,
Despedaçadas,
Do violoncelo.

TATUAGENS COMPLICADAS DO MEU PEITO

Tatuagens complicadas do meu peito:
Troféus, emblemas, dois leões alados...
Mas, entre corações engrinaldados,
Um enorme, soberbo, amor-perfeito...

E o meu brasão... Tem de oiro, num quartel
Vermelho, um lis; tem no outro uma donzela,
Em campo azul, de prata o corpo, aquela
Que é no meu braço como que um broquel.
Timbre: rompante, a megalomania...
Divisa: um ai, - que insiste noite e dia
Lembrando ruínas, sepulturas rasas...

Entre castelos serpes batalhantes,
E águias de negro, desfraldando as asas,
Que realça de oiro um colar de besantes

FLORIRAM POR ENGANO AS ROSAS BRAVAS

Floriram por engano as rosas bravas
No Inverno: veio o vento desfolhá-las...
Em que cismas, meu bem? Porque me calas
As vozes com que há pouco me enganavas?

Castelos doidos! Tão cedo caístes!...
Onde vamos, alheio o pensamento,
De mãos dadas? Teus olhos, que num momento
Perscrutaram nos meus, como vão tristes!

E sobre nós cai nupcial a neve,
Surda, em triunfo, pétalas, de leve
Juncando o chão, na acrópole de gelos...

Em redor do teu vulto é como um véu!
Quem as esparze --- quanta flor! --- do céu,
Sobre nós dois, sobre os nossos cabelos?

QUEM POLUIU, QUEM RASGOU OS MEUS LENCÓIS DE LINHO

Quem poluiu, quem rasgou os meus lençóis de linho,
Onde esperei morrer, - meus tão castos lençóis?
Do meu jardim exíguo os altos girassóis
Quem foi que os arrancou e lançou ao caminho?

Quem quebrou (que furor cruel e simiesco!)
A mesa de eu cear, - tábua tosca, de pinho?
E me espalhou a lenha? E me entornou o vinho?
- Da minha vinha o vinho acidulado e fresco...

Ó minha pobre mãe!... Não te ergas mais da cova.
Olha a noite, olha o vento. Em ruína a casa nova...
Dos meus ossos o lume a extinguir-se breve.

Não venhas mais ao lar. Não vagabundes mais,
Alma da minha mãe... Não andes mais à neve,
De noite a mendigar às portas dos casais.



Camilo Pessanha
Clepsidra
e outros poemas
Colecção Poesia
Edições Ática

segunda-feira, 8 de março de 2010

DIA DA MULHER...

Maria Teresa Horta, é um símbolo do feminismo e não sou em Portugal. Tornou-se conhecida, quando com Maria Velho da Costa e Isabel Barreno, escreveram o livro «NOVAS CARTAS PORTUGUESAS». Livro nessa altura provocatório, para o regime em que se vivia e para a sociedade ultra-conservadora de então. Nesse livro as mulheres falavam do seu corpo, dos seus desejos e dos seus anseios, ie a MULHER FALAVA DE E POR SI.
Este caso, levou as escritores à barra dos tribunais e influiu bastante nas suas vidas pessoais e profissionais. Foi com imenso prazer que ouvi ontem, uma entrevista da Maria Teresa Horta, na qual, entre muitas coisas, disse:
As feministas seguiram o caminho de luta das sufragistas…a forma com que eram tratadas, inclusive na sua tendência sexual era ironia «as feministas são mais mulheres…as outras eram as parvas…»
Sempre gostei de saltar fogueiras…uma associação às feiticeiras, as primeiras feministas, com todos aqueles sortilégios…
Tenho medo de ter medo…
O meu encontro mais fundamental na vida foi o encontro com a escrita dos outros e depois com a minha própria escrita…
Quero ser conhecida como, uma MULHER APAIXONADA E SENHORA DE SI...

Joelho

Ponho um beijo
demorado
no topo do teu joelho
Desço-te a perna
arrastando
a saliva pelo meio
Onde a língua
segue o trilho
até onde vai o beijo
Não há nada
que disfarce
de ti aquilo que vejo
Em torno um mar
tão revolto
no cume o cimo do tempo
E os lençóis desalinhados
como se fosse
de vento
Volto então ao teu
joelho
entre
abrindo-te as pernas
Deixando a boca
faminta
seguir o desejo nelas.
Maria Teresa Horta

domingo, 7 de março de 2010

RICHARD AVEDON (1923-2004)

Para Richard Avedon, a fotografia tinha que justificar a sua existência através do seu reconhecimento como "arte", com memória do homem, facetas contraditórias de um instante de uma vida enquanto sujeito, e das nossas vidas enquanto espectadores. Assim via as suas próprias fotografias como imagens vivas, prestes a saltar, provocando confrontos com os espectadores. Dono de um universo constante e intemporal, Richard Avedon viveu para testemunhar o século com mais História, que a Humanidade viveu. No entanto, e nas suas próprias palavras, todas as fotografias são verdadeiras. Mas nenhuma é verdade.